O dia em que o meu filho quis expulsar-me de casa: “Vais dormir na cozinha, mãe” – a história de Maria de Coimbra

— Não podes estar a falar a sério, Rui! — gritei, com a voz embargada, enquanto as minhas mãos tremiam sobre a mesa da sala. O Rui, o meu filho mais novo, olhava para mim com uma frieza que nunca lhe conheci. — Mãe, já falámos disto. A casa é grande demais para ti. Eu e a Sofia precisamos de espaço. Ficas com a cozinha e o quartinho ao lado. Não é assim tão mau.

Naquele instante, o tempo parou. O relógio antigo do corredor marcava as seis da tarde, mas para mim era como se tivesse parado para sempre. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o perfume da traição. Senti-me pequena, invisível, como se toda a minha vida tivesse sido reduzida àquele canto da casa onde passava horas a cozinhar para eles.

Sempre fui uma mulher de sacrifícios. Viúva desde os 42 anos, criei o Rui e a Ana sozinha, trabalhando como costureira para sustentar a casa no bairro da Solum, em Coimbra. Lembro-me das noites em que ficava acordada até tarde, costurando vestidos para as senhoras do bairro, só para garantir que os meus filhos nunca sentissem falta de nada. O Rui era o meu menino de ouro — pelo menos era isso que todos diziam. Inteligente, educado, sempre pronto a ajudar. Mas agora, diante de mim, estava um homem que eu mal reconhecia.

— Rui, esta casa foi construída com o suor do teu pai e o meu — tentei argumentar, a voz já mais baixa, quase um sussurro. — Não podes fazer isto comigo.

Ele desviou o olhar, impaciente. — Mãe, não compliques. A Sofia está grávida. Precisamos de espaço para o bebé. Tu ficas bem na cozinha. Sempre gostaste de lá estar.

Ouvindo aquilo, senti uma dor aguda no peito. Como é possível um filho dizer isto à própria mãe? Olhei para a Ana, sentada no sofá com os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela tentara defender-me antes, mas Rui era implacável.

— Rui, por favor… — murmurou ela. — Isto não se faz à mãe.

Ele levantou-se abruptamente e saiu da sala, batendo com a porta. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Durante dias vivi num limbo entre a raiva e a tristeza. Lembrei-me das festas de aniversário que organizava para eles na sala agora ocupada por caixas e móveis novos da Sofia. Recordei as noites em que o Rui vinha ao meu quarto pedir colo depois de um pesadelo. E agora? Agora era eu quem tinha pesadelos.

A Sofia evitava cruzar-se comigo nos corredores. Sussurrava ao telefone com a mãe dela sobre como era difícil viver comigo em casa. Uma noite ouvi-a dizer: — Ela é teimosa, não quer sair daqui…

Senti-me um estorvo na minha própria casa.

A Ana começou a vir mais vezes visitar-me. Trazia bolos e flores do mercado e tentava animar-me:

— Mãe, não deixes que te tratem assim. Se quiseres, vens viver comigo e com o Pedro.

Mas eu não queria ser um peso para ela também. Sempre me orgulhei da minha independência. O apartamento era meu — pelo menos era isso que dizia o testamento do meu marido.

Uma noite, depois de mais uma discussão com o Rui sobre o espaço da casa — ele queria transformar o meu quarto num escritório — sentei-me sozinha na cozinha e chorei como há muito não chorava. Oiço ainda hoje as palavras dele ecoarem: “Vais dormir na cozinha, mãe”.

No dia seguinte fui à Junta de Freguesia pedir ajuda jurídica. A senhora do balcão olhou para mim com pena:

— Dona Maria, infelizmente estas situações acontecem mais do que imagina…

Senti vergonha por estar ali, como se tivesse falhado como mãe.

Os dias passaram lentos e pesados. O Rui começou a trazer amigos para casa sem me avisar. A Sofia redecorou toda a sala sem me consultar. Até os meus retratos antigos desapareceram das paredes.

Uma tarde ouvi-os a discutir no corredor:

— Ela tem de sair daqui antes do bebé nascer! — disse Sofia.
— Não é assim tão fácil… — respondeu Rui.

Fui até ao quarto da Ana e sentei-me na cama dela, onde ainda guardava as bonecas da infância.

— Mãe — disse ela baixinho — porque é que ele ficou assim?

Não soube responder-lhe. Talvez tenha sido culpa minha por lhe dar tudo sem pedir nada em troca.

Na semana seguinte recebi uma carta registada: Rui queria formalizar a divisão da casa e obrigar-me a assinar um acordo de partilha. Senti-me traída por dentro e por fora.

Decidi então procurar um advogado público. O senhor doutor Martins ouviu-me com atenção:

— Dona Maria, não assine nada sem ler bem primeiro. Tem direitos nesta casa.

Voltei para casa mais determinada. Quando entrei na cozinha vi o Rui sentado à mesa:

— Mãe, precisamos falar.

Respirei fundo:

— Não vou sair desta casa, Rui. E não vou dormir na cozinha como se fosse uma criada.

Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez em semanas:

— Porque é que complicas tudo? Só quero o melhor para todos…

— O melhor para todos? Ou só para ti?

Ele ficou em silêncio.

Nessa noite dormi pouco mas sonhei muito: com o meu marido, com os meus filhos pequenos correndo pelo corredor… E acordei com uma força nova dentro de mim.

Comecei a procurar grupos de apoio para idosos vítimas de abuso familiar. Descobri histórias parecidas com a minha — mães expulsas pelos próprios filhos, pais relegados a quartos minúsculos ou lares contra vontade.

A Ana apoiou-me sempre:

— Mãe, tens direito à tua dignidade! Não deixes que te tirem isso.

O Rui acabou por ceder quando percebeu que eu não estava sozinha nem indefesa. A Sofia nunca mais me falou diretamente; evitava-me como se eu fosse um fantasma na casa dela.

Hoje continuo a viver no meu apartamento em Coimbra, mas já nada é igual. O Rui raramente me visita; a Ana vem todas as semanas e traz os netos para me alegrar os dias.

Às vezes pergunto-me: onde foi que errei? Será que amar demais pode ser um erro? Ou será que há filhos que simplesmente esquecem tudo aquilo que uma mãe fez por eles?

E vocês? Já sentiram que alguém vos virou as costas quando mais precisavam? Como se recupera a confiança depois de uma traição destas?