Quando a Minha Mãe, Aos 62 Anos, Se Casou de Novo e Nos Deixou Para Trás

— Não percebes mesmo, pois não, Sofia? — A voz da minha mãe ecoava pela cozinha, trémula, mas decidida. — Eu preciso de pensar em mim pela primeira vez na vida!

Fiquei ali, de pé, com as mãos a tremer e o coração aos pulos. O cheiro do café queimado misturava-se com o perfume floral dela, tão familiar e agora tão distante. O relógio da parede marcava quase meia-noite, mas o tempo parecia suspenso entre nós.

— Pensar em ti? — repeti, quase sem voz. — E nós? E os teus netos? Vais mesmo virar costas assim?

Ela desviou o olhar, fixando-se na janela embaciada. Lá fora, a chuva caía pesada sobre Lisboa. O silêncio dela era um muro. Eu queria gritar, queria agarrá-la pelos ombros e obrigá-la a olhar para mim, para os meus filhos que dormiam no quarto ao lado, à espera da avó que sempre os embalou.

— Sofia, eu já dei tudo o que tinha para dar. — A voz dela saiu baixa, quase um sussurro. — Fui mãe solteira, trabalhei noites inteiras para te dar uma vida digna. Agora… agora quero ser feliz.

Feliz. Como se a felicidade dela fosse um bilhete de comboio só de ida. Como se nós fôssemos apenas uma estação intermédia.

O nome dele era António. António Dias, empresário do ramo imobiliário, viúvo há pouco tempo. Conheceram-se num jantar de amigos comuns e, em poucos meses, ele encheu a minha mãe de presentes caros e promessas de viagens pelo mundo. Eu nunca gostei dele — não por ser rico ou por ser mais velho, mas porque via nos olhos dele uma espécie de posse, como se a minha mãe fosse mais um troféu para exibir.

A notícia do casamento chegou como um trovão numa tarde de verão. Sem aviso, sem conversa prévia. Um telefonema seco: “Vou casar-me com o António no próximo mês. Não quero discussões. Espero que compreendas.”

Não compreendi. Nem eu nem os meus filhos. O Tomás chorou durante dias: “A avó vai embora? Ela não gosta mais de nós?” A Leonor desenhou corações partidos nos cadernos da escola. Eu tentava explicar-lhes que a avó precisava de tempo para si, mas nem eu acreditava nisso.

No dia do casamento, recusei-me a ir. O meu pai morreu cedo e fui eu quem ficou ao lado dela em todas as batalhas: quando perdeu o emprego na fábrica, quando adoeceu com pneumonia, quando o banco ameaçou levar-nos a casa. Sempre fomos só nós as duas — até agora.

O telefone tocava menos vezes. As mensagens dela tornaram-se curtas: “Estou ocupada”, “Depois ligo”. Até que um dia deixou mesmo de ligar.

— Achas que ela vai voltar? — perguntou-me o Tomás numa noite em que a chuva batia forte nas janelas.

— Não sei, filho — respondi-lhe, sentindo-me mais pequena do que nunca.

Os meses passaram e o vazio foi crescendo dentro de mim. O António levou-a para Cascais, para uma casa com vista para o mar e empregados que lhe serviam o pequeno-almoço na varanda. As fotos no Facebook mostravam-na sorridente em cruzeiros pelo Mediterrâneo, jantares em restaurantes caros, vestidos novos todas as semanas.

Eu olhava para aquelas imagens como quem vê um filme estrangeiro sem legendas: reconhecia a protagonista mas não entendia nada do enredo.

A família começou a comentar nas costas:

— A tua mãe sempre foi egoísta…
— Se calhar está doente e não quer preocupar-vos…
— Isso é coisa do António! Ele deve tê-la virado contra vocês…

Eu não sabia o que pensar. Sentia raiva dela por nos ter deixado assim, sem explicações nem despedidas dignas. Sentia culpa por não ter lutado mais, por não ter ido ao casamento nem tentado falar com ela cara a cara.

Uma noite sonhei com ela: estávamos as duas sentadas à mesa da cozinha antiga, a comer sopa de feijão e a rir das piadas do meu pai. Acordei com lágrimas nos olhos e uma saudade insuportável.

No Natal seguinte, enviei-lhe uma mensagem:

“Mãe, os miúdos sentem muito a tua falta. Eu também. Se quiseres vir jantar connosco, a porta está aberta.”

Ela respondeu dois dias depois:

“Obrigada pelo convite. Este ano vou passar o Natal fora com o António. Espero que estejam bem.”

Foi como levar um murro no estômago.

A Leonor deixou de perguntar pela avó. O Tomás começou a evitar falar dela. Eu tentava manter-me forte por eles, mas às vezes fechava-me na casa de banho só para chorar em silêncio.

Um dia recebi uma carta manuscrita dela — coisa rara nos tempos de hoje:

“Sofia,
Sei que estás magoada comigo e tens razão para isso. Não fui justa convosco ao afastar-me assim. Mas preciso que entendas: durante toda a minha vida fui mãe antes de ser mulher, antes de ser pessoa até. Agora sinto que mereço viver outra coisa — talvez seja egoísmo meu, mas é o que sinto.
Nunca deixei de vos amar. Só preciso de espaço para me reencontrar.
Com amor,
Mãe”

Li aquela carta dezenas de vezes. Chorei sobre ela como se fosse uma despedida definitiva.

Os anos passaram devagar. Fui aprendendo a viver sem ela: os aniversários tornaram-se mais silenciosos; as festas de família tinham sempre um lugar vazio à mesa; as crianças cresceram sem as histórias dela antes de dormir.

Às vezes via-a na televisão ao lado do António em eventos sociais — sempre elegante, sempre sorridente. Perguntava-me se aquele sorriso era verdadeiro ou apenas uma máscara para esconder as saudades.

Uma tarde recebi um telefonema inesperado:

— Sofia? Sou eu…

O coração disparou no peito.

— Mãe?

— Preciso de falar contigo…

Marcámos encontro num café discreto perto do Rossio. Quando a vi entrar, senti vontade de correr para ela e ao mesmo tempo fugir dali.

Sentámo-nos frente a frente como duas estranhas.

— O António morreu há dois meses — disse ela sem rodeios.

Fiquei sem palavras.

— Sinto muito…

Ela olhou-me nos olhos pela primeira vez em anos.

— Sinto falta da família… Sinto falta de ti…

O silêncio entre nós era pesado como chumbo.

— Porque é que te foste embora assim? — perguntei finalmente.

Ela respirou fundo:

— Porque tinha medo de nunca mais ter outra oportunidade de ser feliz… E porque achei que tu eras forte o suficiente para aguentar sem mim…

As lágrimas correram-lhe pelo rosto enrugado.

— Perdoas-me?

Não respondi logo. Olhei para as mãos dela — as mesmas mãos que me embalaram em criança — e percebi que também eu tinha mudado.

Talvez nunca volte a confiar nela como antes; talvez nunca consiga esquecer o abandono. Mas naquele momento percebi que ambas tínhamos sofrido perdas irreparáveis.

Hoje olho para trás e pergunto-me: será possível reconstruir uma família depois de tantas feridas? O amor de mãe resiste ao tempo e à distância? Ou há decisões na vida que nos marcam para sempre?

E vocês? Já sentiram este vazio dentro da vossa própria casa?