Deixei de apoiar o meu filho e perdi a minha neta: A história de uma mãe que perdeu a família por causa do dinheiro
— Mãe, não percebes que preciso mesmo desta ajuda? — O tom do Pedro, o meu filho, ecoava pela cozinha, carregado de uma raiva que eu já não reconhecia. Olhei para ele, os olhos fundos, as mãos a tremerem ligeiramente enquanto segurava a chávena de café. — Pedro, já não posso continuar assim. Eu também tenho contas para pagar, sabes? Estou reformada, não posso dar-te sempre dinheiro. — A minha voz saiu mais fraca do que queria, mas tentei manter a firmeza.
Ele bufou, levantou-se bruscamente e, sem olhar para mim, atirou: — Pois, para a tua neta também não tens tempo, não é? — Senti o golpe. A Leonor, a minha neta, era a luz dos meus olhos. Desde que nasceu, há seis anos, que tudo o que fazia era por ela. Era por ela que eu dizia sim ao Pedro, mesmo quando o meu coração gritava não. Mas agora, com a reforma e a subida dos preços, já não conseguia. O dinheiro não chegava para tudo.
Lembro-me de quando o Pedro era pequeno, como corria para mim com os joelhos esfolados e os olhos cheios de lágrimas. Eu pegava nele ao colo, limpava-lhe as feridas e prometia que tudo ia ficar bem. Nunca pensei que, tantos anos depois, seria ele a magoar-me assim.
— Pedro, não mistures as coisas. Eu amo a Leonor, mas não posso continuar a sustentar-te. Tens de encontrar uma solução, filho. — Tentei tocar-lhe no braço, mas ele afastou-se, como se o meu toque queimasse. — Não quero saber. Se não ajudas, não venhas cá a casa. E não penses que vais ver a Leonor tão cedo. — Saiu, batendo com a porta. O som ecoou pela casa, deixando um silêncio pesado, quase sufocante.
Durante dias, tentei ligar-lhe. Mandava mensagens, deixava recados. Nada. O Pedro não respondia. A Leonor fazia anos dali a uma semana. Preparei-lhe um presente, um livro de histórias que costumava ler ao Pedro quando era pequeno. Escrevi-lhe uma dedicatória, com a esperança de que, de alguma forma, o presente lhe chegasse. Mas nunca tive resposta.
O tempo foi passando. Os dias tornaram-se semanas, as semanas meses. O Natal chegou e passou. Sentei-me sozinha à mesa, o prato da Leonor vazio à minha frente. O silêncio era ensurdecedor. Lembrei-me de todos os Natais em que o Pedro era pequeno, como ficava radiante a abrir os presentes, como me abraçava com força. Agora, tudo o que restava era a ausência.
A vizinha, a Dona Emília, reparou que eu andava mais calada. — Maria, está tudo bem? — perguntava ela, com aquele jeito meigo. — Não, Emília. O Pedro não me fala. Não vejo a Leonor há meses. — As lágrimas vieram-me aos olhos, sem que conseguisse evitar. — Ele só me procurava por causa do dinheiro. Agora que não dou, não quer saber de mim. — Ela abraçou-me, apertando-me contra o peito. — Os filhos às vezes esquecem-se do que as mães fazem por eles. Mas a Leonor vai lembrar-se de ti, vais ver. — Queria acreditar, mas o vazio era maior do que a esperança.
Comecei a recordar tudo o que tinha feito pelo Pedro. Quando o pai dele nos deixou, eu trabalhei em dois empregos para que nada lhe faltasse. Nunca tive férias, nunca comprei roupa nova para mim. Era tudo para ele. Quando entrou na universidade, vendi as minhas jóias para pagar as propinas. Quando nasceu a Leonor, ajudei a pagar o enxoval, as fraldas, as vacinas. Sempre que o Pedro precisava, eu estava lá. Mas agora, sentia-me usada, descartada.
Um dia, decidi ir até à escola da Leonor. Queria vê-la, nem que fosse de longe. Esperei à porta, o coração aos pulos. Vi-a sair, de mochila às costas, a correr para o Pedro. O meu filho olhou para mim, os olhos frios, e puxou a Leonor para longe. — Avó! — ouvi a voz dela, mas o Pedro apressou o passo. Fiquei ali, parada, a ver a minha neta desaparecer na multidão. Senti-me morrer por dentro.
As noites tornaram-se longas. Dava por mim a falar sozinha, a reviver conversas, a imaginar o que poderia ter feito de diferente. Será que devia ter continuado a dar dinheiro ao Pedro, mesmo não podendo? Será que falhei como mãe? Como avó? A solidão era uma sombra constante.
A minha irmã, a Teresa, tentou animar-me. — Maria, tens de pensar em ti. O Pedro é adulto, tem de aprender a viver sem depender de ti. — Mas como é que uma mãe consegue desligar-se assim? Como é que se aceita perder um filho, uma neta, por causa de dinheiro? — Não sei, Teresa. Não sei viver sem eles. — Ela segurou-me as mãos, os olhos marejados. — Tens de ser forte. Um dia, a Leonor vai procurar-te. — Queria acreditar, mas a dor era maior do que a esperança.
O tempo foi passando. Comecei a escrever cartas à Leonor, que guardava numa caixa. Contava-lhe histórias da nossa família, falava-lhe do amor que sentia por ela. Era a minha forma de manter viva a ligação. Às vezes, sonhava que ela aparecia à porta, de braços abertos, a correr para mim. Acordava com o coração apertado, a realidade a pesar mais do que nunca.
Um dia, o Pedro apareceu à porta. Estava magro, olheiras fundas, o olhar perdido. — Preciso de falar contigo. — Senti o coração disparar. — Entra, filho. — Sentou-se à mesa, as mãos a tremer. — Estou em dificuldades. Perdi o emprego. A Leonor está a sentir tudo isto. — Olhei para ele, o meu filho, tão perdido como quando era pequeno. — Pedro, eu não posso dar-te dinheiro. Mas posso ajudar-te de outras formas. — Ele baixou a cabeça. — Não sei se consigo perdoar-te. — As palavras doeram mais do que qualquer coisa. — Não tens de me perdoar, filho. Só quero que saibas que te amo. E que amo a Leonor. — Ele levantou-se, saiu sem dizer mais nada.
Fiquei ali, sentada, a olhar para a porta fechada. Senti-me vazia, derrotada. O que é que uma mãe faz quando o amor não chega? Quando tudo o que deu não é suficiente? Será que fui sempre apenas um banco para o meu filho? Será que algum dia vou voltar a ver a minha neta?
Sei que não sou a única mãe a passar por isto. Quantas de nós sacrificam tudo pelos filhos, só para um dia serem deixadas para trás? Será que valeu a pena? Será que algum dia vou ter a minha família de volta?
E vocês, o que fariam no meu lugar? Até onde iriam por um filho? E quando é que o amor de mãe deixa de ser suficiente?