Entre Duas Famílias: O Dia em que Tive de Escolher Entre a Minha Mãe e a Minha Mulher

— Não admito que fales assim comigo na minha própria casa, Mariana! — A voz da minha mãe, Dona Lurdes, ecoou pela sala, carregada de raiva e mágoa. Eu estava sentado à mesa, com as mãos trémulas agarradas à chávena de café, enquanto via as duas mulheres mais importantes da minha vida trocarem olhares de fogo.

Mariana, a minha mulher há sete anos, não recuou. — Dona Lurdes, com todo o respeito, esta também é a minha casa. E o João tem direito a decidir o que é melhor para nós.

O silêncio caiu pesado. O relógio de parede marcava as dez da noite, mas ninguém parecia cansado. Só eu, esmagado entre as duas. O cheiro do bacalhau ainda pairava no ar, misturado com o aroma amargo da discussão.

A verdade é que tudo começou semanas antes, quando Mariana sugeriu que passássemos o Natal só os dois e os miúdos, em vez de irmos à casa dos meus pais, como sempre fizemos. Para mim, parecia uma ideia inocente. Mas para a minha mãe, foi uma traição.

— João, diz qualquer coisa! — A voz da Mariana tremia, mas os olhos estavam firmes. — Não posso continuar a sentir-me uma estranha na tua família.

Olhei para ela e depois para a minha mãe. Dona Lurdes estava vermelha, os olhos brilhavam de lágrimas contidas. — Sempre fiz tudo por ti! Dei-te tudo! E agora preferes esta mulher a mim?

Senti-me um miúdo outra vez, incapaz de agradar a ninguém. Recordei-me dos domingos em família, das tardes de verão no quintal dos meus pais em Viseu, das histórias que a minha mãe me contava antes de dormir. E agora ali estava eu, adulto, pai de dois filhos, sem saber como gerir o amor dividido.

— Mãe… — tentei começar, mas ela cortou-me logo:

— Não me chames mãe agora! — gritou ela. — Se fosses meu filho de verdade, não me fazias isto.

Mariana levantou-se abruptamente. — Eu vou deitar os miúdos. Quando decidires de que lado estás, avisa-me.

Fiquei sozinho com Dona Lurdes. Ela sentou-se pesadamente na cadeira e começou a chorar baixinho. Senti uma culpa tão funda que quase me sufocou.

— Joãozinho… — murmurou ela, usando o diminutivo que já não ouvia há anos. — Eu só quero o melhor para ti. Essa mulher está a afastar-te da tua família.

— Mãe… Mariana é a minha família agora também. Não posso escolher entre vocês.

Ela olhou-me como se eu tivesse acabado de lhe dar uma facada no peito. — Pois parece que já escolheste.

Subi as escadas devagarinho. Mariana estava sentada na cama dos miúdos, a fazer-lhes festas no cabelo enquanto dormiam. Sentei-me ao lado dela e tentei pegar-lhe na mão, mas ela afastou-se.

— João, eu não aguento mais isto. Todos os anos é igual: tudo gira à volta da tua mãe. Nunca temos Natal só nosso. Nunca somos prioridade.

— Mariana… ela está sozinha desde que o pai morreu. Sinto que se não formos lá, ela vai ficar destroçada.

Ela olhou-me com olhos cansados. — E eu? Não contas comigo? Não vês que também estou a precisar de ti?

Naquela noite não dormi. Fiquei a olhar para o teto, a ouvir o vento lá fora e os soluços abafados da minha mãe no quarto de hóspedes. Pensei em tudo o que tinha sacrificado para manter a paz: quantas vezes engoli em seco para evitar discussões? Quantas vezes pedi à Mariana para ceder só mais uma vez?

No dia seguinte, o ambiente estava gelado. O pequeno-almoço foi em silêncio. A minha mãe arrumou as malas sem dizer palavra e saiu sem olhar para trás.

Mariana ficou sentada à mesa, com os olhos postos na chávena de café vazia.

— Achas que fizemos bem? — perguntei-lhe baixinho.

Ela encolheu os ombros. — Não sei. Mas não podia continuar a sentir-me invisível.

Os dias seguintes foram um tormento. A minha mãe não me atendia o telefone. Os meus irmãos ligaram-me a dizer que eu era um ingrato, que estava a destruir a família por causa de uma mulher “mandona”. Mariana tentava ser forte, mas via nos seus olhos o medo de me perder para o passado.

No trabalho andava distraído. Os colegas perguntavam se estava tudo bem e eu sorria sem vontade. À noite, olhava para os meus filhos e perguntava-me se algum dia iriam perceber este nó impossível entre ser filho e ser marido.

Uma semana depois, bati à porta da casa da minha mãe em Viseu. Ela abriu devagarinho, com o rosto envelhecido pela mágoa.

— Vieste pedir desculpa? — perguntou ela sem rodeios.

— Vim pedir-te para tentares entender-me. Eu amo-te, mãe. Mas também amo a Mariana e os nossos filhos. Preciso que aceites isso.

Ela virou costas e foi sentar-se no sofá antigo da sala onde cresci.

— Sabes… quando eras pequeno dizias sempre que nunca me ias deixar sozinha — disse ela com voz embargada.

Sentei-me ao lado dela e peguei-lhe na mão enrugada.

— Nunca te vou deixar sozinha, mãe. Mas preciso que me deixes crescer.

Ela chorou baixinho durante muito tempo. No fim abraçou-me como há anos não fazia.

Quando voltei para casa naquela noite, Mariana estava à minha espera na sala escura.

— E então? — perguntou ela.

Sentei-me ao lado dela e abracei-a com força.

— Não sei se alguma vez vai ser fácil… mas quero tentar construir uma ponte entre as duas mulheres da minha vida.

Ela sorriu tristemente e encostou-se ao meu ombro.

Hoje olho para trás e pergunto-me: será possível agradar à mãe sem magoar a mulher? Ou será que estamos todos condenados a escolher um lado? Será que algum dia vou conseguir ser um bom filho e um bom marido ao mesmo tempo? O que fariam vocês no meu lugar?