Entre Dois Fogos: Quando o Meu Marido Pediu Que a Minha Mãe Saísse de Casa

— Mariana, não aguento mais. Ou a tua mãe sai de casa, ou eu vou-me embora. — As palavras do Rui ecoaram pela sala, cortando o ar como uma lâmina. Fiquei ali, parada, com as mãos trémulas a apertar a chávena de chá frio, enquanto a minha mãe, sentada ao meu lado, fingia não ouvir.

O relógio da parede marcava quase meia-noite. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que parecia sufocar-me. Olhei para o Rui, os olhos dele vermelhos de raiva e cansaço. Olhei para a minha mãe, Maria do Céu, que sempre fora o meu porto seguro, agora com o olhar perdido na televisão desligada.

— Rui, por favor… — tentei começar, mas ele interrompeu-me.

— Não Mariana. Já chega. Eu casei contigo, não com a tua mãe. Isto não é vida para ninguém! — gritou ele, levantando-se de rompante e batendo com a porta do quarto.

Senti as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. A minha mãe pousou a mão enrugada sobre a minha e sussurrou:

— Filha, se for preciso eu vou-me embora. Não quero ser um peso para ti.

Como é que chegámos aqui? Cresci nesta casa em Almada, entre risos e discussões típicas de uma família portuguesa. O meu pai morreu cedo, vítima de um AVC fulminante quando eu tinha apenas dez anos. A minha mãe ficou sozinha comigo e com o meu irmão mais novo, o Tiago. Fez tudo por nós: trabalhou como empregada de limpeza em três casas diferentes, nunca se queixou, nunca nos deixou faltar nada.

Quando casei com o Rui, há sete anos, ele aceitou viver connosco nesta casa. Era suposto ser temporário — só até conseguirmos comprar um apartamento nosso. Mas os anos foram passando, vieram as dificuldades financeiras, depois a pandemia… e nunca saímos daqui.

A minha mãe foi ficando mais frágil. No ano passado caiu e partiu o fémur; desde então precisa de ajuda para quase tudo. Eu trabalho numa farmácia das oito às oito; o Rui é motorista de autocarros e faz horários malucos. O Tiago emigrou para França e só liga de vez em quando.

Nos últimos meses, as discussões entre o Rui e a minha mãe tornaram-se diárias. Pequenas coisas: o volume da televisão, o cheiro da comida, as luzes acesas à noite. O Rui dizia que ela fazia de propósito para o irritar; a minha mãe dizia que ele era malcriado e não respeitava ninguém.

Naquela noite, depois do ultimato do Rui, não consegui dormir. Fiquei sentada na cozinha a olhar para as fotografias antigas na parede: eu e o Tiago pequenos no parque da cidade; a minha mãe sorridente no Natal; o meu pai com um bigode farto e olhos bondosos.

No dia seguinte fui trabalhar como um autómato. A colega Andreia percebeu logo que algo não estava bem.

— Mariana, estás pálida… aconteceu alguma coisa?

— O Rui quer que a minha mãe saia de casa — confessei num sussurro.

Ela ficou em silêncio uns segundos antes de responder:

— E tu? O que é que tu queres?

Não soube responder.

Quando cheguei a casa nesse dia, encontrei o Rui sentado à mesa da cozinha com um papel na mão.

— Falei com uma agência imobiliária — disse ele sem me olhar nos olhos. — Há apartamentos T2 baratos em Corroios. Podemos alugar um e levar a Leonor connosco.

A Leonor é a nossa filha de cinco anos. A ideia de arrancá-la da casa onde nasceu e afastá-la da avó deixou-me com um nó na garganta.

— E a minha mãe? Vais deixá-la sozinha?

— Ela pode ir para casa do teu irmão ou para um lar — respondeu ele seco.

— O Tiago está em França! E ela nunca aceitaria ir para um lar…

O Rui levantou-se bruscamente:

— Então decide tu! Mas eu não aguento mais esta vida. Sinto-me um estranho na minha própria casa!

Nessa noite sentei-me ao lado da minha mãe no sofá. Ela olhou para mim com ternura e tristeza.

— Filha, eu já vivi muito… Não quero ser motivo de discórdia entre ti e o Rui. Se for preciso vou para um lar.

— Mãe, não digas isso… — abracei-a com força, sentindo-lhe os ossos frágeis sob a camisola de lã.

A Leonor apareceu na sala com um desenho na mão:

— Avó, fiz-te uma flor! — disse ela sorridente.

A minha mãe sorriu-lhe como só as avós sabem sorrir aos netos.

Os dias seguintes foram um tormento. O Rui mal falava comigo; a minha mãe andava calada e cabisbaixa; até a Leonor parecia sentir o peso do ambiente pesado em casa.

Uma noite ouvi-os discutir na cozinha:

— Dona Maria do Céu, não pode deixar os tachos todos sujos! — ralhou o Rui.

— Não sou tua criada! — respondeu ela num tom magoado.

Entrei na cozinha e gritei:

— Chega! Não aguento mais esta guerra!

O Rui olhou para mim com lágrimas nos olhos:

— Mariana… eu amo-te. Mas não consigo viver assim. Preciso de paz.

A minha mãe baixou os olhos:

— Eu só queria ajudar…

Nessa noite liguei ao Tiago em França. Contei-lhe tudo entre soluços.

— Mariana… eu não posso voltar agora… Mas se quiserem mandar a mãe para cá uns tempos, arranjo-lhe um quarto — disse ele hesitante.

A ideia de separar-me da minha mãe doeu-me como uma facada. Mas talvez fosse mesmo essa a única solução.

No dia seguinte sentei-me com o Rui à mesa da cozinha.

— Se eu arranjar maneira da minha mãe ir para França uns meses… tu ficas connosco?

Ele assentiu em silêncio.

Falei com a minha mãe nessa tarde. Ela chorou baixinho mas acabou por aceitar.

No dia em que partiu para França, levei-a ao aeroporto com a Leonor pela mão. Abraçámo-nos as três como se fosse a última vez. A minha mãe sussurrou-me ao ouvido:

— Cuida de ti e da tua família, filha…

Quando voltei para casa senti-me vazia. O Rui tentou animar-me; fomos jantar fora, passeámos à beira-rio… mas nada era igual sem ela ali.

Passaram-se meses. A minha mãe ligava todos os dias mas sentia-lhe a tristeza na voz. O Tiago fazia o que podia mas tinha uma vida feita lá fora; ela sentia-se sozinha no meio de estranhos.

Um dia recebi uma chamada do hospital em Lyon: a minha mãe tinha caído outra vez. Corri para França sem pensar duas vezes. Quando cheguei ao hospital ela sorriu-me com lágrimas nos olhos:

— Sabes filha… nunca pensei acabar assim…

Na viagem de regresso a Portugal senti uma raiva surda contra tudo: contra o Rui por me ter obrigado a escolher; contra mim por ter cedido; contra o destino por ser tão cruel com quem só deu amor toda a vida.

Hoje vivemos sozinhos num apartamento pequeno em Corroios. A Leonor pergunta muitas vezes pela avó; eu invento desculpas ou digo que está longe porque precisa de descansar.

O Rui está mais calmo mas sinto que algo se perdeu entre nós — talvez tenha sido eu própria.

Às vezes pergunto-me: será que fiz bem? Até onde devemos ir por amor? E será justo pedir-nos que escolhamos entre quem nos deu tudo e quem escolhemos para partilhar a vida?