No Labirinto do Silêncio: Quando Uma Mãe Perde o Filho

— Não faças isso, Miguel! — gritei-lhe, a voz embargada, enquanto ele empacotava as últimas roupas no velho saco de viagem azul. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o perfume do detergente, mas o ar estava pesado, quase irrespirável. Ele nem sequer olhou para mim, limitando-se a fechar o fecho do saco com um gesto brusco. — Mãe, por favor, não compliques. Eu preciso de tentar outra vez. — Outra vez? — repeti, sentindo o coração a bater descompassado. — Depois de tudo o que ela te fez? Depois de te deixar sozinho, de te humilhar, de te fazer duvidar de ti próprio? Miguel suspirou, passando a mão pelo cabelo castanho, já com alguns fios brancos que não estavam lá antes do divórcio. — As pessoas mudam, mãe. Eu também mudei. — E eu? Eu não mudei? — perguntei, quase num sussurro, sentindo as lágrimas a ameaçarem cair. — Eu estive aqui, sempre. Fui eu que te ajudei a levantar quando ela te deixou. Fui eu que te ouvi chorar noite após noite, que te fiz sopa quando não tinhas forças para comer. — Eu sei, mãe. — Ele aproximou-se, tocando-me no ombro. — Mas preciso de tentar. Preciso de saber se ainda há algo para salvar. — E se não houver? — perguntei, mas ele já não me ouvia. O som da porta a fechar foi como um murro no estômago.

Fiquei ali, parada, a olhar para o corredor vazio. O silêncio da casa era ensurdecedor. Lembrei-me de quando ele era pequeno, de como corria para os meus braços depois de cair e magoar o joelho. Agora, caía de novo, mas para um abismo onde eu não podia chegar.

Os dias seguintes arrastaram-se numa rotina mecânica. Ia ao mercado, cumprimentava a Dona Rosa, a vizinha do terceiro andar, que sempre perguntava pelo Miguel. — Está tudo bem com o seu rapaz? — perguntava ela, com aquele sorriso bondoso. — Está, está sim — mentia eu, sentindo o peso da mentira a esmagar-me o peito. À noite, sentava-me à mesa da cozinha, olhando para o prato vazio à minha frente, imaginando se ele estaria a comer, se estaria feliz, ou se estaria, mais uma vez, a chorar sozinho.

O telefone tocava de vez em quando, mas eram sempre chamadas rápidas. — Olá, mãe. Está tudo bem. Não te preocupes. — E desligava antes que eu pudesse perguntar mais. Comecei a sentir-me invisível, como se a minha presença fosse apenas um eco distante na vida dele.

Um dia, decidi ir ter com ele. Preparei um bolo de laranja, o seu preferido, e apanhei o autocarro até ao bairro onde ele agora vivia com a Ana. O prédio era cinzento, com paredes descascadas e janelas sujas. Subi as escadas devagar, sentindo o peso dos anos nos joelhos. Bati à porta, o bolo nas mãos, o coração na boca.

Foi a Ana quem abriu. Olhou para mim com surpresa, mas sorriu. — Olá, Milena. Que surpresa! — Olá, Ana. Vim só trazer um bolo ao Miguel. — Ele está a dormir, teve um turno difícil — disse ela, hesitante. — Mas entre, por favor.

Sentei-me na sala, olhando em volta. Havia fotografias deles juntos, sorrisos congelados em molduras baratas. Senti uma pontada de ciúme, misturada com tristeza. — Ele está bem? — perguntei, tentando disfarçar a ansiedade. — Está… está a tentar. — Ana olhou para o chão. — Eu sei que não foi fácil para ele. Nem para mim. — Então porquê? — perguntei, incapaz de conter a amargura. — Porquê voltar, depois de tudo? — Porque às vezes, Milena, as pessoas precisam de se perder para se encontrarem outra vez. — Ela olhou-me nos olhos, e vi ali uma sinceridade que me desarmou. — Eu errei, mas quero fazer diferente. Por ele. Por nós.

Fiquei sem palavras. O Miguel apareceu à porta do quarto, os olhos inchados de sono. — Mãe? O que fazes aqui? — Vim trazer-te bolo. — O bolo de laranja? — perguntou, com um sorriso tímido. — O teu preferido. — Obrigado, mãe. — Ele abraçou-me, mas senti que era um abraço distante, como se houvesse um vidro entre nós.

Voltei para casa com o coração apertado. Passei a noite em claro, a pensar em tudo o que tinha dito e ouvido. Senti-me inútil, como se já não houvesse lugar para mim na vida dele. No dia seguinte, a minha irmã Teresa ligou-me. — Milena, tens de aceitar. Ele é adulto. Tem de fazer as escolhas dele. — Mas e se ele se magoa outra vez? — perguntei, a voz embargada. — Então estarás cá para o ajudar a levantar-se. Como sempre estiveste. — Mas e se ele não quiser a minha ajuda? — perguntei, mas Teresa ficou em silêncio.

Os meses passaram. O Miguel ligava cada vez menos. No Natal, convidei-os para jantar, mas disseram que iam passar com os pais da Ana. Passei a noite sozinha, a olhar para a árvore de Natal, as luzes a piscarem num ritmo triste. Lembrei-me dos Natais antigos, do Miguel a abrir presentes, a rir, a correr pela casa. Agora, tudo era silêncio.

Um dia, encontrei-o na rua, por acaso. Estava magro, com olheiras profundas. — Miguel, estás bem? — perguntei, preocupada. — Estou, mãe. Só estou cansado. O trabalho, a casa… — E a Ana? — Está tudo bem. — Mas vi nos olhos dele que não estava. — Se precisares de mim, sabes onde estou — disse-lhe, tocando-lhe no braço. — Eu sei, mãe. — Mas afastou-se rapidamente, como se o meu toque o queimasse.

Comecei a sentir-me cada vez mais sozinha. Os dias eram todos iguais, as noites ainda piores. Perguntava-me onde tinha falhado, o que podia ter feito diferente. Será que fui demasiado protetora? Será que devia ter deixado que ele caísse mais vezes, para aprender a levantar-se sozinho? Ou será que, no fundo, ele nunca precisou de mim tanto quanto eu precisava dele?

A Ana ligou-me uma noite. — Milena, o Miguel está mal. Não fala, não come, não dorme. Não sei o que fazer. — Vou já para aí — disse, sem pensar. Cheguei a casa deles e encontrei-o sentado no sofá, a olhar para o vazio. Sentei-me ao lado dele, peguei-lhe na mão. — Miguel, fala comigo. — Não sei o que fazer, mãe. Sinto-me perdido. — Então deixa-me ajudar-te. — Não posso. Tenho de resolver isto sozinho. — Mas não tens de estar sozinho. — Tenho, mãe. Preciso de encontrar o meu caminho. — E se te perderes? — perguntei, mas ele não respondeu.

Voltei para casa, sentindo-me mais impotente do que nunca. Passei a noite a chorar, a rezar para que ele encontrasse a paz que procurava. Os dias passaram, e ele foi melhorando, aos poucos. Ligava-me de vez em quando, mas as conversas eram sempre superficiais. Senti que o tinha perdido, não para a morte, mas para a vida. Para as escolhas que ele fez, para as dores que teve de enfrentar sozinho.

Hoje, olho para trás e pergunto-me se fiz tudo o que podia. Se o amei demais, ou de menos. Se devia ter lutado mais, ou se devia ter deixado ir mais cedo. O amor de mãe é assim: nunca sabemos se estamos a fazer bem ou mal, só sabemos que dói. Dói ver um filho sofrer, dói não poder protegê-lo, dói sentir que já não somos necessários.

E vocês, já sentiram que perderam alguém sem o perder de verdade? Será que o amor de mãe tem limites, ou será que, no fim, só nos resta esperar que eles voltem, quando estiverem prontos para nos deixar entrar de novo?