O Testamento Que Despedaçou a Minha Família
— Não é justo, mãe! — gritei, sentindo a garganta arder e as mãos tremerem enquanto segurava aquele papel amarelado. O testamento estava ali, diante de mim, com o nome do Rui escrito em todas as linhas importantes. A minha mãe, Maria do Carmo, olhava para mim com um misto de cansaço e tristeza nos olhos, sentada na poltrona antiga da sala, aquela que sempre cheirava a alfazema e memórias.
— Filha, não faças isso agora… — murmurou ela, desviando o olhar para a janela, como se lá fora estivesse a resposta para o que eu sentia.
Mas eu não conseguia parar. O meu peito parecia pequeno demais para tanto ressentimento. Sempre fui a filha que ficou, que cuidou dela quando o pai morreu, que abdicou de sair de casa para estudar em Lisboa porque ela precisava de mim aqui, em Viseu. O Rui foi embora cedo, para o Porto, e só vinha nas festas ou quando precisava de dinheiro.
— Não faças isto agora? Quando é que seria o momento certo? Quando tu já cá não estiveres e eu ficar a olhar para as paredes vazias desta casa?
Ela não respondeu. O silêncio era pesado, só interrompido pelo tique-taque do relógio de parede. Senti-me ridícula por chorar ali, aos trinta e cinco anos, como uma criança a quem tiraram o brinquedo favorito.
O Rui chegou nesse instante, como se tivesse sentido o cheiro da discórdia. Entrou sem bater, com aquele ar de quem nunca tem culpa de nada.
— O que se passa aqui? — perguntou, olhando de mim para a mãe.
— Pergunta-lhe tu — atirei-lhe o testamento para as mãos. Ele leu-o rapidamente e encolheu os ombros.
— Sempre soube que isto ia dar confusão…
— Sabias? E nunca disseste nada? — A minha voz saiu mais aguda do que queria.
Ele olhou para mim com aquele ar superior.
— Achas mesmo que eu ia discutir com a mãe sobre isto? Ela tem os motivos dela.
— Motivos? Quais motivos? — virei-me para a minha mãe, esperando uma explicação que fizesse sentido.
Ela suspirou fundo e finalmente falou:
— Eu só queria proteger-vos aos dois. O Rui tem filhos pequenos, tu tens o teu trabalho…
— Trabalho? Eu trabalho numa loja de roupa! Mal chega para pagar as contas! — interrompi-a. — E os filhos do Rui têm mãe! Eu só tenho esta casa!
O Rui bufou.
— Olha lá se não te estás a fazer de vítima outra vez…
A discussão subiu de tom. Vieram à tona mágoas antigas: o Natal em que ele não apareceu, as vezes em que eu fiquei sozinha com a mãe no hospital, as promessas dele nunca cumpridas. A mãe chorava baixinho, pedindo-nos para parar. Mas era como se tudo o que ficou por dizer durante anos estivesse agora a sair à força.
Naquela noite não dormi. Fiquei sentada na cama a olhar para o teto, a pensar em tudo o que tinha dado àquela família e no vazio que sentia agora. Lembrei-me do pai, da maneira como ele me chamava de “minha menina”, do cheiro do seu casaco quando me abraçava. Ele teria deixado isto acontecer?
No dia seguinte, tentei falar com a mãe calmamente. Preparei-lhe chá, sentei-me ao lado dela no sofá.
— Mãe, preciso mesmo de entender… Porque é que fizeste isto?
Ela olhou-me nos olhos e vi ali uma dor antiga.
— Filha… há coisas que nunca te contei sobre o teu irmão.
O meu coração acelerou.
— O quê?
Ela hesitou antes de continuar:
— Quando eras pequena… o teu pai teve problemas com dívidas. O Rui era só um adolescente mas foi ele quem nos ajudou a sair daquela confusão. Ele trabalhou à noite num café durante meses sem me dizer nada. Pagou parte das dívidas do pai às escondidas. Eu devia-lhe isso…
Fiquei sem palavras. Nunca soube dessa história. Sempre achei que o Rui era o filho ausente, o irresponsável.
— Mas… e eu? Eu estive sempre aqui contigo…
Ela pegou-me na mão.
— Tu deste-me companhia e amor todos os dias. Mas eu senti que devia ao Rui uma segurança para os filhos dele…
Senti uma mistura de raiva e compaixão. Era como se tudo aquilo me tivesse sido roubado: a verdade sobre o meu irmão, a imagem da minha mãe justa e imparcial.
Nos dias seguintes, tentei falar com o Rui sobre o passado. Encontrámo-nos num café do centro da cidade.
— Porque é que nunca me contaste nada? — perguntei-lhe.
Ele encolheu os ombros.
— Achei que não valia a pena. Sempre foste a preferida da mãe…
Ri-me amargamente.
— A preferida? Se soubesses como me sinto agora…
Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez em muito tempo.
— Olha, mana… eu também tive inveja de ti muitas vezes. Tu tinhas tudo: atenção da mãe, estabilidade… Eu só queria sair daqui e fazer a minha vida longe disto tudo.
Percebi então que cada um de nós carregava feridas diferentes. Crescemos na mesma casa mas vivemos realidades opostas.
A tensão entre nós não desapareceu de um dia para o outro. A mãe adoeceu pouco tempo depois e precisei de cuidar dela ainda mais. O Rui vinha visitá-la mais vezes mas nunca ficava muito tempo. No hospital, ela pediu-me desculpa entre lágrimas:
— Só queria proteger-vos… Não sabia como fazer melhor…
Apertei-lhe a mão e prometi-lhe que ia tentar perdoar. Mas perdoar não é esquecer nem deixar de sentir dor.
Quando ela morreu, o testamento foi lido oficialmente. Fiquei com algumas joias antigas e recordações pequenas; a casa ficou para o Rui. Ele tentou convencer-me a ficar lá com ele e os filhos durante algum tempo mas recusei. Precisava de encontrar um lugar só meu — longe das sombras daquela casa cheia de segredos e silêncios.
Hoje vivo num pequeno apartamento alugado no centro de Viseu. Trabalho muito mas sinto-me mais leve sem aquela expectativa constante de agradar à minha mãe ou competir com o meu irmão por migalhas de afeto.
Às vezes pergunto-me se alguma vez vamos conseguir ser uma família unida outra vez ou se estamos condenados a viver presos ao passado e às escolhas dos nossos pais. Será possível perdoar verdadeiramente quem amamos quando nos sentimos traídos? E vocês — já passaram por algo assim? Como encontraram paz?