O Décimo Filho: Debaixo do Mesmo Teto, Sonhos Diferentes

— Outra vez sopa de legumes, mãe? — resmunga a Beatriz, a minha terceira filha, enquanto empurra o prato com o garfo. O barulho das vozes à mesa mistura-se com o tilintar dos talheres e o choro do bebé, a Leonor, que ainda não tem um ano. Sinto o suor frio escorrer-me pela testa, apesar do frio lá fora. O Edson olha-me de lado, como quem pede paciência.

— Beatriz, há quem não tenha nada para comer — digo, tentando manter a voz firme, mas já sem forças para mais discussões.

A verdade é que estou exausta. Nove filhas. Nove! E agora, grávida do décimo filho. Cada vez que olho para o teste de gravidez pousado em cima da cómoda do nosso quarto minúsculo, sinto um misto de medo e esperança. Será desta vez um rapaz? Ou será mais uma menina para se juntar à nossa ‘tropa feminina’, como dizem as vizinhas com aquele sorriso trocista?

O Edson tenta animar-me, mas sei que também ele sente o peso dos olhares e dos comentários. No café da esquina, já ouvi dizerem: “Lá vai o Edson com o seu harém!”. E eu? Eu sou a mãe galinha, a mulher que só sabe parir meninas.

— Mirela, já pensaste se aguentas mais um? — pergunta-me a minha mãe ao telefone, voz carregada de preocupação. — Não tens de provar nada a ninguém.

— Mãe, não é questão de provar… é só que… sinto que falta qualquer coisa. — A minha voz falha. Não consigo explicar-lhe este vazio que me consome por dentro. Não é só o desejo de ter um rapaz. É como se cada gravidez fosse uma tentativa de preencher um buraco que nunca desaparece.

A casa está sempre cheia de barulho: risos, discussões, choros, música das miúdas no telemóvel. Mas há noites em que tudo silencia e fico sozinha com os meus pensamentos. Lembro-me do início do casamento com o Edson, quando sonhávamos com uma família grande. Mas nunca imaginei isto: nove filhas e uma barriga que cresce mais uma vez.

Os conflitos começaram quando nasceu a quinta filha. O meu sogro, o senhor António, nunca escondeu a desilusão:

— Mais uma rapariga? O nome da família vai acabar por aqui…

O Edson tentava defendê-las:

— Pai, são todas minhas filhas! O nome não se perde.

Mas eu sentia-me culpada. Como se fosse minha responsabilidade dar-lhe um neto rapaz. Como se o meu corpo falhasse sempre no mesmo ponto.

As minhas filhas são tudo para mim. A Inês ajuda-me com as mais pequenas; a Mariana sonha ser bailarina; a Sofia quer ser médica. Mas também elas sentem o peso dos comentários na escola:

— Então, quantas irmãs tens mesmo? — perguntam-lhe os colegas da turma.

— Nove… quase dez — responde a Inês, baixando os olhos.

Na última reunião de família, a minha cunhada Teresa não resistiu:

— Mirela, ainda não aprendeste a usar métodos? Ou é mesmo gosto?

Senti o rosto arder de vergonha e raiva. O Edson apertou-me a mão por baixo da mesa.

— Teresa, cada um sabe de si — respondeu ele, mas percebi que estava magoado.

À noite, depois de todas adormecerem, sentei-me na cama ao lado dele:

— Achas que estamos a fazer tudo errado?

Ele olhou-me nos olhos:

— Não quero saber do que dizem. Só quero que estejas bem.

Mas eu não estava bem. Tinha medo de não conseguir dar atenção suficiente a cada filha. Tinha medo de não conseguir amar este novo bebé como merece. Tinha medo de me perder no meio deste caos.

No centro de saúde, a enfermeira sorriu-me com pena:

— Mais um? Corajosa…

Corajosa? Ou inconsciente? Perguntei-me tantas vezes.

Os dias passavam entre fraldas, trabalhos de casa e discussões sobre quem ficou com o último iogurte no frigorífico. A barriga crescia e com ela a ansiedade do desconhecido.

Uma noite ouvi as duas mais velhas discutirem no corredor:

— A mãe só quer saber dos bebés! — gritou a Mariana.

— Não é verdade! Ela faz tudo por nós — respondeu a Inês.

Senti as lágrimas escorrerem-me pelo rosto. Será que estou mesmo a falhar como mãe?

No ultrassom, o médico sorriu:

— Querem saber o sexo?

O Edson apertou-me a mão. Eu hesitei.

— Sim… — sussurrei.

O silêncio pareceu eterno até ouvir:

— É uma menina.

O Edson sorriu-me com ternura. Mas eu senti um aperto no peito. Mais uma menina. Mais uma filha para amar e proteger deste mundo cruel.

Quando contei às miúdas em casa, houve gritos e risos. A Leonor bateu palmas sem perceber porquê. Só eu fiquei calada por uns segundos.

À noite, sentei-me sozinha na varanda enquanto chovia lá fora. Pensei em todas as expectativas dos outros: do meu sogro que queria um neto rapaz; da minha mãe que queria ver-me descansar; das vizinhas que queriam ver-me falhar; das minhas filhas que só queriam ser amadas.

E pensei em mim. No vazio que sentia e na esperança teimosa de que talvez esta décima filha fosse diferente. Talvez fosse ela quem me ensinasse finalmente a aceitar-me como sou: imperfeita, cansada, mas cheia de amor.

No dia em que nasceu a Matilde — sim, escolhemos esse nome juntas — senti uma paz estranha ao vê-la nos meus braços. As irmãs rodearam-nos num abraço apertado e percebi que não faltava nada na nossa família.

Hoje olho para as minhas dez filhas e pergunto-me: porque será que deixamos os sonhos dos outros pesarem tanto sobre nós? Será que alguma vez aprenderei a ser suficiente para mim mesma?