Entre Gritos e Silêncios: A Minha Vida à Sombra do Meu Pai
— Inês, não te atrevas a sair deste quarto! — A voz do meu pai ecoou pelo corredor, rouca e carregada de raiva. O cheiro a vinho tinto misturava-se com o aroma do jantar queimado na cozinha. Eu estava sentada na cama, com o caderno aberto no colo, as mãos a tremer. Oiço a minha mãe a tentar acalmá-lo, mas sei que é inútil. Quando ele bebe, ninguém o consegue travar.
Fecho os olhos e pergunto-me, pela milésima vez, como seria viver numa casa normal. Será que as outras raparigas também têm medo de sair do quarto à noite? Será que também escrevem cartas para se sentirem menos sozinhas? Oiço um copo partir-se na sala. O meu irmão mais novo, o Tiago, deve estar escondido debaixo da mesa da cozinha, como faz sempre. Tenho vontade de ir ter com ele, mas não posso. O meu pai já me avisou: “Hoje ninguém me desafia!”
A minha mãe entra no quarto de rompante, os olhos vermelhos e a voz baixa:
— Inês, por favor, não digas nada. Ele está pior hoje…
Sinto uma raiva surda a crescer dentro de mim. Porque é que temos de viver assim? Porque é que ela aceita isto? Mas não digo nada. Limito-me a abraçá-la, sentindo o seu corpo frágil a tremer contra o meu.
Lembro-me de quando era pequena e o meu pai me levava ao parque da cidade. Ele ria-se alto, empurrava-me no baloiço e comprava-me gelados. Era o meu herói. Mas depois perdeu o emprego na fábrica de cerâmica e tudo mudou. Primeiro vieram os silêncios longos à mesa, depois as garrafas escondidas atrás dos livros da estante. E, finalmente, os gritos.
Na escola, tento fingir que sou igual às outras. Mas basta um olhar mais atento para perceberem que há algo errado comigo. A professora de Português chamou-me à parte depois da última redação:
— Inês, queres conversar? Pareces tão triste ultimamente…
Quase lhe contei tudo. Quase. Mas calei-me. Tenho medo que se souberem, nos tirem ao meu pai. E apesar de tudo… ainda o amo.
O Tiago tem apenas oito anos e já sabe quando deve ficar calado. Ontem ouvi-o a sussurrar à nossa mãe:
— Mãe, o pai vai deixar de beber um dia?
Ela não respondeu. Limitou-se a passar-lhe a mão pelo cabelo e a sorrir com tristeza.
Às vezes invejo os meus colegas que reclamam dos pais porque não os deixam sair à noite. Eu só queria poder jantar em paz, sem medo de um prato voar pela sala ou de ouvir insultos dirigidos à minha mãe.
No Natal passado, tentei fazer as pazes com ele. Escrevi-lhe uma carta:
“Pai,
Lembro-me de quando me ensinaste a andar de bicicleta. Caí tantas vezes e tu dizias sempre: ‘Levanta-te, filha!’. Agora és tu quem caiu. E eu não sei como te ajudar a levantar-te. Amo-te, mesmo quando gritas comigo. Só queria ter o meu pai de volta.
Inês”
Encontrei a carta rasgada no caixote do lixo dois dias depois.
Na aldeia onde vivemos, todos sabem tudo sobre todos. As vizinhas cochicham quando passo na rua:
— Aquela é a filha do António… Sabes como ele fica quando bebe.
Sinto vergonha, mas também raiva delas. Não sabem nada sobre nós. Não sabem o quanto lutamos para manter as aparências.
Uma noite, ouvi os meus pais discutirem baixinho na cozinha:
— António, assim não dá mais! Os miúdos têm medo de ti!
— Cala-te! Tu é que me levaste a isto! — respondeu ele, atirando uma cadeira ao chão.
A minha mãe chorou durante horas nesse dia. No dia seguinte, apareceu com óculos escuros na missa.
Comecei a escrever um diário para não enlouquecer. Nele conto tudo: os medos, as esperanças, as pequenas alegrias roubadas ao caos diário. Escrevo sobre o Tiago e como ele ainda consegue sorrir quando brincamos juntos no quintal; sobre a minha mãe e o modo como ela me penteia o cabelo antes da escola; sobre o meu pai e os raros momentos em que pede desculpa.
Uma vez ouvi-o sussurrar à minha mãe:
— Eu não queria ser assim…
Mas no dia seguinte voltou tudo ao mesmo.
Na escola organizaram uma sessão sobre dependências. Falaram sobre álcool e drogas. Senti todos os olhares virarem-se para mim quando mencionaram famílias destruídas pelo vício. Saí da sala antes do fim da palestra.
A minha melhor amiga, a Mariana, tentou falar comigo:
— Inês, tu sabes que podes contar comigo para tudo…
Mas como explicar-lhe que há dores que não se partilham? Que há segredos que nos colam à pele como cicatrizes?
No verão passado, o meu pai foi internado no hospital depois de uma queda nas escadas. Fiquei dividida entre o alívio e a culpa. Durante duas semanas tivemos paz em casa. A minha mãe voltou a sorrir; o Tiago dormiu sem pesadelos.
Quando ele voltou para casa prometeu mudar:
— Juro-vos que nunca mais toco numa gota!
Acreditámos todos. Até ao dia em que encontrei uma garrafa vazia atrás do armário do corredor.
Às vezes sonho em fugir daqui. Imagino-me numa cidade grande como Lisboa ou Porto, onde ninguém me conhece e posso recomeçar do zero. Mas depois olho para o Tiago e sei que não posso deixá-lo sozinho neste inferno.
No outro dia ouvi a minha mãe ao telefone com a tia Rosa:
— Não aguento mais… mas para onde vou com dois filhos?
Senti-me egoísta por desejar que ela tivesse coragem de partir.
Hoje escrevo esta carta porque preciso de acreditar que alguém me ouve. Que alguém entende este amor ferido e esta raiva surda que carrego comigo todos os dias.
Oiço passos pesados no corredor. O meu coração dispara. Mas desta vez é só o Tiago:
— Inês… posso dormir contigo hoje?
Abraço-o com força e prometo-lhe baixinho:
— Um dia tudo isto vai passar.
Mas será mesmo? Será possível perdoar quem nos magoa tanto? Ou estamos condenados a repetir os erros dos nossos pais?
E vocês? Acham que é possível quebrar este ciclo? Como se aprende a perdoar sem esquecer?