Entre Dois Fogos: Uma Nora Portuguesa, Uma Sogra e o Preço da Paz Familiar

— Nunca vais ser como a Sofia, Joana. Nunca! — O grito da Dona Amélia ecoou pela cozinha, misturando-se com o cheiro do arroz de pato queimado. Senti o rosto a arder, não só do calor do forno, mas da humilhação. O Ricardo, sentado à mesa, olhava para o prato como se ali estivesse a resposta para todos os problemas do mundo. A Leonor, minha filha de cinco anos, começou a chorar baixinho no canto, agarrada ao boneco preferido.

Porquê sempre esta comparação? Porquê esta sombra constante da ex-nora perfeita? Eu sabia que a Sofia tinha sido tudo o que a Dona Amélia queria para o filho: elegante, educada, sempre pronta a ajudar. Mas também sabia que o casamento deles tinha acabado porque o Ricardo nunca foi capaz de se impor. E agora, comigo, tudo parecia repetir-se. Só que desta vez eu estava ali, no meio do fogo cruzado.

— Mãe, por favor… — arrisquei, tentando manter a voz firme. — Não é justo para mim nem para a Leonor.

Ela virou-se para mim com os olhos duros. — Justo? Sabes o que não é justo? Ver o meu filho infeliz porque tu não sabes cuidar dele como deve ser! A Sofia nunca deixava o arroz queimar.

O Ricardo continuava calado. Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Porque é que ele nunca me defendia? Porque é que eu tinha de ser sempre eu a tentar manter a paz?

Naquela noite, depois de deitar a Leonor — que adormeceu com soluços — sentei-me na varanda com um cigarro aceso entre os dedos. Não fumo, mas naquela noite precisei de sentir alguma coisa diferente. O Ricardo veio ter comigo.

— Não ligues à minha mãe… Ela é assim com toda a gente.

— Não é verdade — respondi. — Com a Sofia era diferente. E tu deixas.

Ele suspirou e passou as mãos pelo cabelo. — Não quero problemas…

— E eu? Eu não conto?

O silêncio dele foi pior do que qualquer resposta. Senti-me sozinha, como se estivesse a lutar contra um exército inteiro com uma colher de pau na mão.

No dia seguinte, acordei cedo e fui trabalhar. Sou professora primária numa escola pública em Almada. Gosto do que faço, mas ultimamente até as crianças pareciam sentir o peso da minha tristeza. A colega Ana reparou logo.

— Joana, estás bem? Pareces tão em baixo…

Quis dizer-lhe tudo, mas limitei-me a sorrir e a dizer que era cansaço. Quem é que quer ouvir falar de sogras e maridos calados às oito da manhã?

Ao fim do dia, quando cheguei a casa, encontrei a Dona Amélia sentada na sala com a Leonor ao colo. Estava a contar-lhe histórias da Sofia: como ela fazia bolos maravilhosos, como sabia sempre o que dizer para animar toda a gente. Senti um nó na garganta.

— Leonor, anda cá ajudar a mãe na cozinha — chamei.

A minha filha olhou para mim com olhos grandes e tristes. — A avó diz que a Sofia era melhor do que tu…

Sentei-me no chão ao lado dela e abracei-a com força. — Não ligues ao que dizem, meu amor. Cada pessoa é diferente. E eu amo-te muito.

Mas por dentro sentia-me cada vez mais pequena.

As semanas passaram e as coisas só pioraram. A Dona Amélia criticava tudo: desde a forma como vestia a Leonor até ao modo como arrumava os armários da cozinha. O Ricardo continuava ausente, refugiando-se no trabalho ou nos jogos de futebol com os amigos.

Uma noite, depois de mais uma discussão em que fui acusada de não saber ser mulher nem mãe, fechei-me na casa de banho e chorei até não ter mais lágrimas. Olhei-me ao espelho: os olhos inchados, o cabelo desgrenhado, as olheiras profundas. Quem era aquela mulher?

No dia seguinte tomei uma decisão: marquei uma consulta com uma psicóloga. Precisava de alguém que me ouvisse sem julgar.

A Dra. Margarida recebeu-me com um sorriso caloroso.

— Joana, fala-me de ti.

E pela primeira vez em muito tempo falei de mim: dos meus sonhos adiados, das noites sem dormir por causa das críticas da sogra, do medo de perder o Ricardo e da culpa por não conseguir proteger a Leonor deste ambiente tóxico.

— O que é que quer para si? — perguntou ela no final.

Fiquei sem resposta. Já nem sabia.

Comecei a ir à terapia todas as semanas. Aos poucos fui percebendo que não podia mudar os outros, mas podia mudar a forma como reagia às situações. Comecei a impor pequenos limites: deixei de aceitar convites para jantares em casa da sogra; quando ela criticava alguma coisa, respondia com calma ou simplesmente ignorava.

O Ricardo estranhou esta mudança.

— Estás diferente…

— Estou cansada de tentar agradar a toda a gente menos a mim própria.

Ele ficou calado durante uns segundos e depois saiu para ir ver televisão.

A relação entre nós foi-se tornando cada vez mais distante. Já não havia conversas à noite nem beijos de bom dia. Só rotinas vazias e silêncios pesados.

Um sábado à tarde, enquanto arrumava o quarto da Leonor, encontrei um desenho dela: três figuras de mãos dadas — ela no meio, eu de um lado e o pai do outro. Mas no canto estava outra figura sozinha: uma senhora de cabelo grisalho e cara triste. Era impossível não perceber quem era.

Sentei-me na cama e chorei outra vez. Não queria que a minha filha crescesse num ambiente assim.

Nessa noite esperei que o Ricardo chegasse do café e sentei-me com ele na sala.

— Precisamos de falar.

Ele olhou para mim desconfiado.

— Eu amo-te, Ricardo. Mas não posso continuar assim. Preciso que escolhas: ou defendes a nossa família ou continuamos nesta guerra fria até nos destruirmos todos.

Ele ficou em silêncio durante tanto tempo que pensei que ia levantar-se e sair outra vez. Mas finalmente falou:

— Não sei se consigo ir contra a minha mãe…

Foi como levar um murro no estômago.

— Então talvez seja melhor cada um seguir o seu caminho — disse eu, com uma calma que não sabia ter.

Na semana seguinte comecei a procurar casa para mim e para a Leonor. Foi difícil explicar-lhe tudo sem lhe causar mais dor, mas tentei ser honesta:

— Às vezes as pessoas deixam de ser felizes juntas e têm de procurar novos caminhos para poderem sorrir outra vez.

Ela abraçou-me com força e disse baixinho:

— Eu só quero que tu fiques feliz, mamã.

Mudámos para um pequeno apartamento perto da escola onde trabalho. No início foi duro: noites solitárias, contas para pagar sozinha, saudades do que podia ter sido se todos tivessem feito um esforço maior.

A Dona Amélia tentou convencer o Ricardo a lutar pela guarda da Leonor, mas ele recusou-se. Pela primeira vez vi-o tomar uma decisão sozinho.

Hoje olho para trás e vejo tudo com outros olhos. Ainda dói pensar no tempo perdido a tentar agradar aos outros enquanto me esquecia de mim própria. Mas também aprendi muito: sobre limites, sobre amor-próprio e sobre o verdadeiro significado da família.

Às vezes pergunto-me: quantas mulheres vivem presas nesta teia de expectativas alheias? Será que algum dia vamos conseguir ser felizes sem pedir desculpa por sermos quem somos?