As Férias Que Mudaram Tudo: Como Um Verão Me Tornou a Ovelha Negra da Família
— Vais mesmo deixar-nos assim, Mariana? — A voz da minha mãe ecoava pela cozinha, carregada de uma mistura de incredulidade e mágoa. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com a tensão no ar. Eu estava de pé, junto à porta, com a mala já feita, as mãos a tremerem ligeiramente. O meu pai olhava para mim por cima do jornal, os olhos semicerrados, como se tentasse decifrar se aquilo era uma rebeldia passageira ou uma afronta definitiva.
— Mãe, são só duas semanas. Preciso disto para mim. — A minha voz saiu mais fraca do que eu queria. Tinha ensaiado este discurso tantas vezes na cabeça, mas agora parecia tudo errado.
— Precisas? E nós? Achas que não precisamos de ti? — interrompeu o meu irmão mais novo, o Pedro, encostado ao frigorífico com os braços cruzados. — Quem vai ajudar o pai na oficina? Quem vai levar a avó ao médico?
Senti um nó na garganta. Sempre fui a que dizia sim a tudo. A que ficava até mais tarde a ajudar na oficina do meu pai, a que levava a avó ao centro de saúde, a que fazia compras para todos. Mas este ano, depois de dez anos sem férias, decidi fazer algo por mim: ir sozinha até à Costa Vicentina, caminhar pelas falésias, sentir o vento e o mar só para mim.
— Vocês conseguem desenrascar-se sem mim durante duas semanas — tentei sorrir, mas ninguém retribuiu.
A minha mãe virou-me as costas e começou a lavar a loiça com força desnecessária. O Pedro saiu da cozinha a resmungar. O meu pai limitou-se a um suspiro pesado.
No comboio para o sul, tentei afastar as palavras deles da cabeça. Olhei pela janela e vi os campos dourados a passarem depressa, como se quisessem fugir também. Senti-me culpada e livre ao mesmo tempo. Pela primeira vez em anos, não tinha horários nem obrigações. Só eu e o desconhecido.
Cheguei a Vila Nova de Milfontes ao fim da tarde. O sol dourava as casas brancas e o cheiro do mar era intenso. No hostel onde fiquei, conheci pessoas de todo o lado: a Sofia do Porto, o Tiago de Évora, até uma senhora inglesa chamada Margaret que fazia surf aos 60 anos. Senti-me pequena e grande ao mesmo tempo.
Na primeira noite, sentámo-nos todos à volta de uma fogueira improvisada na praia. O Tiago tocava guitarra e cantávamos músicas antigas. Senti uma alegria simples, quase infantil. Pela primeira vez em muito tempo, ninguém esperava nada de mim.
Mas cada vez que pegava no telemóvel via mensagens da minha mãe: “A avó caiu hoje.” “O Pedro está exausto na oficina.” “O pai não diz nada mas está triste.” As mensagens eram curtas, frias. Não respondi logo. Queria viver aquele momento só para mim.
No terceiro dia, recebi uma chamada do Pedro:
— Achas bonito? A avó foi parar ao hospital e tu aí feita turista! — gritou ele antes de eu conseguir dizer qualquer coisa.
— Pedro, eu preciso disto… — tentei explicar.
— Precisas? E nós? — desligou antes de ouvir a resposta.
Fiquei sentada na cama do hostel a olhar para o teto. Senti-me egoísta. Pensei em voltar para casa. Mas depois lembrei-me de todas as vezes em que pus os outros à frente de mim. De todas as noites sem dormir por causa dos problemas dos outros. De todos os sonhos adiados.
No dia seguinte fui caminhar sozinha pelas falésias até à praia do Malhão. O vento era forte e o mar parecia infinito. Sentei-me numa rocha e chorei tudo o que tinha guardado durante anos: o cansaço, a raiva, o medo de desiludir quem amo.
Quando voltei ao hostel, encontrei uma mensagem da minha mãe: “A avó já está melhor. O Pedro está mais calmo. Aproveita as férias.” Fiquei sem saber se aquilo era um voto de confiança ou uma rendição amarga.
Os dias passaram depressa demais. Aprendi a surfar com a Margaret (caí mais vezes do que consegui ficar em pé), dancei até às tantas num bar minúsculo com a Sofia e o Tiago, escrevi no meu diário pela primeira vez desde adolescente. Senti-me viva.
No último dia antes de voltar para casa, sentei-me sozinha na praia ao pôr-do-sol. Pensei em tudo o que tinha mudado dentro de mim. Sabia que nada seria igual quando voltasse.
Cheguei a casa ao fim da tarde. A minha mãe estava na cozinha como sempre, mas não me olhou nos olhos. O Pedro limitou-se a um aceno seco com a cabeça. O meu pai deu-me um abraço rápido e voltou para a oficina.
Durante dias ninguém falou sobre as minhas férias. Sentia-me como uma estranha na minha própria casa. Até que numa noite ouvi os meus pais a discutirem baixinho:
— Ela tem direito à vida dela — dizia o meu pai.
— E nós? Não contamos? — respondia a minha mãe.
— Sempre contou só ela para nós… Talvez esteja na altura de pensarmos também nela.
Na manhã seguinte, sentei-me à mesa com eles.
— Sei que vos desiludi — comecei, com a voz trémula. — Mas precisava mesmo disto para não me perder de mim mesma.
A minha mãe olhou para mim durante muito tempo antes de falar:
— Só não quero perder-te também.
Chorámos as duas ali mesmo, entre torradas e chávenas de café frio.
Hoje sei que nunca mais serei vista da mesma forma pela minha família. Para eles sou agora a filha que ousou sair do papel esperado; para mim sou finalmente alguém capaz de escolher por si própria.
Será que é possível sermos felizes sem magoar quem amamos? Ou será inevitável pagar um preço por sermos fiéis ao que somos? Gostava mesmo de saber se alguém já sentiu isto…