Amanhã Direi Tudo: Confissões de uma Nora Portuguesa
— Mariana, não te esqueças de pôr menos sal na sopa. O teu pai gosta dela assim, e sabes como a tua sogra é exigente — disse o João, sem sequer levantar os olhos do telemóvel.
A minha mão tremeu por um instante sobre a colher de pau. O cheiro do refogado subia no ar, misturado com o peso daquelas palavras. Não era a primeira vez que João me lembrava das preferências da mãe dele, como se eu fosse uma empregada nova e não a mulher com quem partilhava a vida há oito anos. Olhei para ele, sentado à mesa da cozinha, absorto nas notícias do Benfica, alheio ao turbilhão que me consumia por dentro.
A voz da Dona Amélia ecoou do corredor:
— Mariana, já puseste a mesa? Não te esqueças dos copos de cristal, hoje vem o tio António!
Respirei fundo. Os copos de cristal. Sempre os copos de cristal para as visitas, mesmo que eu soubesse que um deles tinha uma pequena lasca desde o Natal passado. Se dissesse alguma coisa, Dona Amélia olharia para mim com aquele ar de superioridade, como quem diz: “Na minha casa sempre se fez assim”.
O jantar foi um desfile de pequenas humilhações. Dona Amélia corrigiu-me três vezes à frente de todos — uma vez porque cortei o pão “demasiado grosso”, outra porque “não sabia servir o vinho sem fazer espuma”, e por fim porque “a carne estava seca”. O João limitou-se a sorrir amarelo e a mudar de assunto, como se nada fosse.
No fim da noite, enquanto lavava os pratos sozinha — porque “as visitas não podem ajudar” — ouvi risos vindos da sala. O meu filho, Tomás, brincava com os primos, e por um momento desejei ser criança outra vez, livre daquele peso que me esmagava o peito.
Quando finalmente me sentei no sofá, João já estava a dormir. Olhei para ele e perguntei baixinho:
— Porque é que nunca me defendes?
Ele resmungou algo incompreensível e virou-se para o outro lado. Senti uma lágrima escorrer-me pela face. Não era só cansaço; era solidão.
Lembro-me do dia em que conheci João. Era verão em Aveiro, e ele apareceu na esplanada onde eu trabalhava para pagar os estudos. Tinha um sorriso fácil e olhos que prometiam mundos. Apaixonei-me depressa demais, talvez porque queria fugir da casa dos meus pais — sempre tão rígidos, tão pouco dados a afectos. Quando me pediu em casamento, achei que estava a começar uma nova vida. Mas ninguém me avisou que casar com João era também casar com Dona Amélia.
No início tentei agradar-lhe. Aprendi as receitas dela, dobrei os lençóis como ela gostava, até comecei a ir à missa ao domingo só para não ouvir comentários. Mas nunca era suficiente. Se eu fazia algo bem, era porque “até uma criança conseguia”; se falhava, era porque “não tinha jeito para nada”.
Os anos passaram e fui-me apagando devagarinho. Deixei de sair com as minhas amigas porque Dona Amélia dizia que “uma mulher casada não anda em cafés”. Recusei um emprego numa loja porque ela achava que “não era digno para uma senhora da família”. Até o João começou a repetir as frases dela: “A minha mãe só quer o melhor para nós”.
O Tomás nasceu e pensei que as coisas iam mudar. Mas só pioraram. Agora tudo girava à volta dele — como eu o vestia, o que lhe dava de comer, até como lhe cortava as unhas. Uma vez Dona Amélia disse-me à frente de toda a família: “Se não fosses tão distraída, o menino não tinha ficado constipado”.
Comecei a ter insónias. Passava horas acordada a pensar em tudo o que queria dizer mas nunca dizia. Tinha medo de magoar o João, medo de criar conflitos, medo de ser vista como ingrata. Mas acima de tudo tinha medo de me perder completamente.
Esta noite foi diferente. Depois do jantar, fui ao quarto do Tomás dar-lhe um beijo de boa noite. Ele olhou para mim com aqueles olhos grandes e perguntou:
— Mãe, porque é que estás triste?
Senti um nó na garganta. Sentei-me ao lado dele e abracei-o com força.
— Não estou triste, amor. Só estou cansada.
Mas ele não acreditou. As crianças sentem tudo.
Quando voltei à sala, Dona Amélia estava a arrumar as suas coisas para ir embora.
— Mariana, amanhã não te esqueças de passar a ferro as camisas do João. Ele vai ter reunião importante.
Olhei-a nos olhos pela primeira vez em muito tempo.
— Amanhã trato disso.
Mas por dentro algo mudou. Senti uma raiva antiga misturada com uma coragem nova.
Esperei que todos dormissem e fui até à varanda. O ar fresco da noite bateu-me no rosto e chorei baixinho para não acordar ninguém. Pensei na Mariana que fui antes de tudo isto — cheia de sonhos, com vontade de viajar pelo mundo, de ser independente.
Peguei num caderno antigo onde costumava escrever poemas e comecei a rabiscar palavras soltas: “basta”, “voz”, “liberdade”.
Amanhã vou dizer tudo. Vou dizer ao João que preciso dele ao meu lado — não como espectador, mas como parceiro. Vou dizer à Dona Amélia que esta casa também é minha e que mereço respeito. Vou dizer ao mundo que existo para além das tarefas domésticas e das expectativas dos outros.
Sei que vai ser difícil. Sei que posso perder muito — talvez até o pouco conforto desta rotina sufocante. Mas já perdi demasiado tempo calada.
Esta noite é a última em que choro sozinha na varanda.
Amanhã direi tudo.
E vocês? Quantas vezes engoliram palavras por medo de desiludir alguém? Será que vale mesmo a pena sacrificar quem somos pelo silêncio dos outros?