Expulsa da Minha Própria Vida: “Não És Mãe, És Uma Maldição” – A Minha Queda e Luta pelo Meu Filho

— Sai daqui, Leonor! Não quero ver-te nem mais um segundo nesta casa! — gritou o Miguel, com os olhos vermelhos de raiva e as mãos a tremer. O eco da porta a bater ainda ressoava nos meus ouvidos quando percebi que não era um pesadelo. Era real. Estava na rua, de pijama, com a chuva a cair-me nos cabelos desgrenhados, e o meu filho, o meu pequeno Tomás, lá dentro, a chorar por mim.

O Miguel sempre foi um homem de poucas palavras e muitos silêncios. Mas naquela noite, quando o Tomás teve mais uma crise de asma, ele explodiu. — A culpa é tua! — atirou-me. — Se fosses uma mãe decente, o nosso filho não estava assim! — As palavras dele cortaram-me mais fundo do que qualquer faca. Eu sabia que não era verdade, mas naquele momento senti-me a pior mãe do mundo.

A minha sogra, a Dona Emília, apareceu à porta com o olhar frio. — Vai-te embora, Leonor. O Miguel precisa de paz e o Tomás também. Tu só trazes desgraça a esta casa. — Nem um pingo de compaixão. Nem uma pergunta sobre como eu estava. Apenas desprezo.

Caminhei pela rua deserta, sentindo o peso do mundo nos ombros. Não tinha para onde ir. Os meus pais morreram num acidente há anos e o meu irmão vive em França, distante não só em quilómetros mas também em sentimentos. Sentei-me num banco de jardim, abraçada a mim mesma, a tentar perceber onde é que tudo tinha começado a correr mal.

O Tomás nasceu prematuro. Desde cedo, as idas ao hospital eram frequentes: bronquiolites, alergias, noites sem dormir. Eu fazia tudo por ele. Larguei o emprego numa loja para cuidar dele a tempo inteiro. O Miguel dizia que compreendia, mas aos poucos foi-se afastando. Chegava tarde, evitava conversar comigo e culpava-me por cada tosse do nosso filho.

Naquela noite, depois de horas ao relento, liguei à minha amiga Inês. — Leonor? O que se passa? — perguntou ela, preocupada. — O Miguel pôs-me na rua… disse que sou uma maldição para o Tomás… — soluçava eu. Ela veio buscar-me imediatamente.

Fiquei no sofá dela durante semanas. A Inês era o meu único apoio. Mas mesmo ela começou a sentir o peso da minha presença. — Tens de resolver isto, Leonor. Não podes viver assim para sempre… — dizia-me baixinho, com pena.

Tentei falar com o Miguel várias vezes. Mandava-lhe mensagens: “Deixa-me ver o Tomás”, “Preciso saber como ele está”. Ele não respondia ou então mandava mensagens cruéis: “O Tomás está melhor sem ti”, “Já chega de drama”.

A vizinhança murmurava quando eu passava na rua. — Aquela é a mãe doente… — ouvi uma vez no supermercado. Senti-me invisível e ao mesmo tempo exposta ao escárnio de todos.

Procurei ajuda jurídica no centro social da freguesia. A assistente social olhou para mim com desconfiança: — Tem provas de maus-tratos? — Não… nunca lhe bati… só quero ver o meu filho… — expliquei-lhe entre lágrimas. — Sem provas é difícil… mas podemos tentar uma mediação familiar.

O Miguel recusou-se a comparecer à mediação. Disse que eu era instável e perigosa para o Tomás. A minha sogra testemunhou contra mim: — Ela tem crises nervosas… já a vi gritar com o menino… — Mentira! Nunca gritei com ele! Mas ninguém queria ouvir a minha versão.

Os meses passaram e eu sentia-me cada vez mais perdida. Comecei a ter ataques de pânico. A Inês sugeriu que procurasse ajuda psicológica. No consultório da Dra. Filipa desabei: — Sinto que perdi tudo… até o direito de ser mãe…

A Dra. Filipa foi a primeira pessoa em muito tempo que me ouviu sem julgar. — Leonor, não és uma má mãe por teres dificuldades… És humana. E tens direito a lutar pelo teu filho.

Ganhei coragem para procurar trabalho novamente. Arranjei um part-time numa pastelaria, onde passava os dias a servir cafés e bolos enquanto pensava no Tomás. Todos os dias escrevia-lhe cartas que nunca enviei:

“Meu querido filho,
Hoje vi um menino da tua idade a correr no parque e imaginei-te ali comigo…”

Um dia, recebi uma mensagem inesperada do Miguel: “O Tomás está no hospital outra vez.” O meu coração parou por instantes. Corri para o hospital de Santa Maria sem pensar em mais nada.

Quando cheguei ao quarto, vi-o tão pequenino na cama, ligado a máquinas. O Miguel estava lá, exausto.

— Deixa-me ficar com ele… por favor… — supliquei.

Ele olhou para mim com olhos cansados:
— Não sei se és tu ou eu quem faz pior ao Tomás…

Sentei-me ao lado do meu filho e peguei-lhe na mão.
— Mamã está aqui, meu amor…

O Tomás abriu os olhos e sorriu fracamente:
— Mamã…

Naquele momento percebi que ninguém podia tirar-me aquele amor.

Os dias seguintes foram um turbilhão de emoções. A médica chamou-nos:
— O Tomás precisa de estabilidade emocional tanto quanto física… É importante que os dois estejam presentes.

O Miguel não queria ceder, mas perante os conselhos médicos aceitou que eu passasse mais tempo com o nosso filho.

A Dona Emília continuava fria:
— Não te iludas, Leonor. O Miguel vai perceber que és um erro na vida dele.

Mas eu já não tinha medo dela nem dos olhares dos outros.

Comecei a reconstruir a relação com o Tomás devagarinho: lia-lhe histórias, cantava-lhe baixinho como fazia quando era bebé. Ele agarrava-se à minha mão como se tivesse medo que eu desaparecesse outra vez.

Quando finalmente teve alta, propus ao Miguel uma guarda partilhada:
— O Tomás precisa dos dois pais…

Ele hesitou muito tempo antes de aceitar.

Aos poucos fui recuperando algum respeito na comunidade: algumas mães começaram a cumprimentar-me no parque; outras ainda desviavam o olhar.

A Inês continuou ao meu lado em todos os momentos difíceis:
— Nunca duvidei de ti, Leonor.

Hoje vivo num pequeno T1 alugado perto da escola do Tomás. Trabalho muito para pagar as contas e ainda assim sobra pouco ao fim do mês. Mas todas as manhãs acordo com esperança porque sei que vou ver o sorriso do meu filho.

Às vezes ainda sinto raiva do Miguel e da Dona Emília pelo sofrimento que me causaram. Outras vezes penso se poderia ter feito algo diferente para evitar tudo isto.

Mas aprendi que ser mãe é resistir mesmo quando todos nos viram as costas.

E vocês? Já sentiram que vos tiraram tudo aquilo que mais amam? O que fariam se vos dissessem que não são dignos do amor dos vossos filhos?