Atrás das Portas Fechadas: Como a Minha Sogra Destruiu o Meu Casamento

— Mariana, não podes continuar a permitir isto! — gritou a minha mãe ao telefone, a voz trémula de preocupação e raiva. Eu estava sentada no chão da cozinha, as costas encostadas ao armário, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. Oiço, do outro lado da porta, a voz da minha sogra, Dona Lurdes, a discutir com o meu marido, Ricardo. O som das palavras dela, sempre tão afiadas, ecoava pelo corredor: — Esta casa é tão minha como tua, Ricardo! Não te esqueças quem vos ajudou a comprá-la!

Nunca pensei que a minha vida se transformasse nisto. Quando casei com o Ricardo, há cinco anos, achei que estava a começar uma nova família, um novo capítulo. Mas Dona Lurdes nunca aceitou verdadeiramente que o filho tivesse uma vida própria. No início, eram só visitas inesperadas, telefonemas a toda a hora, conselhos não solicitados sobre tudo — desde a forma como cozinhava o arroz até à cor das cortinas da sala. Eu tentava sorrir, ser educada, mas sentia-me cada vez mais sufocada.

— Mariana, não ligues, a minha mãe é assim mesmo, gosta de se meter — dizia-me o Ricardo, sempre a minimizar. Mas eu via nos olhos dele o mesmo cansaço que sentia em mim. Só que ele nunca teve coragem de lhe dizer “basta”.

As coisas pioraram quando engravidei da nossa filha, a Matilde. Dona Lurdes começou a aparecer todos os dias, com sacos de compras, listas de tarefas e opiniões sobre tudo. — Mariana, não devias comer isso. Mariana, não devias vestir a Matilde assim. Mariana, não sabes dar banho a uma criança? — repetia, como se eu fosse uma incompetente. Eu tentava manter a calma, mas cada palavra dela era uma ferida aberta.

A gota de água foi quando, numa tarde de domingo, cheguei a casa e encontrei a minha sogra a vasculhar as gavetas do meu quarto. — O que está a fazer aqui? — perguntei, a voz a tremer. Ela olhou para mim, sem qualquer vergonha: — Só estava a ver se tinhas roupa decente para o Ricardo. Não quero que o meu filho ande mal vestido por tua culpa.

Contei tudo ao Ricardo. Ele encolheu os ombros, como se fosse normal. — Mariana, ela só quer ajudar. Não leves a mal. — Mas eu já não aguentava mais. Comecei a evitar estar em casa, a inventar desculpas para sair com a Matilde. Sentia-me uma estranha na minha própria casa.

A situação tornou-se insustentável quando Dona Lurdes começou a aparecer com a chave de casa, sem avisar. Um dia, cheguei do trabalho e encontrei-a sentada no sofá, a ver televisão, como se fosse a dona da casa. — Mariana, já tratei do jantar. Podes ir descansar — disse, com aquele sorriso falso. Senti um nó na garganta. Liguei à minha mãe, desabafei tudo. — Troca a fechadura, Mariana. Não tens de viver assim — aconselhou-me ela.

Mas o Ricardo ficou furioso quando sugeri isso. — Vais pôr a minha mãe na rua? Ela ajudou-nos tanto! — gritou, batendo com a mão na mesa. Discutimos como nunca antes. Eu sentia-me sozinha, incompreendida. A Matilde, com apenas três anos, começou a perguntar porque é que a avó estava sempre zangada com a mamã.

As discussões tornaram-se diárias. Dona Lurdes fazia questão de me humilhar à frente do Ricardo, de me corrigir em tudo, de me fazer sentir pequena. Um dia, durante o jantar, ela disse: — O Ricardo sempre gostou de mulheres que sabiam cozinhar. Não sei onde foste buscar esta receita, Mariana, mas está intragável. — O Ricardo riu-se, como se fosse uma piada. Senti o coração a partir-se.

Comecei a ter ataques de ansiedade, a perder o sono. O Ricardo afastava-se cada vez mais, passava mais tempo no trabalho, deixava-me sozinha com a Matilde e com a sogra. Eu sentia-me a enlouquecer. Um dia, depois de mais uma discussão, fechei-me na casa de banho e chorei até não ter mais lágrimas. Olhei-me ao espelho e perguntei: — O que foi feito de mim?

A minha mãe insistia para eu ir para casa dela, mas eu não queria desistir do meu casamento. Tentei conversar com o Ricardo, explicar-lhe como me sentia. — Mariana, estás a exagerar. A minha mãe só quer o nosso bem. — Mas eu já não conseguia respirar naquele ambiente.

A situação atingiu o limite quando, numa noite, acordei com barulho na cozinha. Levantei-me e encontrei Dona Lurdes a mexer nas minhas coisas. — O que está a fazer? — perguntei, exausta. — Esta casa é tão minha como tua! — gritou ela. — Não te esqueças que fui eu que vos emprestei dinheiro para a entrada! — Senti uma raiva a crescer dentro de mim. — Pode ficar com o dinheiro, Dona Lurdes, mas não com a minha paz! — respondi, pela primeira vez a levantar a voz.

No dia seguinte, troquei a fechadura. O Ricardo ficou fora de si. — Isto é o fim, Mariana. Não posso escolher entre ti e a minha mãe. — E saiu de casa, batendo com a porta. Fiquei sozinha, com a Matilde ao colo, a chorar baixinho.

Os dias seguintes foram um pesadelo. Dona Lurdes ligava-me a toda a hora, ameaçava-me, dizia que ia tirar-me a Matilde. O Ricardo não me atendia o telefone. Senti-me perdida, traída, sem chão. Procurei ajuda, fui falar com uma psicóloga, tentei reconstruir-me aos poucos.

Hoje, passados dois anos, vivo sozinha com a Matilde. O Ricardo acabou por pedir o divórcio. Dona Lurdes nunca mais me falou. Ainda sinto mágoa, mas também alívio. Aprendi a impor limites, a proteger a minha filha e a mim própria. Às vezes, pergunto-me: quantas famílias serão destruídas por pessoas incapazes de largar o controlo? E quantas mulheres, como eu, terão coragem de fechar a porta — e trocar a fechadura — para se protegerem?

E vocês, o que fariam no meu lugar? Até onde iriam para proteger a vossa paz?