Quando um Presente Rasgou a Minha Família: Entre a Nora, a Sogra e um Natal Desfeito
— Não era preciso, Mariana. — A voz da minha sogra, Dona Teresa, cortou o silêncio da sala como uma faca afiada. O papel dourado ainda pendia dos seus dedos, rasgado, e o cachecol de lã azul que eu tinha escolhido com tanto cuidado repousava no seu colo, como se fosse um fardo.
Senti o olhar do Rui, meu marido, pousar em mim. Havia ali uma tensão que eu já conhecia — aquela sensação de nunca estar à altura, de ser sempre a forasteira. O Natal na casa dos pais do Rui era sempre assim: pratos de bacalhau, conversas sobre futebol e política, risos que me excluíam. Mas este ano eu quis tentar. Quis mostrar à Dona Teresa que me importava. Passei horas a tricotar aquele cachecol, a pensar nas cores que ela gostava, no frio que ela sentia nos passeios matinais pelo jardim.
— Eu só quis… — comecei, mas ela interrompeu-me.
— Não precisavas de gastar dinheiro comigo. — O tom era seco, quase acusatório.
— Fui eu que fiz — murmurei, sentindo o rosto arder.
O silêncio caiu pesado. O meu sogro pigarreou e tentou mudar de assunto, mas já era tarde. A minha cunhada, Sofia, olhou para mim com aquele ar de superioridade que sempre me irritou. Senti-me pequena, ridícula. O Rui apertou-me a mão por baixo da mesa, mas não disse nada.
Depois do jantar, enquanto todos se riam na sala, fui à cozinha buscar um copo de água. Ouvi vozes baixas na sala ao lado.
— Ela força tanto… — era a voz da Sofia.
— Pois é. Parece que quer comprar a nossa mãe — respondeu o primo João.
Senti as lágrimas a subir-me aos olhos. Não era justo. Eu só queria fazer parte daquela família. Desde que casei com o Rui, há três anos, nunca me senti verdadeiramente aceite. Sempre fui “a rapariga de Lisboa”, diferente deles, que vinham de uma vila pequena do Norte. Eles tinham histórias em comum, piadas internas, tradições que eu não compreendia.
Voltei para a sala com um sorriso forçado. A Dona Teresa nem olhou para mim. O Rui percebeu e tentou animar-me:
— O cachecol está mesmo bonito, Mariana.
— Não digas disparates — cortou a mãe dele. — Ela tem mais que fazer do que perder tempo com estas coisas.
O Rui calou-se. Senti-me sozinha.
Naquela noite, quando voltámos para casa, desabei.
— Porque é que ela me odeia tanto? — perguntei ao Rui, a voz embargada pelas lágrimas.
Ele suspirou.
— Não é ódio… É só o feitio dela. Ela não gosta de mudanças. E tu és diferente do que ela imaginava para mim.
— Então nunca vou ser suficiente?
Ele não respondeu.
Os dias seguintes foram um tormento. A Dona Teresa não me ligou para agradecer o presente. No grupo de WhatsApp da família, partilharam fotos do jantar — em nenhuma eu aparecia. Senti-me apagada da história deles.
No trabalho, tentei distrair-me, mas as colegas notaram o meu ar triste.
— Problemas com a sogra? — perguntou a Ana, com um sorriso compreensivo.
— Pior do que isso — respondi. — Acho que perdi a família do Rui para sempre.
A Ana contou-me histórias dela: também tinha uma sogra difícil. Mas dizia sempre: “Não deixes que te mudem. Se fizeste aquilo com amor, não tens de te envergonhar”.
Mas eu envergonhava-me. Comecei a evitar o Rui quando ele falava da família. Recusei convites para almoços de domingo. O Rui tentava convencer-me:
— Vai correr melhor desta vez. Dá-lhes tempo.
Mas eu não queria mais tentar.
Um dia, recebi uma mensagem da Sofia:
“A mãe está magoada contigo. Diz que não percebes nada da nossa família.”
Fiquei furiosa. Respondi:
“Eu tentei ser gentil. Não posso fazer mais do que isso.”
A resposta dela foi seca:
“Às vezes menos é mais.”
Contei ao Rui e ele ficou dividido entre mim e eles.
— Mariana… Eu amo-te. Mas também amo a minha família. Não quero ter de escolher.
As discussões começaram a ser frequentes em casa. Pequenas coisas tornavam-se grandes batalhas: quem ia passar o próximo Natal com quem; se íamos visitar os pais dele ou os meus; se eu devia ou não continuar a tentar agradar à Dona Teresa.
Uma noite, depois de uma discussão mais acesa, o Rui saiu de casa sem dizer para onde ia. Fiquei sozinha na sala escura, a olhar para o cachecol azul ainda por acabar — tinha começado outro igual para mim, mas agora parecia-me um símbolo do fracasso.
No dia seguinte, ele voltou com os olhos vermelhos.
— Fui falar com a minha mãe — disse ele.
Sentei-me no sofá, sem saber o que esperar.
— Ela acha mesmo que tu estás a tentar substituir a minha irmã… Sabes que ela morreu há cinco anos e desde aí nada foi igual cá em casa.
Fiquei sem palavras. Nunca ninguém tinha falado assim abertamente sobre a irmã do Rui comigo. Sempre foi um assunto tabu.
— Mariana… Ela sente-se ameaçada por ti porque tu és diferente daquilo que ela conhece e porque tens uma energia nova… E ela tem medo de perder o pouco que lhe resta da filha.
Chorei baixinho. Pela primeira vez percebi que talvez o problema não fosse só comigo — havia ali uma dor antiga, uma ferida aberta naquelas pessoas que eu tanto queria conquistar.
Decidi escrever uma carta à Dona Teresa:
“Querida Dona Teresa,
Sei que nunca fui aquilo que esperava para o seu filho e respeito isso. Mas queria dizer-lhe que tudo o que faço é com carinho e respeito pela sua família e pela memória da sua filha. Não quero substituir ninguém; só quero encontrar o meu lugar ao lado do Rui e ao lado de todos vocês. Se algum dia quiser conversar comigo sobre ela ou sobre qualquer coisa, estarei aqui.”
Esperei dias por uma resposta. Nada.
O tempo passou e as feridas foram ficando menos dolorosas, mas nunca sararam completamente. O Rui continuou dividido entre mim e eles; eu continuei a sentir-me estrangeira numa terra onde queria criar raízes.
No Natal seguinte, recusei ir à casa deles. Passei a noite sozinha em casa dos meus pais, enquanto o Rui foi jantar com os dele. Quando voltou, trazia nos olhos uma tristeza funda.
— Isto não pode continuar assim — disse ele.
Eu sabia disso há muito tempo.
Hoje olho para trás e pergunto-me: valeu a pena tentar tanto? Será possível construir uma família quando as feridas do passado são maiores do que qualquer gesto de amor? E vocês? Já sentiram que um simples gesto vos afastou das pessoas que mais queriam conquistar?