Cinco Anos Sob o Mesmo Teto: Quando a Família Não É Só Alegria

— Não achas que estás a exagerar, Mariana? — perguntou o Rui, com aquela voz cansada que eu já conhecia de cor.

Eu estava sentada à mesa da cozinha, as mãos trémulas a apertar a chávena de chá frio. Lá fora, a chuva batia nos vidros, mas cá dentro o frio vinha de outro lado. O Rui olhava para mim como se eu fosse um problema para resolver, não a mulher com quem partilhava a vida há quase dez anos.

— Exagerar? Rui, ela está aqui há três meses e já parece que a casa é dela! — respondi, tentando controlar o tom. — Ontem mexeu nas minhas coisas outra vez. E tu… tu nem dizes nada.

Ele suspirou, desviando o olhar. — A Sofia está a passar uma fase difícil. Não tem culpa de os pais se terem separado assim. E sabes que a minha mãe não tem condições para a receber.

A Sofia. A irmã mais nova do Rui, dez anos mais nova do que eu, vinda de Braga para estudar Direito em Lisboa. Quando o Rui me pediu para ela ficar connosco durante o primeiro semestre, achei que seria só isso: um semestre. Mas as caixas de livros multiplicaram-se, as roupas dela começaram a ocupar metade do nosso armário e os jantares passaram a ser discussões veladas sobre quem tinha deixado loiça por lavar.

No início tentei ser compreensiva. Lembrei-me dos meus próprios vinte anos, da insegurança de viver longe de casa. Mas a Sofia não era só insegura; era invasiva. Trazia amigos sem avisar, usava os meus cremes caros sem pedir licença, e uma vez até encontrei o meu diário aberto no sofá da sala.

— Mariana, não compliques — dizia o Rui sempre que eu tentava falar sobre isso. — Ela vai habituar-se.

Mas não se habituava. E eu comecei a sentir-me uma estranha na minha própria casa.

Uma noite, depois de mais uma discussão sobre as contas da água (que tinham duplicado desde que ela chegara), fui dormir para o sofá. O Rui ficou no quarto. Senti-me tão sozinha como nunca antes. Lembrei-me do dia em que nos mudámos para aquele apartamento: as paredes ainda nuas, os sonhos todos por construir. Agora parecia que tudo estava prestes a desmoronar.

No dia seguinte, acordei com vozes na cozinha. A Sofia ria-se alto com alguém ao telefone.

— Sim, sim, aqui é ótimo! O Rui e a Mariana são uns queridos… — dizia ela, sem notar que eu estava à porta.

Fui trabalhar com um nó no estômago. No escritório, a minha colega Inês percebeu logo que algo não estava bem.

— Outra vez problemas lá em casa?

Assenti. — Sinto que estou a perder o Rui. Ele só tem olhos para a irmã agora. Tudo o resto ficou em segundo plano.

A Inês pousou a mão no meu braço. — Tens de falar com ele. Não podes deixar isto arrastar-se.

Tentei seguir o conselho dela naquela noite. Esperei que a Sofia saísse para uma festa e sentei-me com o Rui na sala.

— Rui, isto não pode continuar assim. Eu amo-te, mas sinto que já não tenho espaço aqui. Preciso de ti do meu lado.

Ele ficou calado durante tanto tempo que pensei que não ia responder.

— Mariana… ela é minha irmã. Não posso deixá-la na rua.

— E eu? Vais deixar-me perder também?

Ele olhou para mim com olhos cansados. — Não sei o que fazer.

A partir desse dia, comecei a evitar estar em casa. Saía mais cedo para o trabalho, ficava até mais tarde na biblioteca ou ia jantar com amigas. O Rui parecia aliviado por não ter de enfrentar as conversas difíceis. A Sofia ocupava cada vez mais espaço: trouxe um gato sem avisar, mudou os móveis da sala e até começou a receber cartas em nosso nome.

O ponto de rutura chegou numa noite de domingo. Eu tinha planeado um jantar especial para tentar reaproximar-me do Rui. Fiz bacalhau à Brás, pus uma vela na mesa e vesti o vestido azul que ele sempre elogiava. Quando ele chegou, vinha acompanhado pela Sofia e dois amigos dela.

— Mariana, espero que não te importes… Trouxemos companhia!

Senti o chão fugir-me dos pés. Fui para o quarto e chorei como há muito não chorava.

No dia seguinte, liguei à minha mãe e contei-lhe tudo. Ela ouviu-me em silêncio e depois disse:

— Filha, às vezes temos de escolher entre sermos boas pessoas ou sermos felizes. Não deixes que te apaguem.

Essas palavras ficaram comigo durante dias. Comecei a pensar se aquele casamento ainda era meu ou se já tinha sido tomado por outra pessoa.

Uma tarde, ao chegar a casa, encontrei a Sofia sentada no sofá com o meu álbum de fotografias do casamento aberto no colo.

— Sabes, Mariana… Sempre quis ter uma relação como a vossa — disse ela, sem levantar os olhos das fotos.

Sentei-me ao lado dela e respirei fundo.

— Sofia… Eu sei que estás a passar um momento difícil. Mas esta casa também é minha. Preciso do meu espaço e do Rui ao meu lado. Não quero ser tua inimiga.

Ela olhou finalmente para mim, os olhos cheios de lágrimas.

— Desculpa… Eu só queria sentir-me parte de alguma coisa outra vez.

Nesse momento percebi que ela também estava perdida, à sua maneira. Mas isso não mudava o facto de eu estar a perder tudo aquilo por que tinha lutado.

Nessa noite falei com o Rui pela última vez sobre o assunto.

— Ou encontramos uma solução juntos ou eu vou embora — disse-lhe, sem rodeios.

Ele ficou em silêncio durante muito tempo antes de responder:

— Vou falar com a Sofia amanhã. Não quero perder-te.

Demorou mais dois meses até encontrarmos um equilíbrio: ajudámos a Sofia a encontrar um quarto perto da faculdade e prometemos estar lá para ela sempre que precisasse — mas cada um no seu espaço.

O casamento nunca voltou a ser igual; as cicatrizes ficaram. Mas aprendi que às vezes é preciso lutar pelo nosso lugar no mundo, mesmo quando isso significa magoar quem amamos.

Agora olho para trás e pergunto-me: quantas vezes deixamos de ser nós próprios para agradar aos outros? E será possível reconstruir algo depois de tanto ter sido destruído?