Sacrifícios Silenciosos: A Luta de uma Mulher Portuguesa Entre o Amor à Família e o Amor Próprio
— Não podes simplesmente virar costas, Mariana! — gritou a minha mãe, com a voz embargada, enquanto a chuva batia furiosa nas janelas da nossa casa em Setúbal.
Eu estava parada no corredor, com a mala meio feita aos meus pés, as mãos a tremer. O cheiro a café requentado misturava-se com o aroma húmido das paredes antigas. O relógio da sala marcava quase meia-noite, mas ninguém dormia naquela casa há semanas. A minha irmã, Inês, chorava baixinho no quarto ao lado, depois de mais uma discussão com o namorado. E eu, como sempre, era o pilar — ou pelo menos era isso que todos esperavam de mim.
Desde pequena que me ensinaram que o dever vinha antes do desejo. “A família é tudo”, dizia o meu pai antes de morrer, quando eu tinha apenas dez anos. Depois disso, a minha mãe tornou-se ainda mais dependente de mim. Eu era a filha mais velha, mas Inês sempre foi a frágil, a que precisava de proteção. Eu era a forte — ou pelo menos fingia ser.
Lembro-me de uma noite em que tinha 16 anos e sonhava ser bailarina. Tinha sido selecionada para uma audição em Lisboa. Cheguei a casa radiante, mas encontrei a minha mãe sentada à mesa, com as contas espalhadas à frente e os olhos vermelhos.
— Mariana, não temos dinheiro para essas coisas. Tens de ajudar aqui em casa. A tua irmã precisa de ti — disse ela, sem sequer levantar os olhos.
Nesse dia, pendurei as sapatilhas e nunca mais falei do assunto. Vi os meus sonhos ficarem presos numa gaveta, ao lado das fotografias do meu pai e das cartas que nunca enviei.
Os anos passaram e fui-me moldando às necessidades dos outros. Trabalhei num supermercado para ajudar nas despesas, adiei a universidade para cuidar da Inês quando ela teve uma depressão profunda aos 19 anos. Fui mãe sem ser mãe, mulher sem ser mulher.
A minha mãe tornou-se amarga com o tempo. O trabalho na fábrica desgastou-lhe as mãos e o coração. Muitas vezes descarregava em mim as frustrações que não sabia como gerir.
— Se não fosses tu, não sei o que seria desta família — dizia-me às vezes, num raro momento de ternura. Mas logo depois vinha o peso: — Não podes sair agora. A tua irmã precisa de ti. Eu preciso de ti.
Inês era bonita e sonhadora, mas nunca soube lidar com as adversidades. Apaixonava-se facilmente e sofria ainda mais depressa. Quando engravidou aos 21 anos e foi abandonada pelo namorado, fui eu quem ficou acordada noites inteiras ao lado dela, segurando-lhe a mão enquanto ela chorava pelo futuro que não teria.
O bebé acabou por não nascer — um aborto espontâneo que deixou marcas profundas nela e em mim. A partir daí, Inês fechou-se ainda mais no seu mundo de silêncios e lágrimas. E eu continuei a ser o escudo.
Aos 28 anos, conheci o Miguel no trabalho. Ele era diferente dos outros homens que conhecera: calmo, paciente, com um sorriso triste nos olhos. Começámos a sair às escondidas porque eu sabia que a minha mãe não ia aceitar bem. “Agora não é altura para namorados”, diria ela. “A tua irmã ainda não está bem.” Mas Miguel fazia-me sentir viva — pela primeira vez em muitos anos.
Uma noite, depois de um jantar simples na praia da Figueirinha, ele olhou-me nos olhos:
— Mariana, porque é que tens tanto medo de ser feliz?
Fiquei sem resposta. Porque é que tinha medo? Porque é que sentia culpa só por pensar em mim?
Quando finalmente contei à minha mãe sobre o Miguel, ela explodiu:
— Então agora vais abandonar-nos? Vais deixar a tua irmã sozinha? Depois de tudo o que fizemos por ti?
Senti-me pequena. Senti-me ingrata. Mas também senti raiva — uma raiva surda contra todos os anos em que fui apenas o suporte dos outros.
Miguel pediu-me para ir viver com ele para Lisboa. Disse que me ajudava a encontrar um curso à noite, que juntos podíamos construir uma vida diferente. Passei semanas dividida entre o medo e o desejo.
Numa noite especialmente difícil, ouvi Inês gritar no quarto:
— Mariana! Preciso de ti!
Corri até ela e encontrei-a sentada na cama, os olhos perdidos.
— Porque é que tu nunca te vais embora? — perguntou ela, quase num sussurro.
Sentei-me ao lado dela e chorei pela primeira vez em muitos anos.
— Porque tenho medo do que acontece se eu for — respondi-lhe.
Ela agarrou-me a mão com força.
— Eu também tenho medo — confessou.
Na manhã seguinte, tomei uma decisão. Falei com a minha mãe na cozinha enquanto ela preparava o café.
— Mãe, vou sair de casa. Vou tentar viver por mim.
Ela ficou imóvel durante uns segundos antes de largar a chávena na pia com força.
— Faz o que quiseres — disse ela, fria como nunca antes.
Arrumei as minhas coisas entre lágrimas e silêncios. Inês abraçou-me antes de eu sair:
— Não te esqueças de mim — pediu ela.
Prometi-lhe que nunca me esqueceria.
Os primeiros meses em Lisboa foram duros. Senti falta do cheiro da casa antiga, das rotinas familiares — até das discussões. Miguel foi paciente, mas eu estava partida por dentro. Liguei muitas vezes para casa; poucas vezes atenderam.
Aos poucos fui aprendendo a viver comigo mesma. Inscrevi-me num curso de dança à noite — finalmente dei esse passo. Fiz novas amigas; comecei a sorrir sem culpa.
Um dia recebi uma carta da minha mãe:
“A casa está vazia sem ti. A Inês está melhor. Talvez tenhas feito bem em ir embora. Espero que sejas feliz à tua maneira.”
Chorei ao ler aquelas palavras simples. Percebi que talvez todos nós estivéssemos presos ao medo — medo de perder, medo de mudar, medo de sermos egoístas.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas mulheres portuguesas vivem assim? Quantas sacrificam os seus sonhos pelos outros? Será possível amar sem nos perdermos completamente?