Quando Tudo Desaparece: Confissões de uma Mulher Abandonada

— Como é que foste capaz, António? — gritei para o vazio da sala, a minha voz ecoando nas paredes nuas. O cheiro a desinfetante do hospital ainda me perseguia, misturando-se agora com o odor frio da casa vazia. As cortinas tinham desaparecido, tal como as fotografias da nossa lua-de-mel em Sintra. Até o velho rádio que tocava fado nas manhãs de domingo tinha ido com ele.

Sentei-me no chão, incapaz de conter as lágrimas. O silêncio era ensurdecedor. Lembrei-me do último olhar de António antes de eu ser internada: distante, cansado, como se já tivesse partido por dentro. Mas nunca imaginei que ele fosse mesmo embora enquanto eu lutava pela vida.

A campainha tocou. O meu coração disparou — seria ele? Mas era a minha irmã, Marta, com o rosto carregado de preocupação.

— Ana… — murmurou ela, entrando devagar. — Não consegui falar com o António. Ele não atende ninguém.

— Ele levou tudo, Marta. Até as cartas da mãe dele — disse eu, mostrando-lhe as prateleiras vazias.

Marta abraçou-me com força. — Não estás sozinha. Eu fico contigo o tempo que for preciso.

Mas a verdade é que me sentia mais sozinha do que nunca. Os vizinhos evitavam cruzar-se comigo no elevador. No café da esquina, a dona Lurdes olhava-me com pena e cochichava com os clientes: “Coitada da Ana, foi deixada assim…”.

As noites eram as piores. O eco dos passos de António ainda parecia percorrer o corredor. Às vezes acordava sobressaltada, convencida de que ele estava na cozinha a preparar café. Mas era só o vento a bater nas janelas mal fechadas.

Uma tarde, ao arrumar os poucos pertences que restavam, encontrei uma carta esquecida no fundo de uma gaveta. Era da mãe do António, escrita meses antes:

“Querida Ana,

Sei que as coisas não estão fáceis entre ti e o meu filho. Ele é teimoso, mas tu és forte. Não deixes que ele te faça sentir menos do que és.”

As palavras dela cortaram-me como uma lâmina. Sempre tentei ser forte — para ele, para mim mesma — mas agora sentia-me feita em pedaços.

Os dias arrastavam-se entre consultas médicas e tentativas falhadas de encontrar ânimo para sair da cama. Marta insistia para eu ir jantar lá a casa:

— Os miúdos têm saudades tuas! — dizia ela ao telefone.

Mas eu recusava sempre. Não queria ser um fardo para ninguém.

Até que um dia, ao regressar do supermercado, encontrei uma carta no tapete da entrada. O remetente era António.

“Ana,

Desculpa por ter ido embora assim. Não consegui lidar com tudo — o teu internamento, os meus medos, a pressão no trabalho. Sei que fui cobarde. Espero que um dia me perdoes.

António”

Li e reli aquelas linhas até as lágrimas me cegarem. Era isto? Uma desculpa escrita à pressa? Depois de vinte anos juntos?

Na semana seguinte, Marta apareceu com uma caixa cheia de fotografias antigas.

— Lembras-te disto? — perguntou ela, mostrando-me uma foto nossa na praia da Nazaré quando éramos crianças.

Sorri pela primeira vez em semanas.

— Lembro… Tu tinhas medo das ondas e eu empurrava-te sempre para dentro de água.

— E tu sempre foste mais corajosa do que eu — disse ela, apertando-me a mão.

Aos poucos, comecei a sair de casa. Primeiro para pequenas caminhadas pelo bairro, depois para o café da dona Lurdes. Ela serviu-me um pastel de nata e um café sem dizer palavra, mas sorriu-me com ternura.

No centro de saúde, conheci a enfermeira Joana, que me incentivou a participar num grupo de apoio para pessoas em recuperação.

— Não tens de passar por isto sozinha — disse ela.

No grupo conheci pessoas como eu: a Dona Emília, viúva há dez anos; o Pedro, recém-divorciado; a Sofia, que perdera o emprego e a casa num só mês. Partilhávamos histórias de perda e esperança entre chávenas de chá e bolachas Maria.

Certa noite, ao regressar do grupo, encontrei Marta à minha porta com um saco cheio de tupperwares.

— Fiz arroz de pato como tu gostas — disse ela. — E trouxe vinho do Dão.

Sentámo-nos à mesa improvisada na sala vazia e rimos das nossas desgraças como só duas irmãs conseguem fazer.

— Achas que algum dia vou conseguir confiar em alguém outra vez? — perguntei-lhe entre dois goles de vinho.

— Vais sim — respondeu ela sem hesitar. — Porque tu não és feita só de dor. És feita de tudo o que já superaste.

As palavras dela ficaram comigo durante dias. Comecei a escrever num caderno velho: pensamentos soltos, memórias felizes e tristes, sonhos adiados.

Um sábado de manhã decidi ir ao mercado municipal. O cheiro a fruta fresca e peixe lembrava-me os tempos em que eu e António fazíamos compras juntos ao sábado. Mas agora era diferente: comprei flores para mim mesma e sorri à senhora das laranjas.

No regresso a casa cruzei-me com António na rua pela primeira vez desde tudo acontecer. Ele parou à minha frente, hesitante.

— Ana…

O tempo pareceu suspender-se entre nós.

— Não tens nada para me dizer? — perguntei-lhe, tentando manter a voz firme.

Ele baixou os olhos.

— Só queria saber se estás bem…

Respirei fundo.

— Estou a aprender a ficar bem sem ti. E tu?

Ele não respondeu. Apenas acenou com a cabeça e afastou-se lentamente.

Fechei a porta atrás de mim e senti um peso sair dos meus ombros. Pela primeira vez em muito tempo senti-me dona do meu próprio destino.

Hoje olho para trás e vejo tudo o que perdi — mas também tudo o que ganhei: coragem, independência e uma nova relação comigo mesma. Ainda dói? Sim. Mas já não sou aquela mulher perdida no meio do vazio.

Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres há por aí presas ao silêncio das suas casas vazias? Quantas recomeçam todos os dias sem ninguém saber? E vocês… já sentiram esse vazio? Como encontraram forças para recomeçar?