Quando a mãe do Miguel me acorda ao amanhecer – A minha luta pela própria vida à sombra da sogra

— Levanta-te, Mariana! Já são seis e meia, o Miguel precisa do pequeno-almoço antes de sair! — A voz da Dona Lurdes ecoava pelo corredor, atravessando a porta do nosso quarto como uma lâmina fria. Ainda meio adormecida, olhei para o lado e vi o Miguel a ressonar, alheio ao mundo e, sobretudo, à mãe. Senti uma raiva surda a crescer-me no peito. Porque é que ela não o acordava a ele? Porque é que tudo caía sempre sobre mim?

Levantei-me devagar, tentando não fazer barulho, mas já sabia que ela estaria à porta, de braços cruzados e olhar reprovador. — Mariana, não percebo porque é que tens sempre este ar cansado. No meu tempo, as mulheres já tinham feito metade das tarefas da casa a esta hora! — disse ela, sem sequer me dar os bons dias.

Sorri-lhe, um sorriso forçado, e fui para a cozinha preparar o café e as torradas. O cheiro do café fresco misturava-se com o perfume forte da Dona Lurdes, que já estava sentada à mesa, pronta para comentar cada movimento meu. — O Miguel gosta das torradas mais douradas. E não te esqueças do sumo de laranja natural, faz-lhe bem ao estômago.

O Miguel entrou na cozinha pouco depois, ainda a esfregar os olhos. — Bom dia, mãe. Bom dia, amor — disse-me ele, dando-me um beijo apressado na testa. Senti-me invisível. Ele nunca percebia o quanto me custava aquela rotina imposta pela mãe dele.

Quando finalmente saíram para o trabalho, sentei-me à mesa e deixei cair a cabeça entre as mãos. O silêncio da casa era pesado. Tinha deixado tudo para trás por este amor: o meu emprego em Coimbra, os meus amigos, até a minha família. E agora sentia-me uma estranha na minha própria vida.

Os dias passavam todos iguais. Dona Lurdes controlava tudo: desde as compras do supermercado até à forma como eu dobrava os lençóis. Quando tentei sugerir que talvez fosse melhor cada um tratar das suas coisas, ela olhou-me como se eu tivesse insultado a família inteira.

— Mariana, nesta casa sempre foi assim. Se não sabes adaptar-te, talvez devesses repensar as tuas prioridades — disse ela numa tarde, enquanto eu limpava o pó da sala.

O Miguel raramente tomava partido. Quando lhe falava sobre como me sentia sufocada, ele encolhia os ombros. — Sabes como é a minha mãe… Ela só quer ajudar. Não leves tudo tão a peito.

Mas eu levava. Levava tudo a peito porque era a minha vida que estava em suspenso. Comecei a sentir-me cada vez mais ansiosa. À noite chorava baixinho para não acordar ninguém. Sentia-me sozinha, perdida numa casa que nunca seria minha.

As discussões começaram a surgir com mais frequência. Uma noite, depois de um jantar tenso em que Dona Lurdes criticou o meu arroz (“No meu tempo fazia-se melhor!”), explodi:

— Porque é que nunca está satisfeita? Eu faço tudo o que posso!

Ela levantou-se da mesa com ar ofendido. — Não preciso de ouvir isto na minha própria casa!

O Miguel ficou calado, olhando para o prato como se ali estivesse a resposta para todos os nossos problemas.

No dia seguinte, recebi uma mensagem da minha mãe: “Estás bem? Sinto-te distante.” Hesitei antes de responder. Não queria preocupar ninguém, mas sentia falta do colo dela, do aconchego da minha casa em Coimbra.

Comecei a sair de casa mais vezes, só para respirar outro ar. Ia ao café da esquina ler o jornal ou passear pelo parque. Foi lá que conheci a Dona Rosa, uma senhora reformada que me sorriu quando me viu sentada sozinha num banco.

— Estás com ar triste, menina. Queres conversar?

Desabafei com ela como nunca tinha feito com ninguém. Falei dos meus medos, das minhas dúvidas e daquela sensação de não pertencer ali.

— Não te esqueças de ti própria — disse-me ela num tom doce mas firme. — Às vezes damos tanto aos outros que nos perdemos pelo caminho.

As palavras dela ficaram comigo durante dias. Comecei a pensar no que queria realmente para mim. Será que valia a pena sacrificar tudo por um amor que me deixava tão vazia?

Numa noite chuvosa de novembro, depois de mais uma discussão com Dona Lurdes sobre as minhas “incapacidades domésticas”, sentei-me com o Miguel na sala.

— Preciso de falar contigo — disse-lhe, com a voz trémula.

Ele olhou para mim com preocupação. — O que se passa?

— Não aguento mais viver assim. Sinto-me sufocada nesta casa. Preciso de espaço… Preciso de nós sem interferências.

Ele ficou em silêncio durante longos minutos. Finalmente respondeu:

— Mariana… Eu amo-te, mas esta é a minha família. Não posso simplesmente virar costas à minha mãe.

Senti o chão fugir-me dos pés. As lágrimas correram-me pelo rosto sem controlo.

— E eu? Não sou tua família também?

Ele não respondeu.

Nessa noite tomei uma decisão difícil: arrumei algumas roupas numa mala pequena e fui dormir para casa da Dona Rosa. Ela recebeu-me de braços abertos e chá quente.

Nos dias seguintes tentei encontrar trabalho em Lisboa e procurei um quarto para alugar. A Dona Rosa ajudou-me em tudo e tornou-se quase uma avó para mim.

O Miguel ligou-me várias vezes, mas eu precisava de tempo para pensar. Sentia falta dele, mas sabia que não podia voltar àquela vida.

Passaram-se semanas até que finalmente nos encontrámos num café perto do trabalho dele.

— Mariana… — começou ele, com os olhos vermelhos — Eu percebo agora o quanto te magoei ao não te defender. Mas não sei se consigo mudar…

Olhei para ele com tristeza e ternura ao mesmo tempo.

— Eu também te amo, Miguel. Mas aprendi que preciso de me amar primeiro.

Saí do café com o coração apertado mas leve pela primeira vez em muito tempo.

Hoje vivo sozinha num pequeno apartamento em Lisboa. Tenho um emprego novo e amigos que me apoiam. Às vezes ainda sinto saudades do Miguel e até da rotina daquela casa cheia de regras… Mas aprendi que mereço ser feliz sem ter de sacrificar quem sou.

Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres vivem presas às expectativas dos outros? Quantas sacrificam os seus sonhos por medo de desiludir quem amam? E vocês… já sentiram que tiveram de escolher entre vocês próprios e o resto do mundo?