O Telefone Troca Destinos: Uma Noite, Dois Segredos
— O que é isto? — pensei, sentindo o sangue gelar nas veias. O telemóvel não reconheceu a minha impressão digital. Estranho. O meu sempre desbloqueia à primeira. Mas este… este hesitou. E foi aí que vi: “Vemo-nos hoje?”
O ecrã preto iluminou-se com uma notificação que não era minha. O coração bateu mais forte, como se quisesse saltar-me do peito. Passei o dedo pela capa — igualzinha à minha, só que com uma pequena racha no canto inferior. O meu marido, Miguel, comprou-nos capas iguais no Natal passado. “Assim nunca trocamos,” disse ele a rir-se. Ironia do destino.
Mais uma mensagem apareceu: “Deixaste cá a tua camisola. Ainda cheira a ti.”
Senti um nó na garganta. O mundo à minha volta pareceu encolher até só restar o telemóvel na minha mão. Oiço ao longe o som da chaleira a ferver, mas não me mexo. Só leio e releio aquelas palavras, tentando convencer-me de que há uma explicação lógica. Talvez seja engano. Talvez seja uma brincadeira de algum amigo dele. Mas o nome no topo da mensagem — Sofia — não me deixa dúvidas.
Miguel entra na cozinha nesse momento, com o cabelo ainda molhado do banho.
— Olha, viste o meu telemóvel? Não encontro em lado nenhum…
A voz dele soa normal, até carinhosa. Mas agora tudo me parece falso.
— Acho que trocámos os telemóveis — digo, tentando manter a voz firme.
Ele estende-me o aparelho que tem na mão, mas hesita ao ver o meu olhar fixo no ecrã.
— Está tudo bem? — pergunta.
Não respondo logo. Mostro-lhe o telemóvel aberto nas mensagens de Sofia. Ele empalidece.
— Explica-me isto, Miguel.
O silêncio instala-se entre nós como uma parede de vidro. Ele engole em seco, olha para o chão.
— Não é nada do que estás a pensar…
— Então explica-me! — grito, sentindo as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos.
Ele tenta pegar-me na mão, mas eu afasto-me.
— É só uma amiga…
— Uma amiga? Que te manda mensagens destas? Que fica com a tua camisola?
Miguel suspira, derrotado.
— Eu… Eu conheci-a no trabalho. Começámos a falar… E depois…
— Depois? — interrompo, a voz trémula de raiva e dor.
— Não queria magoar-te, Mariana. Juro que não queria…
Sento-me à mesa, incapaz de me manter de pé. A cabeça roda, as mãos tremem. Lembro-me dos últimos meses: ele sempre cansado, sempre com desculpas para chegar tarde, sempre distante. E eu, sempre a tentar acreditar que era só o stress do trabalho.
— Há quanto tempo? — pergunto num sussurro.
Ele hesita.
— Uns meses…
Fecho os olhos. Sinto-me ridícula por não ter visto antes. Por ter confiado tanto nele.
— E agora? — pergunto, sem saber se quero mesmo ouvir a resposta.
Miguel senta-se à minha frente, os olhos vermelhos.
— Não sei… Eu gosto dela, mas também gosto de ti. Não queria isto…
Rio-me amargamente.
— Não se pode gostar de duas pessoas ao mesmo tempo, Miguel. Não assim.
Ele baixa a cabeça. O silêncio volta a cair sobre nós, pesado como chumbo.
O resto do dia passa-se num nevoeiro. Evito olhar para ele, evito falar com ele. Penso nos nossos filhos — Matilde e Tomás — que estão na escola e não sabem nada disto. Penso na casa que construímos juntos, nos anos de partilha, nos sonhos que agora parecem tão distantes.
À noite, depois de deitar as crianças, Miguel tenta falar comigo outra vez.
— Mariana…
Levanto a mão para o calar.
— Preciso de tempo para pensar.
Ele acena com a cabeça e vai dormir para o sofá.
Nos dias seguintes, tudo parece um teatro mal ensaiado. Fingimos normalidade para os miúdos, mas mal nos olhamos nos olhos. A minha mãe liga-me todos os dias:
— Estás tão calada, filha… Está tudo bem?
Quero contar-lhe tudo, mas não consigo. Ela sempre gostou tanto do Miguel… Como é que lhe explico que o genro perfeito afinal não era assim tão perfeito?
No trabalho, dou por mim a olhar para os casais na rua e a perguntar-me quantos deles escondem segredos como este. Sinto inveja das pessoas felizes — ou pelo menos das que parecem felizes.
Uma noite, depois de pôr os miúdos na cama, decido ligar à Sofia. O número está nas mensagens do Miguel.
Ela atende ao segundo toque:
— Olá?
— Olá, Sofia. É a Mariana… mulher do Miguel.
Silêncio do outro lado.
— Eu… Eu não sabia se devia ligar-te — continuo — mas acho que mereço ouvir a tua versão da história.
Ela suspira.
— Eu nunca quis estragar nada entre vocês… Mas ele disse-me que já não era feliz contigo há muito tempo.
Sinto um aperto no peito.
— E tu acreditaste?
— Quis acreditar… Porque também me apaixonei por ele.
Desligo antes que as lágrimas me impeçam de falar mais. Sinto-me traída por ele e por ela — mas também por mim própria, por ter ignorado todos os sinais durante tanto tempo.
Na manhã seguinte, Miguel está à minha espera na cozinha.
— Não consigo continuar assim — diz ele. — Preciso de ser honesto contigo e comigo próprio.
Olho para ele e vejo um homem cansado, perdido entre dois mundos.
— E então? Vais ficar com ela?
Ele abana a cabeça lentamente.
— Não sei… Só sei que já não posso viver nesta mentira.
Levanto-me da mesa e vou buscar as chaves do carro.
— Vou passar uns dias em casa da minha mãe com as crianças. Preciso de espaço para pensar no que quero para mim — digo-lhe antes de sair.
Na casa da minha mãe, sinto-me outra vez filha em vez de mulher traída. Ela percebe logo que algo está errado, mas não faz perguntas. Só me abraça e diz:
— Seja o que for, vai passar.
Mas eu não tenho tanta certeza disso.
As noites são longas e solitárias. Penso em tudo o que vivi com o Miguel: as férias em Vila Nova de Milfontes quando éramos namorados; o nascimento da Matilde; as noites em claro quando o Tomás teve febre alta; os jantares de aniversário em família; as discussões por coisas pequenas; os silêncios cada vez mais longos nos últimos tempos.
Penso também em mim: quem sou eu sem ele? O que quero da vida agora?
Depois de uma semana fora de casa, decido voltar para conversar com ele calmamente. Os miúdos ficam com a minha mãe nessa noite.
Quando chego a casa, encontro-o sentado à mesa da cozinha com uma carta na mão.
— Escrevi-te isto porque não consigo dizer tudo cara a cara — diz ele, empurrando-me o envelope.
Abro e leio:
“Mariana,
Desculpa por tudo o que te fiz passar. Fui cobarde e egoísta. Sei que te magoei e nunca vou perdoar-me por isso. Não sei se algum dia vais conseguir perdoar-me tu também. Só quero que sejas feliz — comigo ou sem mim.”
Choro enquanto leio aquelas palavras porque sei que são sinceras — mas também porque já é tarde demais para nós dois.
Na manhã seguinte digo-lhe:
— Vou pedir o divórcio, Miguel. Não porque te odeie, mas porque preciso de me reencontrar sozinha.
Ele acena tristemente e abraça-me pela última vez como marido e mulher.
Hoje vivo sozinha com os meus filhos num apartamento pequeno em Lisboa. Não é fácil recomeçar aos 38 anos — mas sinto-me mais forte do que nunca. Aprendi que às vezes é preciso perder tudo para nos encontrarmos a nós próprios outra vez.
Pergunto-me muitas vezes: quantas vidas mudam por causa de um simples engano? Quantos segredos cabem num telemóvel igual ao nosso? E vocês… já descobriram alguma verdade dolorosa por acaso?