O Que Os Vizinhos Pensavam: Entre Muros e Segredos
— Achas mesmo que é boa ideia, mãe? — perguntei, com a voz embargada, enquanto olhava pela janela da cozinha, vendo o terreno vazio ao lado da casa dos meus pais.
A minha mãe, a Dona Teresa, limpava as mãos ao avental, com aquele ar prático de quem já viu muita coisa na vida.
— Filha, é o melhor para vocês. Assim ficas perto de nós, e os miúdos têm espaço para brincar. O Rui também concorda, não concorda?
O Rui, sentado à mesa, apenas assentiu, mas percebi no seu olhar uma sombra de preocupação. Ele nunca gostou muito da ideia de ficarmos tão perto dos meus pais, mas, com os preços das casas em Lisboa, era a única solução viável.
O problema é que, do outro lado do muro, moravam os nossos vizinhos de sempre: o Sr. Manuel e a Dona Lurdes, pais do Pedro, aquele rapaz que em tempos foi meu colega de escola e, segundo as más-línguas, sempre teve uma queda por mim. A verdade é que nunca lhe dei muita conversa, mas os vizinhos, esses, sempre gostaram de alimentar histórias.
Quando as obras começaram, os boatos não tardaram. A Dona Lurdes, com o seu jeito de quem sabe tudo, foi logo comentar com a minha mãe:
— Então, Teresa, a tua filha vai construir aqui ao lado? Olha que o Pedro anda a dizer que sempre soube que ela havia de ficar por perto…
A minha mãe riu-se, mas eu percebi o desconforto no seu sorriso. O Rui, por sua vez, começou a evitar cruzar-se com o Pedro, que agora, já homem feito, passava os dias a ajudar o pai na horta, sempre com um olhar curioso para o nosso lado.
As crianças, a Matilde e o Tiago, adoravam brincar no terreno, mas eu sentia-me cada vez mais sufocada com os olhares e os comentários. Uma tarde, enquanto supervisionava os pedreiros, ouvi o Sr. Manuel dizer ao Rui:
— Então, Rui, já escolheste o quarto para a tua filha? Ou vais deixar isso para o Pedro?
O Rui ficou vermelho, mas respondeu com um sorriso amarelo:
— O quarto é da Matilde, claro. O Pedro que arranje casa dele.
O Sr. Manuel riu-se, mas percebi que a piada tinha um fundo de verdade. Aquilo começou a mexer comigo. Será que toda a vizinhança achava mesmo que estávamos a construir uma casa para a Matilde casar com o Pedro? Será que os meus pais, no fundo, alimentavam essa ideia?
Nessa noite, depois de deitar as crianças, sentei-me com o Rui na sala. Ele estava calado, a olhar para o telemóvel, mas percebi que algo o incomodava.
— Rui, diz-me a verdade. Isto está a afetar-te, não está?
Ele suspirou, largou o telemóvel e olhou-me nos olhos.
— Não é fácil, Sara. Sinto que nunca vou ser suficiente para a tua família. Agora, com estes boatos, parece que toda a gente acha que só estou aqui porque não havia mais ninguém.
Fiquei sem palavras. Sempre achei que o nosso amor era à prova de tudo, mas percebi que as palavras dos outros, mesmo sem intenção, podiam corroer o que tínhamos de mais precioso.
No dia seguinte, fui falar com a minha mãe. Queria perceber de onde vinha aquela ideia absurda.
— Mãe, porque é que toda a gente acha que estamos a construir a casa para a Matilde casar com o Pedro?
Ela encolheu os ombros.
— As pessoas gostam de falar, filha. Sempre foi assim. Mas tu sabes o que sentes pelo Rui, não sabes?
— Sei, mas às vezes parece que ninguém acredita nisso. Nem o próprio Rui.
A minha mãe ficou calada, pensativa. Depois, disse algo que me ficou a ecoar na cabeça:
— O amor não é só o que sentimos, é também o que conseguimos proteger dos outros.
As obras avançavam, mas o ambiente entre as duas famílias estava cada vez mais tenso. O Pedro começou a aparecer mais vezes, sempre com desculpas para falar comigo. Um dia, apanhou-me sozinha no jardim.
— Sara, posso falar contigo?
Assenti, desconfiada.
— Olha, eu sei que as pessoas falam, mas eu nunca disse nada. Só queria que soubesses que, se precisares de alguma coisa, eu estou aqui.
Agradeci, mas senti um arrepio. Não queria alimentar mais boatos, mas também não queria ser mal-educada. O Rui viu-nos à distância e, nessa noite, tivemos a nossa primeira grande discussão em anos.
— Porque é que ele anda sempre atrás de ti? Achas normal?
— Rui, não tenho culpa do que as pessoas dizem! Eu amo-te, casei contigo, temos uma família!
— Às vezes parece que és a única que acredita nisso…
As palavras dele doeram mais do que qualquer boato. Passei a evitar o Pedro, mas os comentários continuavam. A Dona Lurdes fazia questão de me cumprimentar alto e bom som, sempre com um sorriso enigmático.
Quando finalmente nos mudámos para a casa nova, pensei que as coisas iam acalmar. Mas, pelo contrário, os olhares aumentaram. A Matilde, com apenas oito anos, começou a perguntar porque é que toda a gente falava do Pedro.
— Mãe, quem é o Pedro? Por que dizem que a casa é para ele?
Senti um nó na garganta. Como explicar a uma criança que os adultos, às vezes, inventam histórias para preencher o vazio das suas próprias vidas?
O Rui afastou-se cada vez mais. Passava mais tempo no trabalho, chegava tarde, evitava conversas. Eu sentia-me sozinha, cercada por paredes que, em vez de protegerem, pareciam aprisionar-me.
Uma noite, depois de deitar as crianças, sentei-me no alpendre, a olhar para as luzes da casa dos meus pais e dos vizinhos. Senti uma tristeza profunda, como se tudo o que tínhamos construído estivesse prestes a desmoronar.
A minha mãe apareceu, sentou-se ao meu lado e ficou em silêncio durante uns minutos.
— Filha, não deixes que os outros destruam o que tens de mais bonito. O Rui ama-te, mas também precisa de sentir que tu o defendes.
— Mas como, mãe? Se até tu achas que as pessoas têm razão para falar…
Ela pegou na minha mão.
— Eu só quero que sejas feliz. Mas a felicidade, às vezes, exige coragem. Coragem para enfrentar os outros, mas, acima de tudo, para enfrentar os nossos próprios medos.
Na manhã seguinte, decidi falar com o Rui. Esperei que as crianças saíssem para a escola e fui ter com ele à garagem, onde fingia arranjar o carro.
— Rui, não podemos continuar assim. Eu amo-te, mas preciso que confies em mim. Não deixes que os outros ditem o que somos.
Ele olhou-me, com lágrimas nos olhos.
— Tenho medo de te perder, Sara. Sempre tive. E agora, com tudo isto…
Abracei-o, sentindo que, finalmente, estávamos do mesmo lado. Decidimos, juntos, pôr um ponto final nos boatos. Começámos a participar mais nas festas da aldeia, a convidar os vizinhos para jantar, a mostrar que éramos uma família unida.
O Pedro afastou-se, talvez percebendo que não havia espaço para ele na nossa história. A Dona Lurdes continuou a comentar, mas já não me afetava. O importante era o que sentíamos um pelo outro, e isso ninguém podia destruir.
Hoje, quando olho para a nossa casa, lembro-me de tudo o que passámos. Sei que os vizinhos continuam a falar, porque, no fundo, é isso que mantém a aldeia viva. Mas aprendi que o amor precisa de ser defendido, todos os dias, contra o mundo e contra nós próprios.
Às vezes pergunto-me: quantas famílias se deixam destruir por palavras que nunca foram ditas cara a cara? E vocês, o que fariam se toda a vossa vida fosse julgada pelos outros?