O Domingo que Mudou Tudo: Uma Família em Ruínas

— Não pode ser… — sussurrei, sentindo o chão fugir-me dos pés, enquanto olhava para a rapariga de cabelos castanhos claros à porta da sala. O meu filho, o meu querido Tiago, sorria orgulhoso, segurando-lhe a mão. — Mãe, esta é a Sofia. A mulher com quem vou casar.

O nome ecoou na minha cabeça como um trovão. Sofia. O mesmo nome que tantas noites ouvi nos soluços abafados da minha filha, Mariana. O mesmo nome que me fez apertar os punhos de raiva e impotência quando a via chegar da escola com os olhos inchados de tanto chorar. Sofia, a rapariga que durante anos fez da vida da Mariana um inferno.

A sala ficou subitamente gelada. O meu marido, António, largou o jornal e olhou para mim, percebendo imediatamente que algo estava errado. Mariana, sentada no sofá ao meu lado, ficou branca como a cal e os seus olhos encheram-se de lágrimas. Tiago não percebeu nada. Continuava a sorrir, orgulhoso da mulher que escolhera.

— Olá, dona Isabel — disse Sofia, com um sorriso nervoso. — É um prazer finalmente conhecê-la.

O silêncio era ensurdecedor. Senti o coração bater descompassado e as palavras ficaram-me presas na garganta. Como podia ser? Como podia o meu filho apaixonar-se logo por ela?

Mariana levantou-se de rompante. — Não! — gritou, com a voz embargada. — Isto é uma piada de mau gosto? Tiago, tu sabes quem ela é?

Tiago olhou para a irmã, confuso. — Claro que sei! É a Sofia…

— Não sabes nada! — interrompeu Mariana, já com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto. — Ela… ela destruiu-me! Anos! Anos de humilhações, de insultos, de medo! E tu… tu vais casar com ela?

Sofia baixou os olhos e mordeu o lábio inferior. Eu não sabia o que fazer. Queria proteger ambos os meus filhos, mas como? Como se escolhe entre dois amores tão diferentes e tão intensos?

António tentou intervir: — Calma, Mariana… talvez seja um mal-entendido…

— Não é! — gritou Mariana. — Ela sabe muito bem o que fez!

Tiago olhou para Sofia, perplexo. — Sofia… é verdade?

Sofia respirou fundo e olhou para Mariana com uma expressão de culpa que nunca lhe tinha visto antes. — É verdade… Eu fui horrível contigo. Não há desculpa para o que fiz. Mas mudei, juro que mudei…

O silêncio voltou a cair sobre nós como uma manta pesada. Senti-me dividida entre o desejo de abraçar Mariana e o medo de perder Tiago para sempre.

— Porque nunca disseste nada? — perguntei eu a Tiago, tentando manter a voz firme.

— Porque não sabia! — respondeu ele, desesperado. — Nunca imaginei… Sofia nunca me falou disso!

Mariana saiu disparada da sala, batendo com a porta do quarto. Fui atrás dela, deixando António e Tiago sozinhos com Sofia.

Encontrei-a sentada na cama, abraçada às pernas, a chorar compulsivamente.

— Mãe… porque é que isto me está a acontecer? — soluçou ela. — Porque é que ninguém me protegeu?

Sentei-me ao lado dela e abracei-a com força. — Eu tentei, filha… juro que tentei… Mas agora temos de decidir o que fazer.

— Eu não quero vê-la nunca mais! Não quero que ela faça parte da nossa família!

As palavras dela eram facas no meu coração. Como podia pedir-lhe para aceitar uma pessoa que lhe causou tanta dor? Mas também não podia virar as costas ao Tiago.

Voltei à sala. António tentava acalmar Tiago, que estava em choque. Sofia chorava baixinho.

— Isto não pode acabar assim — disse Tiago, levantando-se de repente. — Eu amo a Sofia! Ela mudou! Todos merecem uma segunda oportunidade!

António suspirou fundo. — Tiago… às vezes as feridas são demasiado profundas para sarar tão depressa.

Sofia levantou-se e veio ter comigo. — Dona Isabel… eu sei que não tenho direito a pedir nada… Mas gostava de falar com a Mariana. Sozinhas.

Hesitei. E se ela magoasse ainda mais a minha filha? Mas vi sinceridade nos olhos dela.

— Vou perguntar-lhe se aceita falar contigo — respondi.

Bati à porta do quarto da Mariana e expliquei-lhe o pedido de Sofia.

— Não quero! — gritou ela imediatamente.

— Filha… talvez te faça bem ouvi-la. Nem que seja só para lhe dizeres tudo o que tens guardado dentro de ti.

Depois de alguns minutos de silêncio tenso, Mariana acedeu.

Ficaram fechadas no quarto durante quase uma hora. Da sala só ouvíamos vozes alteradas, choros e silêncios longos. O tempo parecia não passar.

Quando finalmente saíram, ambas tinham os olhos vermelhos e inchados. Mariana olhou para mim e disse:

— Preciso de tempo.

Sofia assentiu em silêncio e saiu da casa sem dizer mais nada.

Tiago ficou devastado. Durante semanas evitou-nos, passava os dias fora de casa e as noites em claro no quarto dele. Mariana fechou-se ainda mais no seu mundo, recusando-se a falar sobre o assunto.

Eu e António discutíamos todos os dias sobre o que fazer. Ele achava que devíamos apoiar Tiago; eu sentia-me dividida entre os dois filhos.

Uma noite, depois do jantar, Tiago apareceu na cozinha enquanto eu lavava a loiça.

— Mãe… achas que algum dia vão aceitar a Sofia?

Olhei para ele e vi nos seus olhos o mesmo medo que tantas vezes vi nos olhos da Mariana: medo de não ser aceite, medo de perder a família.

— Não sei, filho… Só o tempo dirá… Mas tens de perceber que há feridas que demoram muito tempo a sarar.

Ele assentiu em silêncio e saiu.

Os meses passaram lentamente. Mariana começou finalmente a ir à terapia; Tiago continuava com Sofia, mas evitava trazê-la cá a casa. António tentava manter a paz, mas eu sabia que ele também sofria em silêncio.

No Natal desse ano, Tiago apareceu com Sofia à porta de casa sem avisar. O ambiente ficou tenso imediatamente.

— Só quero desejar-vos um Feliz Natal — disse ela timidamente.

Mariana olhou para ela durante longos segundos e depois disse:

— Feliz Natal…

Foi só isso. Mas naquele momento percebi que talvez houvesse esperança para todos nós.

Agora escrevo estas palavras sentada à mesa da cozinha onde tudo aconteceu. Ainda não sei se algum dia seremos uma família unida outra vez. Mas pergunto-me: quantas famílias há por aí destruídas por segredos do passado? E será possível perdoar verdadeiramente quem nos magoou tão profundamente?