Entre o Amor e o Perdão: O Peso das Escolhas de um Filho
— Não podes continuar a aparecer aqui sem avisar, Dona Teresa! — A voz da Inês tremia, mas os olhos dela estavam firmes, como se cada palavra fosse um tijolo a erguer um muro entre nós.
Eu sentia o coração a bater tão forte que quase me faltava o ar. Olhei para ela, para os cabelos presos à pressa e as olheiras fundas. Era impossível não ver o sofrimento espelhado no rosto dela — um sofrimento que eu própria partilhava, embora de forma diferente.
— Inês, por favor… Eu só quero ver os meninos. Não tenho culpa das escolhas do Afonso. — A minha voz saiu mais baixa do que eu queria, quase um sussurro.
Ela respirou fundo, desviando o olhar para a porta atrás de si, como se esperasse que eu desaparecesse por magia. — Eles estão a dormir. E eu… eu preciso de paz, percebe? Desde que ele se foi…
O silêncio caiu entre nós como uma cortina pesada. Eu sabia que não devia insistir, mas a saudade dos meus netos era maior do que qualquer orgulho. O Afonso tinha destruído tudo com aquela decisão impensada — trocar a mulher e os filhos por uma aventura com a amiga solteira da Inês, a tal da Marta. Ainda hoje me pergunto como é possível um filho nosso ser capaz de tamanha crueldade.
Lembro-me do dia em que ele me contou. Estávamos sentados à mesa da cozinha, o cheiro do café ainda no ar. Ele não conseguia olhar-me nos olhos.
— Mãe… Eu vou sair de casa. Apaixonei-me pela Marta. — Disse aquilo como se fosse uma coisa banal, como se não estivesse a rasgar o coração da família ao meio.
— Afonso, tu tens dois filhos! E a Inês? — Senti as lágrimas a subir-me aos olhos, mas recusei-me a chorar à frente dele.
Ele encolheu os ombros, como se fosse um miúdo apanhado a fazer asneira. — Não consigo evitar. Preciso de ser feliz.
Feliz? Que palavra tão egoísta naquela altura. Desde então, tudo mudou. Os meus dias passaram a ser feitos de telefonemas ignorados, mensagens sem resposta e visitas à porta da Inês, sempre com medo de ser rejeitada.
A minha irmã, Filomena, dizia-me para seguir em frente. “Vai viajar, Teresa! Vai conhecer o Douro ou faz aquelas caminhadas em Sintra de que sempre falaste.” Mas como é que se vira costas aos netos? Como é que se esquece o cheiro deles, as mãos pequeninas a agarrar-nos os dedos?
O meu marido, Manuel, tentava manter-se neutro. “O Afonso é crescido, tem de arcar com as consequências.” Mas eu via nos olhos dele a mesma tristeza que sentia em mim.
Os meses foram passando. O Afonso ligava cada vez menos. Quando vinha buscar os meninos ao fim de semana, fazia-o à pressa, sem sequer entrar para me cumprimentar. A Marta nunca apareceu — talvez por vergonha ou porque sabia que nunca seria bem-vinda.
Uma tarde de domingo, depois de mais uma discussão com o Manuel sobre se devia ou não insistir em ver os netos, decidi arriscar tudo e bater à porta da Inês sem avisar. Ela abriu com ar cansado.
— Teresa…
— Por favor, Inês. Só quero vê-los um bocadinho. Eu ajudo no que for preciso — cozinhar, limpar… só preciso de estar com eles.
Ela olhou-me longamente e depois fez sinal para eu entrar. O alívio foi tão grande que quase me vieram as lágrimas aos olhos.
A partir desse dia, comecei a ir lá uma vez por semana. Levava bolos caseiros e brinquedos antigos do Afonso. Os meninos corriam para mim com gritos de alegria e abraços apertados. A Inês deixava-me ficar para jantar e, aos poucos, fomos falando mais — sobre tudo menos sobre o Afonso.
Uma noite, depois de adormecermos os miúdos juntos no sofá, ela desabafou:
— Sabe… às vezes penso que nunca vou conseguir perdoar o Afonso. Mas depois olho para eles e percebo que tenho de ser forte.
Aproximei-me dela e segurei-lhe na mão. — Ele errou muito, Inês. Mas tu és uma mãe incrível. E eu… eu nunca vou deixar de estar aqui para vocês.
Foi nesse momento que percebi: a minha família tinha mudado para sempre, mas ainda havia amor ali — um amor diferente, feito de dor partilhada e esperança teimosa.
Certa tarde chuvosa, enquanto ajudava a Inês a arrumar brinquedos espalhados pela sala, ela olhou para mim com um sorriso tímido:
— Teresa… já pensou em fazer aquela viagem ao Douro? Podíamos ir juntas com os meninos nas férias grandes.
Fiquei surpreendida com o convite. — Achas mesmo?
Ela assentiu. — Acho que merecemos um pouco de alegria depois de tudo isto.
Naquele instante senti algo novo: gratidão pela coragem dela e pela oportunidade de recomeçar. Talvez nunca perdoasse totalmente o Afonso pelo que fez — talvez nem ele próprio se perdoasse algum dia — mas ali estava eu, a construir uma nova família com quem menos esperava.
O tempo passou e as feridas foram sarando devagarinho. O Afonso acabou por perceber o erro quando viu os filhos afastarem-se dele aos poucos. Tentou voltar atrás, mas já era tarde demais para recuperar o que perdeu.
Hoje olho para trás e pergunto-me: será possível reconstruir uma família sobre os escombros da traição? Ou será que o verdadeiro amor está na capacidade de perdoar e seguir em frente juntos?
E vocês? Já tiveram de escolher entre o orgulho e o amor? Como encontraram forças para recomeçar?