Entre o Amor e o Desespero: O Peso de Ser Tia em Portugal

— Não quero que a Emma vá brincar com eles, João! — sussurrei, tentando não levantar a voz, mas sentindo o peito apertado de ansiedade. O meu marido olhou-me com aquele ar cansado de quem já ouviu isto demasiadas vezes.

— São primos, Mariana. Não podes impedir para sempre. — Ele tentou sorrir, mas o sorriso morreu-lhe nos lábios ao ver as lágrimas nos meus olhos.

A verdade é que não foi de um dia para o outro que comecei a sentir este desconforto. Cresceu devagar, como uma erva daninha que se entranha nas fissuras do cimento. A minha cunhada, a Vera, sempre foi o oposto de mim: expansiva, barulhenta, cheia de certezas. Os filhos dela herdaram-lhe o feitio — e talvez até o pior dele. O Tiago e a Matilde são tempestades em forma de criança. Gritam, batem, fazem birras intermináveis. E eu… eu só queria proteger a minha Emma.

Lembro-me do primeiro Natal em que os primos passaram juntos. A Emma tinha seis anos, os outros dois eram só um pouco mais velhos. A Matilde arrancou-lhe o boneco das mãos e o Tiago empurrou-a para o chão. A Vera riu-se e disse: — São crianças! — como se isso justificasse tudo. O João tentou minimizar: — Não faças caso, Mariana. Eles são assim mesmo.

Mas eu fazia caso. Fazia sempre caso. Cada vez que a Emma vinha ter comigo com os olhos marejados de lágrimas porque alguém lhe tinha chamado nomes ou lhe tinha escondido os brinquedos, sentia uma raiva surda crescer dentro de mim.

— Mãe, porque é que eles são tão maus? — perguntou-me uma vez, baixinho, enquanto eu lhe penteava o cabelo antes de dormir.

— Não são maus, filha. Só… diferentes. — Mas nem eu acreditava nisso.

Os encontros familiares tornaram-se um suplício. O João insistia que era importante mantermos a união da família, mas cada vez que íamos à casa da Vera, eu sentia-me como uma intrusa no meu próprio país. A casa dela era sempre um caos: brinquedos espalhados por todo o lado, televisão aos berros, discussões constantes entre ela e o marido.

Uma vez, durante um almoço de domingo, ouvi a Matilde dizer à Emma:

— Tu és uma bebé! Só brincas com bonecas! — E depois riu-se com aquele riso cruel das crianças que sabem que têm poder.

A Emma ficou calada, mas eu vi-lhe as mãos tremerem por baixo da mesa.

— Vera, desculpa lá, mas podias pedir à Matilde para ter mais cuidado com o que diz? — arrisquei.

A Vera olhou para mim como se eu fosse louca:

— Mariana, são miúdos! Estás sempre tão preocupada… Deixa-os resolver as coisas entre eles!

O João apertou-me a mão por baixo da mesa, mas eu sentia-me sozinha naquela sala cheia de gente.

Com o tempo, comecei a inventar desculpas para faltar aos encontros familiares. A Emma começou a preferir ficar em casa a ler ou a brincar sozinha do que ir brincar com os primos. O João percebeu, mas não disse nada. Só me olhava com aquela tristeza nos olhos.

No verão passado, tudo atingiu um novo patamar. Fomos passar uns dias à casa dos pais do João no Alentejo. O calor era sufocante e as crianças estavam ainda mais irrequietas do que o costume. Uma tarde, ouvi um choro vindo do quintal. Corri lá fora e encontrei a Emma sentada no chão, com sangue no lábio.

— O Tiago empurrou-me… — soluçou ela.

O Tiago estava ao lado, de braços cruzados e ar desafiador.

— Ela não quis jogar à bola connosco! — gritou ele.

A Vera apareceu logo atrás:

— Mariana, não faças um drama! Eles têm de aprender a lidar uns com os outros!

Mas eu já não aguentava mais.

— Não! Eles têm de aprender é a respeitar os outros! — gritei-lhe na cara, sem conseguir controlar as lágrimas.

O silêncio caiu sobre o quintal como uma pedra pesada. O João veio ter comigo mais tarde:

— Mariana… isto não pode continuar assim. Ou tentamos resolver ou vamos acabar por afastar-nos da família toda.

Mas como resolver? Como explicar à Vera que os filhos dela não são apenas “crianças”, mas pequenos tiranos? Como explicar ao João que não quero que a minha filha cresça achando que tem de aceitar tudo só porque “é família”?

As semanas seguintes foram um tormento. A Vera deixou de me falar durante dias. O João tentava ser mediador, mas acabava sempre por tomar o partido da irmã — ou pelo menos era assim que eu sentia.

Uma noite, depois de deitar a Emma, sentei-me na varanda e chorei em silêncio. Senti-me uma má mãe por não conseguir proteger a minha filha sem criar guerras familiares. Senti-me uma má esposa por não conseguir ceder mais ao João. Senti-me sozinha.

No início do ano letivo seguinte, a Emma pediu-me para mudar de escola.

— Porquê, filha?

— Porque a Matilde vai para lá este ano… E eu não quero estar com ela todos os dias.

O meu coração partiu-se em mil pedaços. Tentei explicar-lhe que fugir nem sempre é solução, mas no fundo compreendia-a melhor do que ninguém.

Acabámos por não mudar de escola. Decidi inscrevê-la numa atividade extracurricular diferente da Matilde e do Tiago. Pelo menos assim teria algum espaço só para ela.

Hoje em dia, evito ao máximo os encontros familiares grandes. O João ainda tenta convencer-me do contrário:

— Mariana… são só crianças…

Mas eu já não consigo ouvir essa frase sem sentir vontade de gritar.

Às vezes pergunto-me se estou a exagerar. Se devia ser mais tolerante ou se estou apenas a proteger demasiado a Emma. Mas depois lembro-me dos olhos dela cheios de medo e sei que não posso voltar atrás.

Será que é possível manter uma família unida quando os nossos instintos maternos nos dizem para fugir? Ou será que há coisas que simplesmente não se podem forçar? Gostava tanto de saber se alguém já passou pelo mesmo…