Entre Dois Lares: Quando a Sogra Decide por Nós
— Joana, não percebes? A minha mãe só quer o melhor para nós! — A voz do Pedro ecoava pela cozinha, misturada com o cheiro do café acabado de fazer e o frio húmido daquela manhã de janeiro.
Eu olhava para ele, as mãos trémulas em torno da chávena. O meu coração batia tão forte que parecia querer saltar-me do peito. Tinha passado a noite em claro, a pensar na conversa que tínhamos tido com Dona Amélia no dia anterior. Ela, sentada na poltrona de veludo verde, com aquele olhar que não admitia discussão, tinha sido clara: “Vocês deviam investir aqui em casa. Isto um dia será vosso. Não faz sentido gastarem dinheiro naquela ruína dos teus avós, Joana.”
Aquela ruína… Era tudo menos isso para mim. Era o sítio onde aprendi a andar de bicicleta, onde a minha avó me ensinou a fazer arroz doce e onde o meu avô me contava histórias de quando era miúdo em Trás-os-Montes. Era ali que eu via o futuro: paredes descascadas a ganhar nova vida, janelas abertas para o campo, risos de crianças — talvez nossos filhos — a correr pelo quintal.
Mas Pedro… Pedro era filho único. E Dona Amélia nunca o deixou esquecer isso. Desde que casámos, há três anos, ela fazia questão de nos lembrar que a casa dela era grande demais para uma só pessoa e que seria um desperdício deixá-la cair nas mãos de estranhos.
— O melhor para nós? — repeti, tentando não levantar a voz. — Ou o melhor para ela?
Pedro suspirou, passou as mãos pelo cabelo castanho já com alguns fios brancos. — Joana, não compliques. A casa da minha mãe está em muito melhor estado. Só precisa de umas pinturas e talvez trocar as janelas. A dos teus avós… nem telhado tem! Vais gastar uma fortuna.
— E se for isso que eu quero? — perguntei, sentindo as lágrimas a ameaçarem-me os olhos. — E se eu quiser gastar essa fortuna? Não posso ter um sonho?
Ele ficou calado. O silêncio entre nós era pesado, quase palpável. Lembrei-me de quando nos conhecemos na faculdade do Porto, das promessas que fizemos um ao outro: nunca deixar que ninguém se intrometesse nas nossas decisões. Mas agora parecia que tudo girava à volta da vontade de Dona Amélia.
Naquela noite, depois do jantar, sentei-me no sofá com a minha mãe ao telefone. Ela percebeu logo pelo tom da minha voz que algo não estava bem.
— Filha, não deixes que te tirem os sonhos — disse-me ela, baixinho. — Eu sei que é difícil… mas tu tens direito à tua felicidade.
No dia seguinte, Pedro chegou mais cedo do trabalho. Trazia um ar cansado e um envelope na mão.
— A minha mãe pediu-me para te dar isto — disse, evitando o meu olhar.
Abri o envelope: dentro estava uma proposta de orçamento para obras na casa dela. Tudo detalhado: pinturas, canalização nova, até um projeto para transformar o sótão num escritório para mim.
— Ela já decidiu tudo por nós? — perguntei, sentindo uma mistura de raiva e tristeza.
Pedro encolheu os ombros. — Ela só quer ajudar…
— Não é ajuda quando não se pergunta o que eu quero! — gritei, surpreendendo-me com a força da minha própria voz.
Saí de casa e fui até à casa dos meus avós. O portão rangia como sempre. O cheiro da terra molhada misturava-se com o das flores silvestres que cresciam junto ao muro. Sentei-me nos degraus da entrada e chorei como há muito não chorava.
Ali, sozinha, lembrei-me do último verão com os meus avós. O avô António sentado ao sol, a avó Rosa a regar as hortênsias. “Esta casa é tua, Joana”, disseram-me antes de partirem. “Faz dela o teu lar.”
De repente ouvi passos atrás de mim. Era o meu irmão mais novo, Miguel.
— Outra vez aqui? — perguntou ele, sentando-se ao meu lado.
— Não aguento mais… Sinto-me sufocada — confessei-lhe.
Miguel ficou calado durante uns segundos antes de falar:
— Já falaste mesmo com o Pedro? Ou só discutem por causa da mãe dele?
— Ele não me ouve… Parece que tem medo de desiludir a mãe.
— E tu? Tens medo de desiludir quem?
A pergunta ficou no ar como uma nuvem pesada. Eu sabia a resposta: tinha medo de desiludir toda a gente — Pedro, Dona Amélia, os meus pais… menos a mim própria.
Nos dias seguintes tentei evitar conversas sobre casas. Mas Dona Amélia era incansável. Telefonava todos os dias com novas ideias: “Podíamos abrir uma porta para o jardim”, “O Pedro pode ficar com o escritório do pai dele”, “A Joana pode usar o sótão para os seus livros”.
Uma noite, depois de mais uma discussão acesa com Pedro, decidi escrever-lhe uma carta. Não sabia se teria coragem de lha dar, mas precisava de pôr tudo cá para fora:
“Pedro,
Sinto-me perdida entre duas casas e dois mundos. Amo-te, mas sinto que estou a perder-me neste processo. A casa dos meus avós é mais do que paredes velhas; é parte de quem sou. Preciso que me ouças e me escolhas também.”
No dia seguinte deixei a carta na mesa da cozinha e fui trabalhar. Passei o dia ansiosa, sem saber se ele ia ler ou simplesmente ignorar.
Quando cheguei a casa à noite, encontrei-o sentado no sofá com os olhos vermelhos.
— Li a tua carta — disse ele baixinho. — Desculpa… Não tinha percebido quanto isto era importante para ti.
Sentei-me ao lado dele e pela primeira vez em semanas falámos sem gritos nem acusações. Ele contou-me dos medos dele: medo de perder a mãe, medo de não estar à altura das expectativas dela… medo de me perder a mim.
— E se tentássemos encontrar um meio-termo? — sugeriu ele. — Podemos começar por arranjar uma parte da casa dos teus avós e ir fazendo aos poucos… E ajudar a minha mãe quando ela precisar.
O alívio foi imediato, mas sabia que não ia ser fácil convencer Dona Amélia.
No domingo seguinte fomos lá jantar. O ambiente estava tenso; ela percebeu logo que algo se passava.
— Então? Já decidiram? — perguntou ela enquanto servia o arroz de pato.
Pedro olhou para mim antes de responder:
— Mãe, vamos restaurar a casa dos avós da Joana. É importante para ela… e para mim também.
O silêncio foi ensurdecedor. Dona Amélia pousou a travessa com força na mesa.
— Estão a cometer um erro — disse ela friamente. — Mas se é isso que querem…
O jantar foi silencioso e desconfortável. No final, ela levantou-se sem dizer mais nada e fechou-se no quarto.
No carro, Pedro apertou-me a mão.
— Vai custar… mas temos de viver a nossa vida.
Os meses seguintes foram duros: obras intermináveis, discussões sobre dinheiro, telefonemas frios da sogra… Mas cada parede pintada era uma vitória nossa. Cada janela arranjada era uma promessa cumprida.
Hoje escrevo estas palavras sentada na varanda da casa dos meus avós. O cheiro das hortênsias mistura-se com o do café acabado de fazer. Pedro está ao meu lado; ainda discutimos às vezes sobre pequenas coisas, mas agora sei que me ouve.
Às vezes pergunto-me: quantas pessoas vivem presas aos sonhos dos outros? Quantas Joanas há por aí a sufocar em silêncios e concessões? Será que vale sempre a pena lutar pelo nosso lugar no mundo?