Sempre Dei Tudo, Mas Agora Não Tenho Lugar na Tua Vida – O Desabafo de Uma Mãe Portuguesa

— Mãe, por favor, não venhas sem avisar. — A voz da Mariana soou fria, quase impaciente, do outro lado da porta. Fiquei ali parada, com o saco das compras a pesar-me nos braços e o coração ainda mais. Não era a primeira vez que sentia este muro entre nós, mas hoje doía mais. Talvez porque hoje era o dia em que fazia vinte e cinco anos que a trouxe ao mundo.

Respirei fundo, tentando engolir as lágrimas que ameaçavam cair. — Só queria trazer-te umas coisas do mercado, filha. Sei que tens trabalhado tanto…

Ela abriu a porta apenas o suficiente para me ver. Os olhos castanhos, outrora tão doces, estavam agora cansados e distantes. — Obrigada, mãe. Mas não precisas de te preocupar tanto. Eu desenrasco-me.

Desenrasco-me. Palavra tão portuguesa, tão nossa. Mas naquele momento soou como uma sentença: já não precisava de mim.

Entrei no elevador do prédio dela em Benfica com o peito apertado. Lembrei-me de quando ela era pequena e eu a levava ao colo pelas ruas de Setúbal, cantando-lhe canções antigas para adormecer. Lembrei-me das noites em claro quando ela tinha febre, dos trabalhos extra que aceitei para lhe pagar explicações e do orgulho que senti quando entrou na faculdade em Lisboa.

O pai dela, o António, saiu cedo das nossas vidas. Ficámos só nós duas. Eu e a Mariana contra o mundo. Sempre achei que esse laço seria inquebrável. Mas agora sinto que sou apenas um eco na vida dela, uma presença incómoda.

Quando finalmente cheguei a casa, larguei as compras na bancada e sentei-me à mesa da cozinha. O silêncio era ensurdecedor. Peguei no telemóvel e abri uma mensagem antiga da Mariana: “Obrigada por tudo, mãe. Amo-te.” Era de há três anos, quando lhe entreguei as chaves do apartamento que consegui comprar com tanto esforço e sacrifício.

Lembro-me bem desse dia. Ela chorou nos meus braços, prometeu que nunca se afastaria. Mas a vida muda as pessoas. O trabalho dela no escritório de advogados consome-lhe os dias e as noites. Os amigos são outros, as prioridades também.

No Natal passado, tentei reunir a família cá em casa. Convidei os meus irmãos, os primos, até a vizinha Dona Rosa. Mariana chegou atrasada, com um sorriso apressado e um presente comprado à última hora. Mal tocou na comida que preparei com tanto carinho.

— Mãe, desculpa, mas tenho mesmo de ir — disse ela, olhando para o relógio antes mesmo da sobremesa.

— Mariana, ao menos fica para o bolo… — pedi eu, quase suplicando.

Ela suspirou e deu-me um beijo na testa. — Prometo que para o ano é diferente.

Mas não foi.

Os dias passaram e as mensagens tornaram-se mais curtas. “Está tudo bem.” “Depois ligo.” “Não te preocupes.” E eu preocupava-me sempre.

A vizinha Dona Rosa diz que é normal, que os filhos crescem e seguem a vida deles. Mas será mesmo normal sentir este vazio? Esta sensação de ter dado tudo e agora não ter lugar nem no sofá da sala dela?

Uma noite destas, acordei sobressaltada com um sonho estranho: via a Mariana numa estação de comboios, acenando-me de longe enquanto o comboio partia sem mim. Acordei a chorar baixinho para não acordar ninguém — como se houvesse alguém para acordar nesta casa vazia.

No domingo seguinte, tentei ligar-lhe. Toquei três vezes até ela atender.

— Mãe? Está tudo bem? — perguntou apressada.

— Só queria ouvir a tua voz, filha. Tens estado tão ausente…

Do outro lado ouvi um suspiro impaciente.

— Mãe, estou mesmo cheia de trabalho agora. Depois ligo, está bem?

Desligou antes que eu pudesse dizer-lhe que sentia saudades.

Fui à igreja pedir forças à Nossa Senhora do Carmo. Sentei-me no banco de madeira e chorei em silêncio. Uma senhora idosa sentou-se ao meu lado e apertou-me a mão sem dizer palavra. Às vezes penso se todas as mães passam por isto: esta dor silenciosa de ver os filhos afastarem-se sem perceberem o quanto nos magoam.

Na semana seguinte, recebi uma mensagem inesperada do António: “Ouvi dizer que a Mariana está a pensar mudar-se para o Porto por causa do trabalho.” Fiquei gelada. Ela não me disse nada.

Esperei dois dias até criar coragem para lhe perguntar:

— Mariana, é verdade que vais mudar-te para o Porto?

Ela respondeu horas depois: “Ainda estou a pensar. Não queria preocupar-te sem ter certezas.”

Senti-me traída. Como é possível ser a última a saber dos planos da minha própria filha?

Naquela noite não consegui dormir. Revirei-me na cama, pensando em tudo o que fiz por ela: os turnos duplos no hospital onde trabalhei como auxiliar; as vezes em que deixei de comprar roupa nova para mim para lhe pagar os livros; as tardes passadas à espera nas reuniões da escola; os aniversários em que só éramos nós duas e eu fazia questão de lhe dar sempre um bolo feito por mim.

No dia seguinte decidi confrontá-la cara a cara. Fui ao escritório dela sem avisar — talvez fosse errado da minha parte, mas precisava de respostas.

A secretária olhou-me com desconfiança quando disse quem era.

— A doutora Mariana está numa reunião — informou secamente.

Esperei no corredor durante quase uma hora até vê-la sair apressada da sala de reuniões.

— Mãe? O que fazes aqui? — perguntou ela, visivelmente incomodada.

— Precisava de falar contigo — disse-lhe baixinho.

Ela olhou em volta, constrangida com os olhares dos colegas.

— Não podes ligar primeiro? Aqui não é lugar…

Senti-me humilhada. Saí dali com as lágrimas a correrem-me pelo rosto antes sequer de chegar à rua.

Passei dias sem conseguir comer nem dormir direito. A solidão tornou-se ainda mais pesada. Comecei a evitar as amigas do bairro porque não queria ouvir perguntas sobre a Mariana ou fingir que estava tudo bem.

Uma tarde recebi uma chamada inesperada dela:

— Mãe… desculpa se tenho estado distante. O trabalho tem sido demais e… às vezes sinto-me sufocada com tanta responsabilidade.

— Eu só queria ajudar-te — respondi-lhe com voz trémula. — Sempre quis o melhor para ti…

Do outro lado ouvi-a chorar baixinho.

— Eu sei… Mas preciso de espaço para ser eu própria também.

Nesse momento percebi: talvez tenha dado tanto à Mariana que me esqueci de mim própria; talvez tenha confundido amor com controlo; talvez o maior ato de amor seja mesmo saber quando deixar ir.

Agora passo os dias a tentar encontrar sentido nesta nova fase da vida. Voltei a pintar — algo que adorava antes de ser mãe — e comecei a fazer voluntariado na paróquia local. Ainda dói ver o lugar vazio à mesa ao domingo, mas aprendi a aceitar que o amor também se mostra no silêncio da ausência.

Às vezes pergunto-me: será possível amar demais? Ou será que amar é mesmo isto — dar tudo sem esperar nada em troca? E vocês? Já sentiram este vazio depois de darem tudo por alguém?