Porque é que a minha filha não quer cuidar da mãe? A história de uma família portuguesa à beira do abismo
— Não me peças isso outra vez, pai! — gritou Inês, com os olhos vermelhos de raiva e cansaço. — Não sou obrigada a cuidar dela!
As palavras dela ecoaram pela sala como um trovão. Fiquei parado, com as mãos a tremer, entre o sofá onde Teresa dormia e a porta por onde Inês acabara de entrar. O cheiro a sopa fria misturava-se com o odor dos medicamentos. O relógio marcava quase oito da noite. Mais um dia sem respostas.
Sou Manuel, tenho 57 anos e nunca pensei que a minha família chegasse a este ponto. Teresa, minha mulher há mais de trinta anos, foi diagnosticada há seis meses com esclerose múltipla. Desde então, tudo mudou. O nosso apartamento em Almada tornou-se um campo de batalha: eu a tentar manter alguma ordem, Teresa cada vez mais dependente, e Inês… Inês cada vez mais distante.
— Inês, por favor… — tentei de novo, mas ela virou-me as costas.
— Não insistas! — atirou ela, já no corredor. — Eu tenho a minha vida! Não vou sacrificar tudo por alguém que nunca quis saber de mim!
A porta bateu com força. Fiquei sozinho com o silêncio pesado e o som abafado da televisão no quarto. Sentei-me à mesa da cozinha, as mãos na cabeça. Como é que chegámos aqui?
Lembro-me do dia em que conheci Teresa. Era verão, ela usava um vestido azul e ria-se alto, sem vergonha. Apaixonei-me ali mesmo. Casámos cedo, talvez cedo demais. A vida não foi fácil: eu trabalhava na construção civil, ela era professora primária. Lutámos muito para dar uma vida melhor à nossa única filha.
Mas Inês sempre foi diferente. Fechada, desconfiada, como se carregasse um peso invisível. Quando era pequena, chorava muito à noite. Teresa dizia que era só uma fase. Eu tentava brincar com ela, mas parecia que nunca era suficiente.
Os anos passaram e as discussões entre mãe e filha tornaram-se rotina. Teresa era exigente, queria que Inês fosse a melhor aluna, a mais educada, a mais tudo. Eu tentava apaziguar, mas acabava sempre por ceder ao cansaço.
Agora vejo o resultado: uma filha que não fala connosco há semanas, uma mulher que depende de mim para tudo e um lar onde o amor se transformou em ressentimento.
Naquela noite, depois de Inês sair, fui ao quarto ver Teresa. Estava acordada, os olhos fixos no teto.
— Ela já foi? — perguntou num sussurro.
— Já… — respondi, sentando-me ao lado dela.
— Não vale a pena insistires… — murmurou Teresa. — Ela nunca me perdoou.
— Perdoou o quê? — perguntei baixinho.
Teresa não respondeu. Ficou ali, imóvel, como se o corpo já não lhe pertencesse.
No dia seguinte tentei ligar a Inês. Atendeu ao fim de vários toques.
— O que queres agora? — disse ela, fria.
— Filha… precisamos de ti aqui. Eu não consigo fazer tudo sozinho…
— Já disse que não volto aí! — cortou ela. — Arranja uma enfermeira ou mete-a num lar! Eu não vou ser mártir!
— Inês… — supliquei. — Ela é tua mãe…
— Mãe? — riu-se amargamente. — Uma mãe não faz o que ela me fez!
Fiquei sem palavras. O que é que eu não sabia? O que é que se passara entre elas?
Nessa tarde sentei-me com Teresa e perguntei-lhe diretamente:
— Teresa… o que é que aconteceu entre ti e a Inês? Porque é que ela te odeia tanto?
Ela olhou para mim com lágrimas nos olhos.
— Eu só queria o melhor para ela… mas fui dura demais. Quando ela tinha 15 anos… apanhámo-la a fumar na escola. Fui lá buscá-la à frente das colegas todas e humilhei-a… Depois disso nunca mais confiou em mim. E houve outras coisas…
— Que coisas?
Teresa hesitou.
— Uma vez… ela contou-me que tinha sido assediada por um professor. Eu não quis acreditar nela. Disse-lhe para não inventar histórias…
Senti um nó na garganta. Como é que nunca soube disto?
Os dias seguintes foram um tormento. Tentei falar com Inês outra vez, mas ela bloqueou-me no telemóvel. Comecei a sentir raiva: dela por nos abandonar; de Teresa por ter sido tão cega; de mim próprio por nunca ter percebido nada.
No trabalho andava distraído, cometia erros parvos. O patrão chamou-me à parte:
— Manuel, tens de te concentrar! Se continuares assim vou ter de te dispensar!
Cheguei a casa nesse dia e encontrei Teresa caída no chão da casa de banho. Chamei o INEM em pânico. No hospital disseram-me que era apenas uma queda sem consequências graves, mas avisaram-me: ela precisa de cuidados constantes.
Sozinho no corredor do hospital, chorei como uma criança. Senti-me velho, inútil e derrotado.
Quando voltei para casa encontrei uma carta na caixa do correio. Era da Inês:
“Pai,
Não consigo perdoar a mãe pelo que me fez passar na adolescência. Tu nunca viste nada porque estavas sempre cansado ou ausente. Eu cresci sozinha naquela casa cheia de gritos e silêncios pesados.
Agora pedes-me para cuidar dela? Não consigo. Talvez um dia consiga perdoar-vos aos dois, mas agora preciso de distância para sobreviver.
Inês”
Li aquelas palavras vezes sem conta naquela noite. Senti vergonha por nunca ter estado realmente presente para a minha filha.
Os dias passaram lentos e cinzentos. Contratei uma senhora para ajudar com Teresa algumas horas por dia. O dinheiro começou a faltar; vendi o carro para pagar as despesas.
Às vezes sentava-me à janela e via as famílias felizes no parque em frente ao prédio. Perguntava-me onde tinha falhado como pai e marido.
Uma tarde ouvi bater à porta. Era Inês. Estava magra e parecia mais velha do que os seus 28 anos.
— Só vim buscar umas coisas minhas — disse secamente.
Ficámos os dois na sala em silêncio até Teresa aparecer à porta do quarto, apoiada na bengala.
— Inês… — murmurou ela.
A minha filha olhou para a mãe com olhos cheios de mágoa.
— Precisas de alguma coisa? — perguntou num tom neutro.
Teresa abanou a cabeça e começou a chorar baixinho.
Inês ficou parada uns segundos e depois saiu sem dizer mais nada.
Naquela noite sentei-me ao lado de Teresa na cama.
— Achas que algum dia ela nos vai perdoar?
Teresa encolheu os ombros.
— Não sei… talvez seja tarde demais.
Agora escrevo-vos estas linhas porque já não sei o que fazer mais para salvar esta família. Sinto-me culpado por tudo: por não ter visto o sofrimento da minha filha; por não ter protegido Teresa das suas próprias falhas; por ter deixado o tempo passar sem resolver nada.
Será possível reconstruir uma família depois de tantos erros? Ou há feridas que nunca saram? Gostava de ouvir as vossas histórias… talvez juntos encontremos alguma esperança.