Não fui convidada para o casamento do meu filho, mas mesmo assim tive de lhe abrir as portas de casa: os duplos padrões da família
— Mãe, não compliques. Já falámos sobre isto. — A voz do Tomás ecoava fria do outro lado da linha, como se cada palavra fosse um tijolo a erguer um muro entre nós.
Eu estava sentada à mesa da cozinha, as mãos a tremerem em cima do tampo de madeira gasto. O cheiro do café frio misturava-se com o perfume das flores murchas que ainda não tinha tido coragem de deitar fora. O silêncio da casa era pesado, quase sufocante, interrompido apenas pelo tic-tac do relógio e pela ausência ensurdecedora do meu filho.
— Falámos? Tomás, eu sou tua mãe! Como é que achas que me sinto por não ter sido convidada para o teu casamento? — A minha voz saiu mais alta do que queria, carregada de mágoa e incredulidade.
Do outro lado, silêncio. Depois, um suspiro.
— Não era o momento certo, mãe. A Inês… — hesitou — …a Inês achou melhor assim. Não queríamos dramas.
Drama. Como se eu fosse uma personagem secundária na vida dele, apenas útil para os momentos em que precisava de colo ou de dinheiro. Senti uma dor aguda no peito, como se alguém me tivesse arrancado um pedaço do coração.
Lembrei-me do Tomás em pequeno, a correr pelo quintal com os joelhos esfolados e o sorriso mais bonito do mundo. Lembrei-me das noites em claro quando teve febre, dos trabalhos manuais para a escola, das discussões com o pai dele — o António — sobre como devíamos educá-lo. Sempre fui eu a ficar, a segurar tudo quando o mundo dele desabava.
Mas agora, ele tinha escolhido outra família. Outra mulher. E eu era apenas um incómodo.
Os dias seguintes passaram-se num nevoeiro de tristeza e raiva. As vizinhas perguntavam pelo casamento, queriam ver fotos, saber detalhes. Eu sorria com esforço e dizia que tinha sido tudo muito íntimo, só para a família próxima. Ninguém sabia que eu não tinha sido sequer convidada.
A minha irmã, a Teresa, ligou-me nesse dia à noite.
— Não podes deixar isto assim, Leonor. Tens de falar com ele cara a cara. — A voz dela era firme, mas cheia de ternura.
— E dizer o quê? Que estou magoada? Ele sabe. E não lhe interessa.
— O Tomás sempre foi cabeça dura. Mas tu és a mãe dele. Não desistas dele agora.
Não desisti. Mas também não procurei. Fiquei à espera que ele sentisse a minha falta, que percebesse o erro. Os meses passaram e o telefone não tocou.
Até ao dia em que bateram à porta.
Abri e vi o Tomás e a Inês à minha frente. Ele com as olheiras fundas e ela com um ar perdido, agarrada a uma mala enorme.
— Mãe… — começou ele, hesitante — Podemos falar?
O meu coração queria saltar do peito. Queria abraçá-lo, perguntar-lhe tudo, mas também queria gritar-lhe na cara toda a dor que me tinha causado.
— Entrem — disse apenas, afastando-me para lhes dar passagem.
Sentaram-se na sala como dois estranhos. A Inês olhava para o chão, o Tomás mexia nas mãos nervosamente.
— Tivemos problemas com a casa… O senhorio aumentou a renda e não conseguimos pagar. Estamos à procura de outro sítio, mas está tudo caríssimo… — explicou ele, evitando o meu olhar.
— E vieram pedir-me ajuda? Depois de tudo? — As palavras saíram antes de conseguir travá-las.
A Inês levantou finalmente os olhos.
— Eu sei que não foi justo… O Tomás queria convidá-la, mas eu… Eu tive medo que as coisas corressem mal. A minha mãe não gosta muito de si…
Ri-me amargamente.
— A tua mãe não gosta de mim? E por isso decidiram apagar-me do dia mais importante das vossas vidas?
O Tomás levantou-se de repente.
— Mãe! Não compliques! Precisamos só de uns dias até encontrarmos outra casa. Não vamos ficar muito tempo.
Olhei para ele e vi o menino que criei, mas também vi um homem egoísta, incapaz de assumir as consequências das suas escolhas.
— Podem ficar — disse finalmente — Mas aqui em casa há regras. E respeito é uma delas.
Os dias seguintes foram estranhos. A Inês tentava ajudar nas tarefas da casa, mas tudo parecia forçado. O Tomás passava horas ao telefone à procura de casas ou fechado no quarto a jogar computador. À noite ouvia-os discutir baixinho no corredor.
Uma tarde, apanhei a Inês a chorar na cozinha.
— Desculpe… Eu nunca quis magoá-la. Só queria evitar problemas com a minha família… Mas agora percebo que só causei mais dor.
Sentei-me ao lado dela e segurei-lhe na mão.
— O Tomás é meu filho. Sempre será. Mas há coisas que custam muito a perdoar. Não é só por mim… É por ele também. Ele precisa de crescer.
Ela assentiu em silêncio.
Nessa noite, chamei o Tomás à sala.
— Filho, precisamos de conversar como adultos. Tu magoaste-me muito. Não foi só pelo convite… Foi por me excluíres da tua vida sem explicação. Achas justo vires agora pedir ajuda como se nada fosse?
Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez em meses.
— Eu sei que errei… Mas estava perdido. A Inês estava nervosa, a mãe dela pressionava-nos… Eu só queria paz naquele dia. Achei que depois podia compensar…
— Compensar? O amor não é uma conta bancária onde se faz depósitos quando convém! — As lágrimas caíam-me pelo rosto sem controlo — Eu sou tua mãe! Sempre estive aqui!
Ele chorou também. Pela primeira vez desde criança vi-o vulnerável, sem máscaras.
— Desculpa, mãe… Eu fui cobarde. Tive medo de desiludir toda a gente e acabei por te magoar mais do que qualquer um…
Abraçámo-nos ali mesmo, no meio da sala desarrumada e cheia de memórias partidas.
Os dias seguintes foram menos pesados. A Inês começou a tratar-me por “mãe Leonor” e ajudava-me no jardim. O Tomás arranjou um trabalho temporário numa loja perto de casa e começou a contribuir para as despesas.
Mas nem tudo ficou resolvido num instante. A mágoa ficou ali, como uma ferida mal sarada que dói quando se toca.
Um domingo à tarde, durante o almoço, a conversa voltou ao casamento.
— Se pudesse voltar atrás… — começou o Tomás — Tinha feito tudo diferente.
Olhei para ele e sorri tristemente.
— O passado não muda, filho. Só podemos escolher o que fazemos daqui para a frente.
A Inês pegou na minha mão por baixo da mesa.
— Obrigada por nos ter recebido…
Fiquei em silêncio durante uns segundos antes de responder:
— O amor de mãe é estranho… Aguenta tudo e mais alguma coisa. Mas será que devia? Será que há limites para perdoar quem amamos?
E vocês? Acham que o amor pelos filhos deve ser incondicional mesmo quando nos magoam profundamente? Gostava mesmo de saber como reagiriam nesta situação.