“Não Contes Connosco, Desenrasca-te!” – Quando a Minha Sogra Pediu Ajuda Depois de Nos Ter Virado as Costas
— Não contes connosco, desenrasca-te! — As palavras da minha sogra cortaram-me como uma lâmina fria naquela tarde húmida de novembro. Eu e o Rui tínhamos acabado de casar, cheios de sonhos e de dívidas, e batemos à porta dela com esperança de um pequeno apoio para pagar a renda do nosso primeiro apartamento em Almada. O olhar dela, duro como pedra, não vacilou nem por um segundo. — Vocês decidiram casar tão novos, agora aguentem-se. Não somos banco de ninguém.
Saímos dali de mãos vazias e corações pesados. O Rui tentou disfarçar, mas vi-lhe nos olhos o orgulho ferido. O silêncio no carro era tão denso que quase me sufocava. Eu sabia que ele queria proteger-me, mas também sentia que tinha falhado como filho. A mãe dele sempre foi assim: prática, direta, pouco dada a sentimentalismos. Mas naquele dia, senti que uma porta se fechava para sempre.
Os anos passaram. Trabalhámos muito, fizemos contas à vida, aprendemos a viver com pouco. O Rui arranjou dois empregos — de manhã numa oficina, à noite num café — e eu dava explicações de matemática a miúdos do bairro. Não foi fácil, mas nunca mais pedimos nada a ninguém. Quando nasceu a nossa filha, a Matilde, foi tudo ainda mais apertado. Lembro-me de chorar em silêncio ao ver os outros avós comprarem presentes caros aos netos, enquanto a minha sogra aparecia com um pacote de bolachas Maria e um comentário seco: — Não se pode dar o que não se tem.
O tempo foi passando e eu fui aprendendo a não esperar nada dela. O Rui também se resignou. A relação deles tornou-se cordial, mas distante. O meu sogro era diferente: brincalhão, caloroso, sempre com uma palavra amiga. Era ele quem ligava para saber da Matilde, quem aparecia com um saco de laranjas ou um brinquedo em segunda mão. Mas nunca interferiu nas decisões da mulher.
Foi então que tudo mudou.
Numa noite fria de janeiro, o telefone tocou às duas da manhã. Era a minha sogra, a voz embargada pelo choro: — O teu pai foi-se embora… Ele foi-se embora com aquela mulher do supermercado! — O Rui ficou branco como a cal.
Nos dias seguintes, ela ligava todos os dias. Chorava, lamentava-se, pedia conselhos. Pela primeira vez em anos, procurava-nos. E depois veio o pedido: — Eu não consigo pagar as contas sozinha… Preciso que me ajudes com algum dinheiro para a renda.
O Rui ficou em choque. Eu senti uma raiva antiga a crescer-me no peito. Como podia ela pedir-nos ajuda agora? Onde estava ela quando nós precisámos? Lembrei-me daquela tarde em Almada, das palavras frias e do olhar duro.
— E agora? — perguntei ao Rui numa noite em que ele chegou tarde do trabalho, exausto e cabisbaixo.
— Não sei… É minha mãe…
— Mas lembras-te do que ela nos disse? Lembras-te de como nos virou as costas?
Ele passou as mãos pela cara e suspirou:
— Lembro-me de tudo… Mas também me lembro do meu pai a sair de casa sem olhar para trás.
A Matilde entrou na sala nesse momento, com o pijama cor-de-rosa e os olhos sonolentos:
— O que se passa?
— Nada, filha… Vai dormir.
Mas não era nada. Era tudo.
Durante dias discutimos o assunto. Eu queria proteger o nosso pouco dinheiro; ele sentia-se dividido entre o ressentimento e o dever filial. A sogra continuava a ligar, cada vez mais desesperada:
— Rui, eu não tenho ninguém… Só tenho vocês!
Uma noite, depois de mais uma chamada dela cheia de lágrimas e acusações ao ex-marido, o Rui explodiu:
— Sabes o que custa ouvir isto tudo? Sabes o que custa sentir que nunca fui suficiente para ela? Agora precisa de mim… E eu? Onde estava ela quando eu precisei?
Eu abracei-o. Pela primeira vez percebi que aquela mágoa era mais dele do que minha.
No fim acabámos por ajudar. Pagámos-lhe metade da renda durante três meses. Fomos lá levar comida e medicamentos. A Matilde começou a visitá-la aos fins-de-semana. Aos poucos, a sogra foi mudando: tornou-se mais doce com a neta, mais humilde connosco. Um dia pediu desculpa:
— Fui dura contigo, filho… Achei que estava a ensinar-te a ser forte, mas só te magoei.
O Rui chorou nesse dia. Eu também.
Mas nem tudo ficou resolvido. A ferida antiga ainda sangra às vezes — quando ela faz um comentário infeliz ou quando me lembro dos anos em que estivemos sozinhos. O perdão é um caminho longo e cheio de pedras.
Hoje olho para trás e penso: até onde vai o nosso dever para com quem nos magoou? Será possível recomeçar quando as palavras ditas nunca se esquecem? E vocês — já passaram por algo assim? Como lidaram com isso?