«Maria, a partir de hoje dormes na sala» – A história de uma mãe que se tornou estranha na própria casa
— Maria, a partir de hoje vais dormir na sala. — A voz da minha nora, Andreia, cortou o silêncio da noite como uma lâmina fria. O meu filho, Rui, estava sentado ao lado dela, olhos baixos, sem coragem de me encarar. Senti o chão fugir-me dos pés. A sala…? Eu, que durante quarenta anos fui o pilar desta família, agora relegada ao sofá-cama da sala?
Tentei manter a dignidade. — Mas… porquê? O que se passa com o meu quarto?
Andreia suspirou, impaciente. — Precisamos do espaço para o bebé. Já devias ter percebido. Não é justo para nós nem para ti.
Olhei para Rui, à procura de um sinal de apoio. Ele apenas murmurou: — Mãe, é só por uns tempos…
Só por uns tempos. Quantas vezes ouvi essa frase desde que me mudei para a casa deles? Depois da morte do António, o meu marido, Rui insistiu para que viesse viver com eles. “Não podes ficar sozinha”, dizia ele. “Aqui tens companhia, ajudamos uns aos outros.” No início, acreditei. Ajudei com as contas, cozinhei, tratei da roupa, cuidei do pequeno Tomás quando nasceu. Mas aos poucos fui-me tornando invisível.
Lembro-me do primeiro Natal juntos nesta casa. Preparei tudo com carinho: o bacalhau, as rabanadas, até fiz filhoses como fazia a minha mãe. Mas Andreia criticou tudo: “Está salgado”, “Não gosto de canela”, “O Tomás não pode comer isso”. Senti-me inútil. No fim da noite, recolhi-me ao meu quarto e chorei baixinho para não acordar ninguém.
Com o tempo, as pequenas farpas tornaram-se rotina. “A tua mãe deixou a cozinha uma confusão”, ouvia Andreia ao telefone com a irmã. “Ela não percebe que já não manda aqui.” O Rui nunca me defendia. Limitava-se a dizer: “Deixa lá, mãe, ela está cansada.”
A solidão foi crescendo dentro de mim como uma erva daninha. Os meus dias resumiam-se a tarefas domésticas e a ouvir conversas sussurradas atrás das portas fechadas. O Tomás era o único raio de sol: corria para mim quando chegava da escola, abraçava-me com força e pedia histórias antigas. Mas até isso começou a incomodar Andreia: “Não lhe contes essas coisas tristes do antigamente.”
Naquela noite em que me mandaram para a sala, arrumei as poucas coisas que me restavam numa mala pequena. Sentei-me no sofá e olhei em volta: quadros modernos nas paredes onde antes havia fotografias de família; brinquedos espalhados pelo chão; o cheiro a comida pronta no micro-ondas em vez do aroma das minhas sopas.
Não dormi nessa noite. Ouvi-os discutir baixinho no quarto ao lado:
— Ela não pode ficar aqui para sempre, Rui! — sussurrava Andreia.
— É a minha mãe… — respondia ele, hesitante.
— Pois, mas isto não é vida para ninguém.
No dia seguinte, tentei falar com Rui enquanto Andreia estava fora:
— Filho, se quiserem que eu vá embora…
Ele interrompeu-me:
— Mãe, não é isso… Só precisamos de espaço agora com o bebé a caminho. Tu sabes como é difícil.
— Sei, Rui. Sei melhor do que ninguém. Mas custa sentir que já não faço parte desta casa.
Ele abraçou-me rapidamente e saiu apressado para o trabalho.
As semanas passaram e fui-me apagando aos poucos. Deixei de cozinhar — Andreia preferia comida encomendada. Deixei de arrumar — ela dizia que eu mexia onde não devia. Até Tomás começou a evitar os meus abraços: “A mãe disse que estou grande para isso.”
Uma tarde, sentei-me no jardim do prédio e vi uma vizinha, Dona Emília, passear com os netos. Sorri-lhe e ela aproximou-se:
— Então Maria, está tudo bem?
Desatei a chorar ali mesmo, sem vergonha. Ela ouviu-me em silêncio e depois disse:
— Não te deixes apagar, mulher. A tua vida ainda não acabou só porque os outros acham que sim.
As palavras dela ficaram comigo durante dias. Comecei a sair mais vezes: ia ao café da esquina ler o jornal, conversei com outras senhoras do bairro, inscrevi-me numa aula de hidroginástica no centro sénior. Aos poucos fui recuperando um pouco de mim.
Mas em casa continuava invisível. Um dia ouvi Andreia dizer ao Rui:
— Ela está sempre fora agora… Se calhar era melhor ir para um lar.
O Rui não respondeu.
Nessa noite escrevi uma carta aos meus filhos — ao Rui e à minha filha mais velha, Sofia, que vive no Porto e raramente me liga:
“Queridos filhos,
Se algum dia sentirem saudades minhas, lembrem-se de que fui eu quem vos ensinou a amar e a cuidar dos outros. Não sou perfeita, mas dei-vos tudo o que tinha. Agora preciso cuidar de mim.”
No dia seguinte arrumei as minhas coisas e fui bater à porta da Dona Emília:
— Preciso de um sítio onde ficar uns dias…
Ela recebeu-me de braços abertos.
Passaram-se meses desde então. O Rui liga-me às vezes — diz que o Tomás pergunta por mim. Andreia nunca mais falou comigo. Sofia veio visitar-me uma vez e chorámos juntas tudo o que tínhamos guardado durante anos.
Hoje vivo num pequeno apartamento partilhado com outras senhoras como eu — mulheres que deram tudo à família e ficaram sem nada em troca. Aprendi a rir outra vez, a dançar nas festas do centro sénior e até voltei a cozinhar para quem aprecia os meus cozinhados.
Mas à noite ainda me pergunto: será que falhei como mãe? Ou será simplesmente impossível ser amada da mesma forma que amamos? E vocês… já se sentiram estranhos na vossa própria casa?