“Mãe, porque é que tudo dói?” – A minha luta pela vida da minha filha e a verdade que destruiu a nossa família
— Mãe, porque é que tudo dói? — ouvi a voz da Inês, rouca, quase um sussurro, enquanto o seu corpo magro se aninhava no meu colo. O relógio da cozinha marcava 2h17 da manhã. O silêncio era cortado apenas pelo som irregular da respiração dela e pelo bater frenético do meu coração.
— Aguenta, filha, já vamos ao hospital — disse-lhe, tentando esconder o pânico na minha voz. O Miguel, meu marido, estava de pé ao meu lado, pálido como nunca o tinha visto. Pegou nas chaves do carro com mãos trémulas e saímos disparados para o Hospital de Santa Maria.
No caminho, Inês gemia baixinho. Eu olhava para ela e só conseguia pensar: “O que é que eu fiz de errado?” Tinha dez anos, era uma menina cheia de vida, sempre a correr pelo jardim da nossa casa em Odivelas. Nunca tinha tido nada grave. E agora ali estava ela, sem forças, com dores por todo o corpo.
No hospital, tudo aconteceu depressa. Médicos e enfermeiros correram connosco para uma sala cheia de luzes brancas e cheiros estranhos. Fizeram perguntas rápidas:
— Ela tomou alguma coisa? Medicamentos? Comeu algo diferente?
Eu negava com a cabeça, mas sentia-me cada vez mais insegura. Miguel olhava para mim como se eu tivesse todas as respostas. Mas eu não sabia nada.
Horas depois, uma médica aproximou-se:
— Suspeitamos de envenenamento. Precisamos de saber tudo o que ela comeu ou tomou nas últimas 24 horas.
Envenenamento? Senti as pernas fraquejarem. Miguel agarrou-me pelo braço:
— Marta, tu estiveste com ela o dia todo! O que é que lhe deste?
— Nada! Só o jantar normal… sopa, arroz de frango… — respondi, mas a dúvida já se instalava entre nós.
Os meus pais chegaram ao hospital pouco depois. A minha mãe abraçou-me com força:
— Isto não pode ser só comida estragada… — murmurou ela, olhando de soslaio para Miguel.
A tensão entre eles era palpável. Desde sempre que a minha mãe desconfiava do meu marido. Achava-o frio, distante demais com Inês. Eu sempre defendi Miguel, mas agora sentia-me dividida.
Enquanto Inês era submetida a exames atrás de exames, comecei a pensar em tudo o que podia ter corrido mal. Lembrei-me das discussões recentes com Miguel sobre o trabalho dele — ele chegava cada vez mais tarde a casa, sempre cansado e irritado. E eu? Eu andava tão absorvida pelos meus próprios problemas que talvez não tivesse reparado em sinais importantes.
Na sala de espera, o ambiente era sufocante. O meu pai tentava acalmar-me:
— Marta, vai correr tudo bem. A Inês é forte.
Mas eu via nos olhos dele o mesmo medo que sentia em mim.
De repente, apareceu uma enfermeira:
— Precisamos falar convosco em privado.
Entrámos numa pequena sala. A médica estava lá dentro, com um ar grave.
— Encontrámos vestígios de pesticidas no sangue da vossa filha. Isto não é comum… alguém tem acesso a produtos tóxicos em casa?
Olhei para Miguel. Ele desviou o olhar.
— No quintal… uso pesticidas para as ervas daninhas — murmurou ele.
A médica fixou-o:
— É possível que ela tenha tido contacto acidental?
Miguel abanou a cabeça:
— Eu guardo tudo na arrecadação, fechado à chave.
A médica suspirou:
— Vamos ter de chamar a polícia para investigar. Isto é procedimento standard.
O chão fugiu-me dos pés. Polícia? A minha filha estava entre a vida e a morte e agora éramos suspeitos?
As horas seguintes foram um pesadelo. A polícia fez perguntas atrás de perguntas. Vasculharam a nossa casa. Os vizinhos começaram a cochichar quando viram os carros da polícia à porta.
No hospital, Inês piorava. Febre alta, vómitos constantes. Eu sentava-me ao lado dela e segurava-lhe a mão:
— Estou aqui, meu amor. Não te vou deixar.
Numa noite dessas, ouvi Miguel ao telefone na varanda do hospital:
— Não posso falar agora… sim, eu sei… mas isto complicou-se…
Quando me viu, desligou rapidamente.
— Com quem estavas a falar? — perguntei.
Ele hesitou:
— Era do trabalho.
Não acreditei nele. Pela primeira vez em anos, senti que havia algo entre nós que eu não conhecia.
Dias depois, os resultados dos exames mostraram que Inês tinha ingerido uma dose pequena mas repetida de pesticida ao longo de semanas. Não podia ser acidente. Alguém estava deliberadamente a envenená-la.
O choque foi total. A polícia interrogou toda a família: eu, Miguel, os meus pais e até a minha irmã mais nova, Sofia, que morava connosco desde que se separou do marido.
Sofia ficou ofendida:
— Acham mesmo que eu seria capaz? Eu amo a Inês como se fosse minha filha!
Mas havia algo estranho no comportamento dela — evitava olhar-me nos olhos e parecia sempre nervosa quando falava com os polícias.
Uma noite, enquanto chorava sozinha na casa de banho do hospital, ouvi uma conversa abafada no corredor:
— Marta nunca vai saber… — era a voz da Sofia.
— Cala-te! Se ela descobre o que fizeste… — sussurrou alguém que reconheci como sendo o Miguel.
O sangue gelou-me nas veias. Saí disparada e apanhei-os juntos no corredor.
— O que é que vocês sabem sobre o que aconteceu à Inês? — gritei.
Sofia desatou a chorar:
— Eu não queria… foi sem querer! Só queria assustar-vos! Miguel prometeu-me que ia resolver tudo!
Miguel tentou agarrar-me:
— Marta, deixa-me explicar!
Afastei-me deles como se fossem estranhos.
A verdade veio ao de cima: Sofia tinha despejado pequenas quantidades de pesticida na comida da Inês para chamar a atenção para si própria — sentia-se invisível desde o divórcio e invejava o carinho que dávamos à nossa filha. Miguel sabia há dias mas tentou proteger Sofia por medo do escândalo familiar.
O mundo desabou à minha volta. Chamei a polícia imediatamente e ambos foram detidos para interrogatório.
Durante semanas vivi num limbo: raiva pela traição do meu marido e da minha irmã; culpa por não ter visto os sinais; medo pelo futuro da Inês. Ela recuperou lentamente mas ficou marcada pelo trauma — pesadelos constantes e medo de comer qualquer coisa preparada por outra pessoa.
Os meus pais afastaram-se de mim por vergonha do que Sofia fez. Miguel pediu-me perdão todos os dias mas eu já não conseguia olhar para ele sem sentir repulsa.
Hoje vivo sozinha com Inês num pequeno apartamento em Lisboa. Trabalho demais para não pensar no passado. Às vezes pergunto-me se algum dia vou conseguir confiar em alguém outra vez ou se esta ferida vai ficar aberta para sempre.
Olho para Inês enquanto dorme e penso: “Como é possível sobreviver à traição daqueles que mais amamos?” Será que alguma vez conseguimos perdoar verdadeiramente? E vocês… já sentiram algo assim?