Estranha no Meu Próprio Lar: A História de uma Nora Portuguesa
— Maria, não é assim que se faz o arroz! — A voz da minha sogra, Dona Amélia, cortou o silêncio da cozinha como uma faca afiada. Eu, com as mãos trêmulas, tentei sorrir, mas o nó na garganta não me deixava responder. Era o meu segundo dia naquela casa, agora oficialmente minha casa também, depois do casamento com o João. Mas tudo ali me parecia estranho, como se eu fosse uma visita indesejada.
— Desculpe, Dona Amélia, é que na minha casa fazíamos diferente… — arrisquei, tentando não soar insolente.
Ela bufou, ajeitando o avental. — Aqui faz-se como sempre se fez. Não quero ver o João a comer comida mal feita.
O João, sentado à mesa, fingia ler o jornal, mas eu sabia que ele ouvia cada palavra. O silêncio dele doía mais do que qualquer crítica da mãe. Eu queria gritar, pedir ajuda, mas sentia-me sozinha, como se tivesse sido largada num campo de batalha sem armas.
Os dias foram passando e cada um era uma nova prova. Se eu limpava a casa, Dona Amélia encontrava pó nos cantos. Se cozinhava, faltava sal ou sobrava gordura. Se eu ria alto, era falta de modos. Se ficava calada, era antipatia. O João, sempre entre as duas, parecia um menino assustado, incapaz de tomar partido.
Lembro-me de uma noite em particular. Estávamos à mesa, o jantar servido. Dona Amélia olhou para o prato e disse:
— O feijão está duro. Não sei como a tua mãe te deixou casar sem saber cozinhar.
O João olhou para mim, mas desviou o olhar logo de seguida. Senti as lágrimas a quererem saltar, mas engoli-as com o feijão duro. Depois do jantar, fui para o quarto e chorei baixinho, para ninguém ouvir. Mas Dona Amélia ouviu. Bateu à porta, entrou sem pedir licença e disse:
— Maria, aqui não há espaço para fraquezas. Se queres ser mulher do meu filho, tens de aprender a ser forte.
Quis responder, quis dizer-lhe que eu já era forte, que tinha deixado tudo para trás — a minha família, os meus amigos, a minha cidade — para estar ali, a tentar construir uma vida com o homem que amava. Mas as palavras ficaram presas.
Os meses passaram e a rotina tornou-se sufocante. O João trabalhava até tarde, e eu ficava sozinha com Dona Amélia. As minhas tentativas de aproximação eram sempre recebidas com desconfiança. Um dia, tentei perguntar-lhe sobre a infância do João, para criar algum laço.
— O João era um menino muito bom, sempre fez o que eu mandava. Espero que continues a cuidar dele como eu cuidei.
Senti o peso da responsabilidade a esmagar-me. Eu não queria ser mãe do João, queria ser sua companheira. Mas ali, naquela casa, parecia que o papel de esposa era apenas uma extensão do papel de mãe.
A minha própria mãe ligava-me todos os domingos. — Estás bem, filha? — perguntava, com a voz preocupada.
— Estou, mãe. Só tenho saudades de casa.
— O João trata-te bem?
— Trata, mãe. Só… só é tudo muito diferente aqui.
Ela suspirava, como se soubesse exatamente o que eu sentia, mas sem saber como ajudar.
O tempo foi passando e comecei a sentir-me invisível. As minhas opiniões não contavam, os meus gostos eram ignorados. No Natal, sugeri fazermos um prato típico da minha terra. Dona Amélia olhou-me como se eu tivesse proposto um crime.
— Aqui faz-se bacalhau com todos, como sempre se fez. Não precisamos de invenções.
O João, mais uma vez, ficou calado. Eu sentia-me cada vez mais sozinha. Comecei a evitar a cozinha, a sala, até o próprio João. Passava horas no quarto, a ler ou a escrever cartas que nunca enviei.
Um dia, decidi sair. Fui até ao café da vila, sentei-me sozinha e pedi um café. A dona do café, Dona Rosa, aproximou-se.
— És a mulher do João, não és? — perguntou, com um sorriso.
— Sou, sim.
— Não é fácil viver com a Dona Amélia. Mas olha que ela só quer o melhor para o filho.
Sorri, mas por dentro sentia-me revoltada. Porque é que o melhor para o filho tinha de ser o pior para mim?
Nessa noite, quando o João chegou, tentei falar com ele.
— João, precisamos de conversar.
Ele pousou a mala, cansado. — O que foi agora, Maria?
— Eu não aguento mais viver assim. Sinto-me uma estranha nesta casa. A tua mãe não me aceita, não me respeita. E tu… tu não fazes nada.
Ele passou as mãos pelo rosto. — Maria, ela é minha mãe. Sempre foi assim. Tens de te habituar.
— Não, João. Não tenho. Eu casei contigo, não com a tua mãe. Quero construir uma vida contigo, mas assim não consigo.
Ele ficou em silêncio. Pela primeira vez, vi nos seus olhos um misto de medo e culpa. Mas não disse nada. Fui dormir sozinha, com o coração apertado.
Os dias seguintes foram ainda mais difíceis. Dona Amélia percebeu que algo tinha mudado e tornou-se ainda mais dura. Começou a fazer comentários à frente dos vizinhos, a dizer que as noras de hoje não prestam, que no tempo dela as mulheres sabiam o seu lugar.
Eu sentia-me cada vez mais pequena. Comecei a perder peso, a dormir mal. A minha mãe percebeu ao telefone.
— Maria, volta para casa. Não tens de passar por isso.
Mas eu não queria desistir. Queria provar a mim mesma que era capaz, que podia ser feliz ali. Mas a cada dia sentia-me mais fraca.
Uma tarde, depois de mais uma discussão, saí de casa sem rumo. Andei pelas ruas da vila, sentei-me num banco do jardim e chorei. Uma senhora idosa sentou-se ao meu lado.
— Estás bem, menina?
— Não, não estou. Sinto-me sozinha, perdida.
Ela sorriu, com ternura. — Às vezes, o lar não é onde nascemos, mas onde somos amados. Não deixes que te tirem isso.
Essas palavras ficaram comigo. Voltei para casa e, pela primeira vez, enfrentei Dona Amélia.
— Dona Amélia, eu respeito-a, mas exijo respeito também. Não sou sua filha, mas sou mulher do seu filho. Quero ser feliz aqui, mas não posso ser feliz se não me sentir aceite.
Ela olhou para mim, surpresa. — Estás a falar comigo assim?
— Estou. Porque já não aguento mais. Se não me aceitar, vou embora.
O João ouviu tudo. Pela primeira vez, ficou do meu lado.
— Mãe, a Maria tem razão. Esta casa é dos dois. Ou mudamos, ou perdemos tudo.
Dona Amélia ficou em silêncio. Nos dias seguintes, as coisas começaram a mudar, devagar. Não se tornou minha amiga, mas passou a respeitar-me. O João começou a defender-me, a ouvir-me. E eu, finalmente, comecei a sentir-me em casa.
Hoje, olhando para trás, percebo que o verdadeiro lar não é feito de paredes, mas de respeito e amor. E pergunto-me: quantas mulheres ainda vivem como eu vivi, caladas, à espera de serem aceites? Será que não está na hora de mudarmos esta tradição de silêncio e submissão? O que é, afinal, o verdadeiro significado de família?