Entre Sombras e Esperança: O Medo que Me Roubou a Paz

— Mãe, ele disse que se eu saísse de casa, nunca mais veria os meus filhos! — gritou Mariana, com a voz embargada pelo choro, enquanto batia à porta, encharcada pela chuva que caía naquela noite de novembro.

O meu coração disparou. Senti as pernas fraquejarem, mas agarrei-a com força, puxando-a para dentro. O cheiro a terra molhada misturava-se ao perfume dela, e o medo instalou-se no meu peito como uma sombra fria. Mariana tremia dos pés à cabeça, os olhos vermelhos e inchados. Fechei a porta com força, como se assim pudesse manter o mundo lá fora.

— O que aconteceu, filha? — perguntei, tentando manter a voz firme.

Ela soluçava, quase sem conseguir falar. — O Rui… ele perdeu a cabeça. Disse que eu era uma inútil, que não servia para nada. Atirou um prato ao chão. Eu peguei nas crianças e saí. Mas ele ficou furioso… ameaçou-me, mãe. Disse que se eu fosse à polícia, ele fazia pior.

Sentei-a no sofá, abracei-a com toda a força que tinha. O meu neto mais velho, o Tiago, agarrava-se às pernas da mãe, em silêncio. A pequena Matilde chorava baixinho ao colo dela. Senti-me impotente. Como é que isto tinha acontecido à minha família? Sempre fui uma mulher de fé, mas naquele momento só conseguia pensar no pior.

O telefone tocou. O número do Rui apareceu no visor. Mariana olhou para mim, assustada.

— Não atendas — sussurrou ela.

Deixei tocar até parar. O silêncio que se seguiu foi pesado. Sentei-me ao lado da Mariana e segurei-lhe as mãos geladas.

— Filha, tens de fazer alguma coisa. Não podes voltar para casa dele assim.

Ela abanou a cabeça.

— Não tenho para onde ir… E se ele vier cá?

Olhei para a porta fechada, como se o Rui pudesse arrombá-la a qualquer momento. Lembrei-me dos tempos em que Mariana era pequena e eu lhe prometia que nada de mal lhe aconteceria enquanto estivesse comigo. Agora, sentia-me incapaz de cumprir essa promessa.

Naquela noite não dormimos. Fiquei sentada na sala, com Mariana e as crianças ao meu lado. Rezei em silêncio, pedindo proteção para a minha filha e os meus netos. A tempestade lá fora parecia ecoar o turbilhão dentro de mim.

De manhã, Mariana decidiu ir à polícia. Eu fui com ela. O agente ouviu o relato dela com uma expressão cansada — como se já tivesse ouvido aquela história mil vezes.

— Tem onde ficar? — perguntou ele.

— Em casa da minha mãe — respondeu Mariana, baixinho.

Ele assentiu e explicou os procedimentos: ordem de restrição, apoio psicológico, contacto com uma assistente social. Tudo parecia tão burocrático, tão distante da dor real que sentíamos.

Quando voltámos para casa, o telefone tocou outra vez. Desta vez era a sogra da Mariana.

— Maria do Céu, por favor… fala com a minha nora. O Rui está desesperado! Ele não é mau homem… só está perdido — implorou ela.

Senti raiva e pena ao mesmo tempo.

— Ele ameaçou a minha filha! — respondi, tentando controlar as lágrimas.

— Mas são família… não podem resolver isto entre vocês?

Desliguei sem responder. A família do Rui sempre fechou os olhos aos problemas dele: as bebedeiras, os acessos de fúria, as palavras duras. Agora queriam que nós fingíssemos que nada tinha acontecido?

Os dias seguintes foram um pesadelo. Mariana chorava à noite, escondida das crianças. Tiago começou a fazer xixi na cama outra vez. Matilde não queria largar o colo da mãe. Eu tentava ser forte por todos eles, mas sentia-me cada vez mais frágil.

Uma tarde, enquanto preparava o jantar, ouvi vozes na rua. Olhei pela janela e vi o Rui encostado ao portão, a falar alto ao telemóvel.

— Sai daqui! — gritei pela janela.

Ele olhou para cima, os olhos vermelhos de raiva ou álcool — não consegui distinguir.

— Quero ver os meus filhos! — berrou ele.

Chamei a polícia. Quando chegaram, Rui já tinha desaparecido. Mariana tremia tanto que tive de lhe dar um calmante.

Nessa noite ajoelhei-me no quarto e rezei como nunca tinha rezado antes. Pedi forças para proteger a minha filha e os meus netos. Pedi coragem para não ceder à pressão da família do Rui nem ao medo que me consumia por dentro.

No dia seguinte, recebemos uma visita da assistente social. Era uma mulher jovem chamada Andreia, com um sorriso triste e olhos atentos.

— Mariana, sei que é difícil… mas não está sozinha — disse ela. — Há outras mulheres na mesma situação. Podemos ajudar com apoio psicológico e legal.

Mariana ouviu tudo em silêncio. Quando Andreia saiu, abraçou-me com força.

— Mãe… eu só queria ter uma família normal…

As palavras dela ficaram-me gravadas na alma. Quantas mulheres em Portugal vivem este pesadelo em silêncio? Quantas mães rezam todas as noites para que as filhas regressem sãs e salvas?

Os meses passaram devagarinho. Mariana começou terapia e arranjou um trabalho numa pastelaria do bairro. Tiago voltou a sorrir aos poucos; Matilde aprendeu a andar de bicicleta no jardim da frente. Rui foi obrigado pelo tribunal a manter distância e só podia ver os filhos sob supervisão.

A família dele continuou a pressionar-nos para “resolvermos isto em casa”. Houve discussões acesas ao telefone; acusações trocadas; portas batidas com força.

Uma noite, depois de mais uma chamada tensa com a sogra da Mariana, sentei-me sozinha na cozinha escura e chorei tudo o que tinha guardado durante meses. Senti raiva do Rui, pena da minha filha e um medo profundo de não conseguir proteger quem mais amo neste mundo.

Mas também senti esperança — uma esperança tímida mas teimosa — de que dias melhores viriam.

Hoje olho para trás e vejo o quanto crescemos juntas: eu e Mariana, mãe e filha unidas pelo sofrimento mas também pela coragem de recomeçar. Ainda tenho medo às vezes; ainda rezo todas as noites por proteção e paz.

Mas aprendi que não estamos sozinhas — há sempre alguém disposto a ajudar, mesmo quando tudo parece perdido.

E pergunto-me: quantas mães vivem este medo caladas? Quantas famílias fingem que está tudo bem só para evitar o escândalo? Será que algum dia vamos conseguir quebrar este ciclo de silêncio e dor?