Entre Dois Fogos: Até Onde Vai a Minha Responsabilidade pela Família?

— Não podes simplesmente ignorar o que se passa, Mariana! — A voz da minha mãe ecoa pela cozinha, misturando-se com o som da chuva a bater nas janelas. O cheiro a detergente e a loiça quente sobe-me ao nariz, mas o que me sufoca mesmo é o tom dela, carregado de mágoa e exigência.

— Mãe, eu não estou a ignorar nada, mas eu também tenho a minha vida! — respondo, tentando não levantar demasiado a voz para não acordar o Tiago, o meu filho de oito anos, que finalmente adormeceu depois de um dia difícil na escola.

A minha irmã, a Inês, senta-se à mesa, os olhos vermelhos de tanto chorar. — Preciso de ti, mana. O Pedro saiu de casa outra vez. Não sei o que fazer, não tenho para onde ir. — As palavras dela caem como pedras no meu peito. Sinto-me a afundar.

A minha mãe suspira, dramática, como se o mundo inteiro estivesse prestes a desabar. — Mariana, tu és a única que consegue pôr isto tudo em ordem. Sempre foste tu. O teu pai, se cá estivesse, saberia o que fazer, mas agora só temos a ti.

Olho para as minhas mãos, vermelhas da água quente, e penso: “E eu? Quem é que me segura a mim?”. O meu marido, o Rui, está na sala, a ver televisão, cada vez mais distante. Já nem me lembro da última vez que tivemos uma conversa sem interrupções, sem telefonemas da minha mãe ou mensagens da Inês a pedir ajuda.

A minha vida tornou-se um vaivém constante entre a casa da minha mãe, onde tudo parece sempre à beira do colapso, e a minha própria casa, onde o Rui e o Tiago esperam por mim, cada vez mais impacientes, cada vez mais ausentes. Sinto-me como uma corda esticada até ao limite, prestes a rebentar.

— Mariana, não podes deixar a tua irmã assim — insiste a minha mãe, a voz a tremer. — Ela não tem ninguém. Tu sabes como ela é frágil.

A Inês olha para mim, os olhos suplicantes. — Por favor, mana. Só preciso de ficar aqui uns dias. Prometo que não vou incomodar.

Fecho os olhos por um segundo. Lembro-me de todas as vezes que pus os problemas dos outros à frente dos meus. Quando o meu pai morreu, fui eu que tratei de tudo: do funeral, das contas, da minha mãe, da Inês. Fui eu que deixei de sair com amigos, que adiei sonhos, que me tornei adulta demasiado cedo. Agora, aos trinta e cinco anos, continuo a ser o pilar de uma casa que já não é a minha.

O Rui entra na cozinha, o rosto cansado. — Está tudo bem? — pergunta, mas sei que o que quer mesmo saber é se a Inês vai ficar cá outra vez, se a minha mãe vai passar mais uma noite no nosso sofá.

— Está tudo bem — minto, porque é mais fácil do que explicar o caos que sinto cá dentro.

A Inês levanta-se e abraça-me. — Obrigada, mana. Sabia que podia contar contigo.

O Rui olha para mim, desapontado. — Mariana, precisamos de falar. — A voz dele é baixa, mas firme. Sinto um arrepio. Sei o que vem aí.

Mais tarde, quando a casa finalmente se cala, sento-me ao lado do Rui no sofá. Ele não me olha nos olhos.

— Isto não pode continuar assim, Mariana. Eu e o Tiago precisamos de ti. Tu não podes ser tudo para toda a gente. — As palavras dele são como facas. — Sinto que já não faço parte da tua vida. Sinto que estamos a perder-te.

As lágrimas caem-me pela cara sem pedir licença. — Eu não sei como fazer diferente, Rui. Se eu não ajudar a minha mãe e a Inês, quem ajuda? Elas só têm a mim.

— E nós? — pergunta ele, a voz embargada. — Nós também só te temos a ti.

Fico em silêncio. O peso da culpa aperta-me o peito. Sei que o Rui tem razão, mas como é que se diz “não” a uma mãe que perdeu o marido? A uma irmã que nunca soube viver sozinha?

Os dias passam e a tensão cresce. A Inês ocupa o quarto de hóspedes, a minha mãe aparece todos os dias com sacos de compras e queixas novas. O Tiago começa a ter pesadelos, acorda a chamar por mim. O Rui fecha-se cada vez mais. Eu ando de um lado para o outro, a tentar apagar fogos, mas sinto que estou a perder tudo.

Uma noite, depois de deitar o Tiago, encontro a minha mãe e a Inês a discutir na cozinha. — Não podes continuar a depender da Mariana! — grita a minha mãe. — Ela tem a vida dela!

— E tu? Tu também dependes dela! — responde a Inês, a voz a tremer.

— Chega! — grito eu, surpreendendo-me a mim própria. — Chega! Eu não aguento mais! Não sou responsável pela felicidade de toda a gente! Eu também preciso de respirar!

A minha mãe olha para mim, chocada. — Mariana, não fales assim…

— Falo, sim! — interrompo. — Porque ninguém pensa em mim? Porque é que sou sempre eu a resolver tudo? Eu também tenho uma família, também tenho problemas, também preciso de ajuda!

A Inês começa a chorar. — Desculpa, mana. Eu não queria…

— Eu sei, Inês. Mas eu não posso ser tudo para todos. Preciso que vocês aprendam a viver sem mim. Preciso de cuidar de mim, do Rui, do Tiago. Preciso de ser feliz.

A minha mãe senta-se, derrotada. — Não sei como fazer isso, Mariana. Sempre dependi de ti.

— Então está na altura de aprenderes. — A minha voz sai mais dura do que queria, mas é a verdade.

Nessa noite, o Rui abraça-me na cama. — Tenho medo de te perder — sussurra.

— Eu também tenho medo, Rui. Mas vou tentar mudar. Por nós.

Os dias seguintes são difíceis. A minha mãe faz birra, a Inês sente-se perdida. Mas começo a impor limites. A Inês procura ajuda, a minha mãe aprende a pedir favores a outras pessoas. O Rui e o Tiago começam a sorrir mais. Eu sinto-me mais leve, mas também cheia de dúvidas.

Será que fiz bem? Será que fui egoísta? Ou será que, finalmente, aprendi a cuidar de mim?

Às vezes pergunto-me: até onde vai a nossa responsabilidade pela família? E quando é que ajudar deixa de ser amor e passa a ser auto-destruição? O que fariam vocês no meu lugar?