À Sombra do Meu Irmão: Como Aprendi a Perdoar

— Catarina, não podes ser sempre tão dramática! — gritou a minha mãe da cozinha, enquanto eu subia as escadas com o coração aos pulos. O cheiro do arroz de pato misturava-se com o som abafado da televisão na sala, onde o meu pai e o Miguel discutiam futebol. Eu queria gritar, queria desaparecer. Mas limitei-me a fechar a porta do quarto com força suficiente para sentir que, pelo menos ali, tinha algum controlo.

Sentei-me na cama, os olhos ardendo de raiva e humilhação. Mais uma vez, Miguel tinha chegado tarde, sem avisar, e os meus pais tinham-lhe guardado o jantar como se fosse um príncipe. Eu? Se me atrasasse cinco minutos, era logo um sermão sobre responsabilidade e respeito. “Porquê ele? Porquê sempre ele?”, perguntava-me vezes sem conta. O Miguel era o filho perfeito: notas altas, popularidade no liceu, jeito para o futebol. Eu era… bem, eu era só a Catarina.

Lembro-me de uma noite em particular, quando tinha 16 anos. Estava sentada à mesa da cozinha, a estudar para um teste de Matemática que me tirava o sono há dias. A minha mãe entrou, pousou um prato à minha frente e disse:

— O Miguel vai chegar tarde hoje. Não te esqueças de aquecer-lhe o jantar quando vier.

Olhei para ela, incrédula.

— E eu? Não vês que estou a estudar? Porque é que sou sempre eu a tratar das coisas dele?

Ela suspirou, como se eu fosse uma criança birrenta.

— Catarina, ele tem andado tão cansado… Tu és mais organizada, sabes que ele precisa de ti.

Engoli em seco. “Precisa de mim? Ou só sou útil quando é para servir?” Mas não disse nada. Limitei-me a aquecer o jantar do Miguel quando ele chegou, já depois da meia-noite, com o sorriso fácil de quem nunca teve de lutar por nada.

Os anos passaram e as feridas foram-se acumulando. O Miguel entrou na Faculdade de Engenharia no Porto; eu fiquei em Lisboa, a estudar Letras. Os meus pais falavam dele todos os dias ao telefone: “O Miguel está tão cansado… O Miguel tem exames… O Miguel isto, o Miguel aquilo.” Quando lhes contei que tinha ganho um prémio de escrita criativa na faculdade, a minha mãe respondeu:

— Que bom, filha… Olha, sabes se o Miguel já jantou?

Senti-me invisível. Comecei a sair menos do quarto, a falar menos à mesa. O silêncio tornou-se o meu escudo. Mas por dentro crescia uma raiva surda — não só contra eles, mas também contra mim própria por não conseguir ser diferente.

O ponto de rutura chegou numa noite de Natal. A família toda reunida à volta da mesa: tios, primos, avós. O Miguel chegou atrasado — como sempre — mas foi recebido com abraços e risos. Eu estava sentada ao lado da minha avó Maria, que me apertou a mão por baixo da mesa.

— Estás bem, menina?

Assenti com um sorriso forçado. Mas quando ouvi o meu pai brindar ao “orgulho da família”, referindo-se ao Miguel, senti as lágrimas subirem-me aos olhos. Levantei-me abruptamente e saí para o quintal gelado.

A minha mãe veio atrás de mim.

— Catarina! Que disparate é este?

— Estou farta! — gritei-lhe. — Farta de ser invisível! Farta de ser sempre eu a ficar para trás!

Ela olhou para mim como se me visse pela primeira vez.

— Achas mesmo que não te amamos? Que não temos orgulho em ti?

— Não é isso! — respondi entre soluços. — Só queria sentir que também sou importante…

Ela tentou abraçar-me, mas eu recuei. Naquela noite dormi mal; ouvi os meus pais discutirem baixinho no corredor. No dia seguinte, ninguém falou sobre o assunto.

A partir daí afastei-me ainda mais. Fui viver sozinha para um pequeno apartamento em Benfica. Trabalhava numa livraria durante o dia e escrevia à noite. Os meus pais ligavam-me todas as semanas — ou melhor, ligavam para saber do Miguel através de mim.

Um dia recebi uma chamada inesperada do próprio Miguel.

— Catarina… Preciso de falar contigo.

A voz dele soava estranha, quase frágil.

Encontrámo-nos num café perto do meu trabalho. Ele estava pálido, olheiras fundas.

— O que se passa?

Ele hesitou antes de responder:

— Sinto que estou a falhar em tudo… Os pais acham que sou perfeito mas… eu não aguento mais esta pressão.

Fiquei sem palavras. Pela primeira vez vi o meu irmão sem aquela aura intocável.

— Nunca te vi assim…

Ele sorriu tristemente.

— Tu sempre foste forte, Catarina. Eu invejava-te por conseguires ser tu própria… Eu só tentei corresponder às expectativas deles.

As palavras dele ficaram a ecoar na minha cabeça durante dias. Pela primeira vez percebi que talvez todos estivéssemos presos num papel que não escolhemos: eu na sombra dele; ele na luz que nunca pediu.

Comecei a reparar nos pequenos gestos dos meus pais: as mensagens preocupadas da minha mãe quando eu estava doente; o meu pai a perguntar-me sobre os meus livros preferidos; até o Miguel a enviar-me textos dos poemas que escrevia em segredo.

Demorou tempo — muito tempo — até conseguir perdoar verdadeiramente. Não foi um momento mágico nem um perdão imediato. Foi um processo lento: aceitar as minhas mágoas, reconhecer as falhas deles e as minhas próprias limitações.

Hoje olho para trás e vejo tudo com outros olhos. Ainda há silêncios desconfortáveis nos jantares de família; ainda há comparações subtis e gestos automáticos. Mas aprendi a falar — e a ouvir também.

Na última reunião de família, fui eu quem propôs um brinde:

— Às imperfeições que nos tornam únicos… e à coragem de perdoar.

O Miguel sorriu-me do outro lado da mesa; os meus pais baixaram os olhos, emocionados.

Às vezes pergunto-me: quantas Catarinas existem por aí? Quantos irmãos vivem à sombra uns dos outros sem nunca se darem conta das dores mútuas? Será que algum dia aprendemos mesmo a ver-nos uns aos outros como realmente somos?