A Sombra do Irmão: O Silêncio de Zélia
— Mãe, não te metas! — A voz da Emília ecoou pela cozinha, cortando o silêncio pesado que pairava sobre nós. Eu estava ali, de pé, com as mãos trémulas agarradas à chávena de chá, a tentar encontrar as palavras certas para dizer à minha filha que a Sofia precisava dela. Mas ela, como sempre, desviou o olhar, focando-se no pequeno Tomás, que brincava no tapete da sala, rodeado de brinquedos novos.
— Emília, por favor, ouve-me. A Sofia está cada vez mais calada, mais triste. Não vês que ela sente a tua ausência? — insisti, sentindo o nó na garganta apertar-se ainda mais.
Ela bufou, impaciente. — A Sofia é dramática, mãe. Sempre foi. O Tomás é pequeno, precisa mais de mim agora. — E com isto, virou-me as costas, como se o assunto estivesse encerrado.
Mas para mim, nunca esteve. Desde que o Tomás nasceu, há quatro anos, que a Sofia foi desaparecendo. Primeiro, deixou de pedir colo. Depois, deixou de rir alto. Agora, com apenas nove anos, a minha neta é uma sombra, sempre a observar, sempre a tentar não incomodar. Eu vejo-a, mesmo quando ninguém mais vê.
Lembro-me de uma tarde de domingo, há poucos meses. Estávamos todos reunidos para o almoço, como era tradição. O Tomás fazia birra porque queria o brinquedo novo que vira na televisão. A Emília levantou-se imediatamente, prometendo que lho compraria. A Sofia, sentada ao meu lado, olhou para o prato e murmurou:
— Eu também gostava de um livro novo, avó.
Apertei-lhe a mão, sentindo a pele fria e os dedos magros. — Eu compro-te o livro, querida. Qual queres?
Ela sorriu, mas foi um sorriso triste, daqueles que não chegam aos olhos. — Não faz mal, avó. A mãe não gosta que eu peça coisas.
Essas palavras ficaram a ecoar na minha cabeça durante dias. Falei com o meu marido, o António, mas ele, homem de outra geração, encolheu os ombros. — Não te metas, Zélia. Cada mãe sabe dos seus filhos.
Mas será mesmo assim? Será que cada mãe sabe? Ou será que, às vezes, o amor cega-nos ao ponto de não vermos o sofrimento de quem mais devíamos proteger?
A situação agravou-se quando a Sofia começou a ter más notas na escola. A professora ligou-me, preocupada. — Dona Zélia, a Sofia está muito distraída, parece triste. Já tentou falar com a mãe, mas não obtive resposta.
Fui buscar a Sofia à escola nesse dia. No carro, ela ficou em silêncio, a olhar pela janela. Quando chegámos a minha casa, sentei-me ao lado dela no sofá.
— Sofia, o que se passa, meu amor?
Ela encolheu os ombros, os olhos cheios de lágrimas que se recusavam a cair. — A mãe só gosta do Tomás. Eu tento ser boa, mas nunca é suficiente.
O meu coração partiu-se naquele momento. Abracei-a com força, prometendo a mim mesma que não a deixaria sozinha.
Tentei falar com a Emília mais uma vez. Esperei por ela à porta de casa, numa tarde fria de novembro. Quando chegou, cansada do trabalho, olhou para mim com desconfiança.
— Outra vez, mãe? Já te disse, a Sofia está bem. Só precisa de crescer.
— Não, Emília. Ela precisa de ti. Precisa de sentir que a amas tanto quanto amas o Tomás. Não vês que ela está a desaparecer?
Ela suspirou, exasperada. — Tu nunca percebeste o que é ser mãe de dois. O Tomás é mais frágil, precisa de mais atenção. A Sofia é forte, aguenta-se.
— Mas até quando? — perguntei, sentindo as lágrimas a ameaçarem cair.
A Emília não respondeu. Entrou em casa e fechou a porta, deixando-me do lado de fora, com o coração apertado e a alma em pedaços.
Os dias foram passando, e a Sofia foi ficando cada vez mais distante. Começou a ter pesadelos, a acordar a chorar. Uma noite, ligou-me a chorar, a pedir para ir dormir a minha casa. Fui buscá-la sem hesitar. Quando chegou, abraçou-me com tanta força que quase me tirou o ar.
— Avó, posso ficar contigo para sempre?
O António ouviu o pedido e olhou para mim, preocupado. — Zélia, não podemos simplesmente ficar com a miúda. A Emília nunca nos perdoaria.
Mas como podia eu devolver aquela menina à solidão, ao silêncio, à sombra do irmão? Passei a noite em claro, a ouvir a respiração pesada da Sofia, a pensar em tudo o que podia fazer. No dia seguinte, liguei à Emília.
— Emília, precisamos de falar. A Sofia não pode continuar assim. Ela precisa de ajuda, precisa de ti.
Do outro lado, ouvi apenas silêncio. Depois, uma voz fria e distante. — Se achas que és melhor mãe do que eu, fica com ela. Eu já não sei o que fazer.
Desligou. Fiquei ali, com o telefone na mão, a sentir o peso daquela decisão a cair sobre mim como uma pedra. O António tentou consolar-me, mas eu sabia que nada seria igual a partir daquele momento.
Durante semanas, a Sofia ficou connosco. Aos poucos, foi recuperando o sorriso, começou a ler os livros que tanto gostava, a brincar no jardim. Mas sempre que ouvia o telefone tocar, ficava tensa, com medo que a mãe viesse buscá-la.
A Emília não ligou, não apareceu. O Tomás, segundo soube pela vizinha, continuava a ser o centro do mundo da mãe. Senti raiva, tristeza, culpa. Onde é que falhei como mãe, para que a minha filha se tornasse tão cega ao sofrimento da própria filha?
Uma tarde, a Sofia sentou-se ao meu lado, com um desenho na mão. Era ela, eu e o António, de mãos dadas, com um sol enorme a brilhar por cima de nós.
— Avó, aqui sou feliz. Aqui sinto-me amada.
Chorei, sem vergonha. Abracei-a, prometendo que faria tudo para a proteger. Mas no fundo, sabia que não podia substituir a mãe. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de enfrentar a Emília, de tentar reconstruir aquela família partida.
Procurei ajuda. Falei com uma psicóloga, que me aconselhou a tentar uma mediação familiar. Convidei a Emília para vir cá a casa, para conversarmos com alguém imparcial. Ela veio, relutante, com o Tomás pela mão.
A sessão foi dura. A Emília chorou, gritou, acusou-me de a julgar, de querer roubar-lhe a filha. Eu tentei explicar-lhe que só queria ajudar, que a Sofia precisava dela. O Tomás, alheio a tudo, brincava no tapete.
No final, a psicóloga disse algo que nunca esquecerei: — O amor de mãe não se mede pelo que damos a um filho, mas pelo que não negamos ao outro.
A Emília ficou em silêncio. Olhou para a Sofia, que a observava com olhos cheios de esperança e medo. Não sei o que passou pela cabeça da minha filha naquele momento, mas vi, pela primeira vez em anos, uma centelha de dúvida, de dor, de amor.
Agora, semanas depois, a Sofia continua connosco, mas a Emília começa a visitá-la, a tentar reconstruir a relação. Não sei se algum dia conseguiremos sarar todas as feridas, mas sei que fiz o que tinha de ser feito.
Às vezes, sento-me à janela, a ver a Sofia a brincar no jardim, e pergunto-me: será que tomei a decisão certa? Será que, ao proteger a minha neta, destruí a relação com a minha filha? Ou será que, finalmente, abri uma porta para que todas possamos ser felizes?
E vocês, o que fariam no meu lugar? Até onde iriam para salvar uma criança do silêncio e da sombra?