“A minha cunhada ficou com tudo, e a nós restou o silêncio” – A história de uma herança familiar
— Não percebo, mãe. Como é que podes fazer isto? — A voz do Rui tremia, mas era firme. Eu estava sentada ao lado dele, as mãos frias e suadas, o coração a bater tão alto que quase abafava as palavras da minha sogra.
Ela olhou-nos com aquele ar resignado, como se já tivesse ensaiado tudo mil vezes. — Filhos, não é fácil para mim. Mas a Ana sempre esteve mais perto de nós. Sempre ajudou mais…
Senti uma pontada no peito. A Ana, a minha cunhada, sentada do outro lado da mesa, olhava para as unhas, fingindo não ouvir. O meu sogro mantinha-se calado, como sempre, escondido atrás do jornal.
Naquele momento, percebi que tudo o que tínhamos vivido juntos — os natais apertados na sala pequena, as tardes de domingo a jogar cartas, as conversas à volta do fogão — não tinham significado nenhum para eles. A casa onde o Rui crescera, onde eu própria aprendera a sentir-me parte daquela família, ia ser passada para a Ana. E nós? Ficávamos com o silêncio.
A notícia caiu como uma bomba. O Rui levantou-se abruptamente, quase derrubando a cadeira. — Então é isso? Uma vida inteira de trabalho do pai e da mãe… e nós não contamos?
A minha sogra suspirou. — Não é isso, filho. Mas tu tens a tua vida feita em Lisboa. A Ana ficou sempre aqui em Setúbal connosco. Achámos que era o mais justo.
Justo? O Rui olhou-me, procurando apoio nos meus olhos. Mas eu estava vazia. Não sabia o que dizer. Por dentro gritava: “E todas as vezes que viemos ajudar? E as férias que passámos aqui só para não deixá-los sozinhos? E o dinheiro emprestado quando o negócio do sogro quase faliu?” Mas não disse nada. Fiquei ali, imóvel, sentindo-me pequena.
A Ana levantou-se devagar e pousou a mão no ombro da mãe. — Não vale a pena discutir mais. Já está decidido.
O Rui saiu da sala sem olhar para trás. Fui atrás dele, mas ele já estava no quintal, a chutar pedras com raiva.
— Isto não é justo! — gritou ele, com os olhos marejados. — Sempre fiz tudo por eles… E agora isto?
Abracei-o, mas senti-o distante. Pela primeira vez em anos de casamento, havia algo entre nós que eu não conseguia alcançar.
Os dias seguintes foram um tormento. O Rui mal falava comigo. Chegava tarde do trabalho e jantava em silêncio. Eu tentava puxar conversa:
— Queres falar sobre isso?
Ele abanava a cabeça e ligava a televisão.
A minha filha, Mariana, percebeu logo que algo estava errado. Uma noite, entrou no nosso quarto e sentou-se na cama.
— Mãe… o pai está zangado contigo?
Sorri-lhe com tristeza. — Não, querida. Só está triste com a avó e a tia Ana.
Ela ficou calada um instante e depois perguntou:
— Vamos deixar de ir à casa da avó?
Não soube responder-lhe.
No domingo seguinte, fomos almoçar à casa dos meus sogros como sempre fazíamos. O ambiente estava gelado. A Ana fazia questão de mostrar que já era “dona da casa”: dava ordens à empregada, mudava os móveis de sítio, falava alto sobre as obras que queria fazer.
O Rui mal tocou na comida. O meu sogro tentou puxar conversa sobre futebol, mas ninguém lhe respondeu.
Depois do almoço, fui ajudar a arrumar a cozinha. A Ana entrou atrás de mim e fechou a porta.
— Olha, Rita… sei que estás chateada. Mas isto é melhor assim. Tu e o Rui têm uma vida boa em Lisboa. Eu fiquei aqui por eles…
Virei-me para ela, sentindo o sangue ferver-me nas veias.
— Ficaste porque nunca quiseste sair da asa dos pais! Sempre foste a preferida! Nós também ajudámos quando foi preciso!
Ela encolheu os ombros.
— Não fui eu que decidi…
— Mas também não fizeste nada para impedir!
Ela saiu da cozinha sem dizer mais nada.
Quando voltámos para casa nesse dia, o Rui explodiu finalmente:
— Não aguento mais isto! Sinto-me traído pela minha própria família!
Tentei acalmá-lo:
— Amor… é só uma casa…
Ele olhou-me como se eu tivesse dito a maior heresia do mundo.
— Não é só uma casa! É tudo o que fomos juntos! É a minha infância! É o respeito dos meus pais!
Ficámos em silêncio muito tempo depois disso.
As semanas passaram e as feridas não sararam. O Rui começou a beber mais do que devia. Chegava tarde e evitava-me. Eu sentia-me sozinha naquela casa grande demais para dois adultos e uma criança.
Uma noite, depois de ouvir o Rui chegar cambaleante às três da manhã, sentei-me na cama e chorei baixinho para não acordar a Mariana.
No trabalho também já não era a mesma coisa. Os colegas perguntavam se estava tudo bem; eu sorria e dizia que sim. Mas por dentro sentia-me vazia.
Um dia recebi uma mensagem da minha sogra: “Podemos falar?”
Encontrei-me com ela num café discreto perto do mercado.
Ela parecia envelhecida dez anos desde aquela conversa fatídica.
— Rita… sei que estás magoada comigo. Mas acredita: fiz o que achei melhor para todos.
Olhei-a nos olhos.
— Melhor para quem? Para mim não foi… nem para o Rui.
Ela baixou os olhos.
— O teu sogro está muito doente… Não quisemos preocupar-vos antes…
Senti um aperto no peito.
— O quê?
— Cancro no pulmão… Já está avançado.
Fiquei sem palavras.
— Por isso quisemos garantir que alguém ficava aqui com ele… A Ana prometeu cuidar dele até ao fim…
Saí dali confusa e triste. Quando contei ao Rui sobre o pai dele, ele chorou como nunca o tinha visto chorar antes.
Nos meses seguintes, voltámos mais vezes a Setúbal. O ambiente continuava tenso, mas agora havia uma urgência diferente: cada visita podia ser a última.
O meu sogro morreu numa manhã fria de fevereiro. No funeral, toda a família estava presente — até primos distantes vieram de longe para prestar homenagem ao homem calado que sempre pôs os outros à frente de si próprio.
Depois disso, as coisas mudaram devagarinho. A Ana continuou na casa dos pais; nós voltámos à nossa rotina em Lisboa. O Rui nunca mais foi o mesmo: tornou-se mais fechado, mais desconfiado das pessoas à sua volta.
A relação entre nós ficou marcada por silêncios e mágoas não ditas. Às vezes pergunto-me se alguma vez voltaremos a ser como antes — ou se esta ferida ficará aberta para sempre.
Agora olho para trás e penso: valeu a pena tanto esforço? Tanta dedicação à família dele? Ou será que no fim das contas só conta mesmo quem fica mais perto?
E vocês? Já sentiram que todo o vosso amor e trabalho foram ignorados por quem mais deviam valorizar-vos? O que fariam no meu lugar?