Viver à Sombra de um Tirano – A História de uma Nora Portuguesa

— Ana, não mexas nisso! — gritou o meu sogro da porta da cozinha, a voz cortante como uma faca afiada. Eu já tremia antes mesmo de o ver entrar. O cheiro do café queimado misturava-se ao suor frio nas minhas mãos. — Já te disse mil vezes que o fogão é meu! — insistiu ele, os olhos cravados em mim como se eu fosse uma intrusa na minha própria casa.

A verdade é que aquela casa nunca foi minha. Nem do Rui, meu marido. Era do senhor António, o pai dele, que nos acolheu — ou melhor, nos tolerou — quando perdemos o nosso pequeno apartamento em Almada. O Rui tinha sido despedido da fábrica e eu, com o contrato a prazo terminado na loja de roupa, não consegui arranjar nada melhor do que uns biscates de limpeza. O dinheiro não chegava para pagar renda e contas. “Vão para casa do meu pai”, sugeriu a mãe do Rui, antes de partir para o Algarve com o novo namorado. E assim começou o nosso exílio.

No início, tentei convencer-me de que era temporário. “Só até arranjarmos trabalho”, repetia ao espelho todas as manhãs, enquanto penteava o cabelo e escondia as olheiras com um pouco de pó barato. Mas os dias transformaram-se em semanas, as semanas em meses. E cada dia era mais difícil do que o anterior.

O senhor António era daqueles homens que acham que tudo lhes pertence: a casa, os filhos, as decisões, até o ar que se respira. Tinha sido ferroviário toda a vida, daqueles duros, que nunca sorriem e falam alto para se fazerem ouvir acima do barulho dos comboios. A mulher dele morreu cedo — dizem que de tristeza — e ele ficou sozinho com o Rui e a irmã dele, a Teresa. Esta fugiu para França assim que pôde. Eu não percebia porquê… até viver ali.

— Não sabes fazer nada direito! — atirava ele sempre que eu tentava ajudar na cozinha ou limpar a sala. — A tua mãe não te ensinou nada? — perguntava, com aquele tom venenoso que me fazia sentir uma criança inútil.

O Rui tentava defender-me, mas era sempre em surdina, à noite, quando já estávamos fechados no nosso quarto minúsculo. — Tem paciência, Ana… Ele é assim com toda a gente — murmurava ele, abraçando-me com força. Mas eu sentia-me cada vez mais sozinha.

A humilhação tornou-se rotina: os olhares de desdém à mesa do jantar, as críticas constantes ao meu arroz (“parece papa!”), as portas batidas sempre que eu ria mais alto. Até as minhas roupas eram alvo de comentários: “Vais sair assim? Pareces uma cigana!”

Certa noite, depois de mais uma discussão sobre quem devia lavar a loiça (“Aqui em casa mando eu!”), tranquei-me na casa de banho e chorei até não ter mais lágrimas. Lembrei-me da minha mãe, lá em Viseu, sempre tão doce e paciente. Queria ligar-lhe, mas não queria preocupá-la. “Aguenta só mais um pouco”, dizia-me a voz dela na memória.

Os dias eram todos iguais: acordar cedo para evitar cruzar-me com o senhor António no corredor; limpar tudo duas vezes para evitar críticas; cozinhar só quando ele não estava; fingir que estava tudo bem quando falava com a minha mãe ao telefone.

Mas havia momentos em que não conseguia esconder o desespero. Uma tarde, enquanto limpava o pó da sala, ouvi o Rui e o pai a discutir na cozinha:

— Pai, tens de parar com isso! A Ana está a fazer tudo para ajudar! — dizia o Rui, a voz trémula.
— Não me venhas ensinar como se manda numa casa! — respondeu o senhor António, batendo com a mão na mesa.
— Não é assim que se trata uma pessoa!
— Se não gostas, vão-se embora!

Fiquei ali parada, com o pano na mão e o coração aos saltos. Sabia que não tínhamos para onde ir. O Rui entrou na sala pouco depois, os olhos vermelhos.

— Desculpa… — murmurou ele. — Eu vou tentar arranjar outro trabalho.

As noites tornaram-se mais longas e frias. O Rui começou a chegar cada vez mais tarde — dizia que era por causa das entrevistas de emprego, mas eu sabia que era para evitar o pai. Eu própria comecei a passar mais tempo na rua: ia ao supermercado devagarinho, dava voltas pelo bairro só para respirar um pouco de liberdade.

Um dia encontrei a dona Lurdes no café da esquina. Era uma senhora idosa, vizinha antiga do senhor António.

— Então menina Ana, está tudo bem? — perguntou ela, olhando-me nos olhos.
— Está… Está tudo como sempre — respondi, tentando sorrir.
Ela pousou a mão enrugada no meu braço.
— Não deixe que ele lhe roube a alegria… Eu conheço bem esse feitio dele. A mulher dele sofreu muito.

Voltei para casa com aquelas palavras a ecoar-me na cabeça: “Não deixe que ele lhe roube a alegria”. Mas como é que se faz isso quando todos os dias somos esmagados?

O tempo foi passando e comecei a sentir-me invisível. Até os meus sonhos mudaram: já não sonhava com viagens ou festas; sonhava apenas com silêncio e paz.

Uma tarde de domingo, enquanto limpava o quintal (porque “as mulheres é que tratam destas coisas”, segundo ele), ouvi vozes altas vindas da cozinha:

— Já chega! — gritou o Rui. — Não aguento mais ver-te tratar assim a Ana!
— Cala-te! Nesta casa mando eu! — berrou o senhor António.
— Pois então ficamos por aqui!

O Rui saiu disparado pela porta das traseiras e veio ter comigo ao quintal. Agarrou-me pela mão:

— Vamos embora agora mesmo! Nem que seja para dormir no carro!

O coração batia-me tão forte que pensei que ia desmaiar. Mas naquele momento percebi: preferia dormir num carro do que continuar ali.

Arrumámos as poucas coisas que tínhamos num saco velho e saímos sem olhar para trás. O senhor António ficou à porta, a gritar impropérios:

— Ingratos! Vocês são uns ingratos!

Naquela noite dormimos no carro do Rui, estacionado junto ao rio Tejo. O banco era duro e fazia frio, mas senti-me livre pela primeira vez em meses.

No dia seguinte liguei à minha mãe e contei-lhe tudo. Ela chorou ao telefone e disse-nos para irmos para Viseu até arranjarmos trabalho. Foi isso que fizemos.

Hoje escrevo esta história da casa pequena mas acolhedora da minha mãe. O Rui encontrou trabalho numa oficina local e eu voltei à loja onde trabalhei em adolescente. Não é fácil recomeçar do zero, mas pelo menos já não vivo à sombra de um tirano.

Às vezes pergunto-me quantas mulheres ainda vivem assim: caladas, humilhadas, presas numa casa onde não têm voz nem vez. Quantas Anas há espalhadas por Portugal? E até quando vamos aceitar viver à sombra dos outros? E vocês… já sentiram essa sombra nas vossas vidas?