“Tens um mês para saírem da minha casa!” – O dia em que a minha sogra destruiu o nosso lar

“Tens um mês para saírem da minha casa!” — A voz da Dona Teresa ecoou pelo corredor, cortando o silêncio da noite como uma faca afiada. Eu estava na cozinha, a arrumar a loiça do jantar, quando ouvi aquelas palavras. O Rui, meu marido, ficou estático à porta, com o olhar perdido entre a mãe e eu. O prato escorregou-me das mãos e partiu-se no chão.

“Mas mãe… não podes estar a falar a sério”, balbuciou o Rui, tentando controlar a voz trémula.

“Estou farta! Já chega de viverem aqui às minhas custas. Tens trinta e quatro anos, Rui! A Andreia também já não é nenhuma menina. Ou arranjam maneira de se sustentarem ou vão para a rua!”

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Senti o sangue fugir-me do rosto. O meu coração batia tão forte que pensei que todos à volta o podiam ouvir. Tentei falar, mas as palavras ficaram presas na garganta.

A verdade é que nunca quis viver com a minha sogra. Quando eu e o Rui nos casámos, há dois anos, tínhamos planos de alugar um T2 em Almada, mas ele perdeu o emprego pouco depois do casamento. Eu trabalhava numa loja de roupa no Fórum Almada, mas o ordenado mal dava para as contas básicas. A Dona Teresa ofereceu-nos um quarto na casa dela, “até as coisas melhorarem”. Achei que seria temporário. Dois anos depois, ainda estávamos ali.

A relação com a minha sogra sempre foi tensa. Ela era daquelas mulheres que acham que sabem tudo sobre tudo — e fazia questão de me lembrar disso todos os dias. “Andreia, não sabes cozinhar arroz?”, “Andreia, devias vestir-te melhor”, “Andreia, devias pensar em ter filhos antes que seja tarde demais”. Aguentei tudo em silêncio por amor ao Rui. Mas naquela noite, percebi que tinha chegado ao limite.

O Rui tentou argumentar:

“Mãe, sabes que estou à procura de trabalho. Não é fácil… E a Andreia também faz o que pode.”

“Pois faz…”, interrompeu ela com desdém. “Mas não chega! Eu já dei tudo o que tinha para dar. Agora desenrasquem-se!”

Fui para o nosso quarto e fechei a porta com força. Sentei-me na cama e desatei a chorar. O Rui entrou pouco depois e sentou-se ao meu lado.

“Desculpa…”, murmurou ele, passando-me a mão pelos cabelos.

“Desculpa porquê? Não foste tu que disseste aquilo.”

“Mas fui eu que te trouxe para esta situação.”

Ficámos ali calados durante muito tempo. Eu pensava em tudo o que tínhamos sacrificado para ficarmos juntos — os meus pais nunca aceitaram bem o Rui, diziam que ele era um sonhador sem rumo. E agora estava ali, sem chão, sem saber para onde ir.

No dia seguinte, tentei falar com a Dona Teresa. Queria pedir-lhe mais tempo, explicar-lhe que estávamos mesmo a tentar sair dali.

“Dona Teresa… podemos conversar?”

Ela nem me olhou nos olhos.

“Não há nada para conversar, Andreia. Já tomei a minha decisão.”

Senti-me humilhada. Passei os dias seguintes num estado de ansiedade constante. O Rui andava cabisbaixo, quase não falava comigo. As discussões entre ele e a mãe tornaram-se diárias. Uma noite ouvi-os aos gritos na sala:

“Tu nunca acreditaste em mim!”, gritava o Rui.

“Porque nunca me deste razões para acreditar!”, respondeu ela.

Eu sabia que aquilo não era só sobre dinheiro ou espaço — era sobre orgulho ferido, sobre expectativas desfeitas.

Começámos a procurar casas para alugar, mas os preços eram absurdos. Um T1 minúsculo em Cacilhas custava mais do que os dois ordenados juntos (se o Rui tivesse emprego). Fui pedir ajuda à minha mãe, mas ela limitou-se a dizer:

“Eu avisei-te, Andreia. Agora desenrasca-te.”

Senti-me sozinha como nunca antes. O Rui começou a passar mais tempo fora de casa, dizia que ia entregar currículos mas eu sabia que ele estava perdido. Uma noite chegou tarde e cheirava a álcool.

“Foste beber?”, perguntei.

“Preciso de espairecer! Não aguento mais esta pressão!”

Discutimos até às tantas. Acusei-o de ser fraco, ele acusou-me de não compreender o peso que carregava. No fundo, ambos estávamos exaustos e assustados.

Os dias passaram depressa demais. Faltavam duas semanas para termos de sair e ainda não tínhamos solução. Uma noite, enquanto arrumava as nossas coisas em caixas de cartão roubadas do supermercado, encontrei uma carta antiga do Rui para mim, escrita quando ainda namorávamos:

“Prometo proteger-te sempre e construir contigo um lar onde possas ser feliz.”

Chorei em silêncio. Onde estava esse lar agora?

Na última semana antes do prazo acabar, o Rui conseguiu finalmente um trabalho numa empresa de mudanças — nada do que sonhara para si próprio, mas era um começo. Encontrámos um quarto para alugar numa casa partilhada com outros dois casais em Almada Velha. Não era ideal — tínhamos de partilhar cozinha e casa de banho — mas era melhor do que nada.

No dia da mudança, a Dona Teresa nem apareceu para se despedir. Senti uma mistura de alívio e tristeza — afinal de contas, aquela casa tinha sido o nosso refúgio (mesmo que envenenado) durante dois anos.

A primeira noite na nova casa foi estranha. Ouvíamos os outros casais a discutir no corredor, alguém cozinhava bacalhau às onze da noite e o cheiro entrava pelo nosso quarto adentro. Mas pela primeira vez em muito tempo senti esperança.

O Rui abraçou-me:

“Desculpa por tudo isto.”

“Não tens de pedir desculpa”, respondi. “Só quero que sejamos nós contra o mundo.”

Com o tempo fomos reconstruindo a nossa vida — devagarinho, com muitos tropeços pelo caminho. O Rui acabou por gostar do trabalho e eu consegui um emprego melhor numa loja maior no centro de Lisboa. Começámos a juntar dinheiro para um dia termos o nosso próprio espaço.

Às vezes penso na Dona Teresa — será que ela sente falta do filho? Será que se arrepende? Nunca mais falámos desde aquele dia.

O que é afinal uma família? É sangue? É apoio incondicional? Ou será apenas uma ilusão confortável até ao dia em que deixamos de servir?

E vocês? Já sentiram que o vosso porto seguro afinal era feito de areia?