“Se Me Amas, Larga o Trabalho!” – O Meu Grito Entre a Família e a Liberdade
— Marta, não aguento mais! — O Rui atirou as palavras como quem atira pratos à parede. — Ou escolhes o teu trabalho ou escolhes esta família!
Fiquei ali, parada na cozinha, com as mãos ainda molhadas de lavar a loiça, o cheiro do arroz queimado a pairar no ar. Oiço a Leonor chorar no quarto, o Tomás a bater com os carrinhos na parede da sala. E eu, no meio, sem saber se devia gritar, chorar ou simplesmente desaparecer.
“Como é que chegámos aqui?”, pensei. Quando casei com o Rui, éramos dois miúdos apaixonados, sonhadores. Ele queria ser engenheiro civil, eu queria mudar o mundo como assistente social. Ríamos dos nossos pais, das suas discussões sobre contas e horários. Jurámos nunca ser assim.
Mas a vida não é feita de juras. É feita de contas para pagar, de noites mal dormidas, de filhos doentes e chefes exigentes. Quando a Leonor nasceu, tentei ficar em casa uns meses. Mas sentia-me incompleta. O trabalho era mais do que um salário: era o meu espaço, o meu propósito. O Rui dizia que compreendia, mas cada vez que chegava tarde do serviço social, via-lhe nos olhos o cansaço e a mágoa.
— Não percebes que os miúdos precisam de ti? — repetia ele.
— E tu? Não precisas de mim? — respondia eu, quase sempre num sussurro.
A verdade é que ambos precisávamos um do outro, mas já não sabíamos como pedir ajuda sem magoar. A minha mãe dizia-me para ter paciência: “Os homens são assim, filha. Trabalham muito, mas querem a mulher em casa.” O meu pai olhava para mim com pena e orgulho misturados: “Fizeste bem em estudar, Marta. Mas não deixes que te roubem de ti.”
Naquela noite do ultimato, sentei-me no chão da cozinha depois de o Rui sair porta fora. Chorei baixinho para não acordar as crianças. Lembrei-me da primeira vez que fui chamada para uma emergência: uma menina de oito anos, sozinha em casa, com fome. Lembrei-me do olhar dela quando lhe dei um pacote de bolachas. Era por isso que eu trabalhava.
No dia seguinte, tentei falar com o Rui antes dele sair para o trabalho.
— Rui, precisamos conversar.
Ele nem olhou para mim.
— Não tenho tempo para conversas. Já sabes o que penso.
Fiquei ali parada, com um nó na garganta. Liguei à minha irmã, a Sofia.
— Marta, tu tens direito à tua vida — disse ela. — Mas também tens uma família. Vais ter de escolher.
— E se eu não quiser escolher? — perguntei-lhe.
Ela suspirou.
— Então vais perder os dois lados.
Durante dias vivi num limbo. No trabalho fingia que estava tudo bem; em casa fingia que não estava a desmoronar por dentro. O Tomás começou a fazer birras na escola. A Leonor acordava todas as noites a chamar por mim. O Rui chegava cada vez mais tarde e mal me falava.
Uma noite, depois de deitar os miúdos, sentei-me no sofá com ele.
— Rui, eu amo-te. Amo os nossos filhos. Mas também amo aquilo que faço. Não posso ser só mãe e mulher. Preciso de ser eu.
Ele olhou-me com olhos vermelhos de cansaço.
— E eu? Eu também preciso de ti aqui. Sinto-me sozinho nesta casa cheia de gente.
— Não podemos encontrar um meio-termo? — supliquei.
Ele abanou a cabeça.
— Eu já tentei, Marta. Mas tu estás sempre cansada, sempre ausente. Não é isto que quero para nós.
Senti-me esmagada pelo peso das expectativas dele e das minhas próprias ambições. Lembrei-me da minha infância: a minha mãe sempre em casa, sempre disponível… mas tão triste nos olhos. Eu prometera nunca ser assim.
Na semana seguinte, fui chamada à escola do Tomás. A professora disse-me:
— O Tomás anda muito ansioso. Diz que tem medo que a mãe desapareça.
Saí da escola com lágrimas nos olhos. Será que estava mesmo a falhar como mãe? Liguei ao meu chefe e pedi uns dias de férias.
Em casa, tentei estar mais presente: fiz bolos com as crianças, levei-os ao parque, li histórias até adormecerem. O Rui parecia mais calmo, mas havia sempre um silêncio entre nós, como uma parede invisível.
Numa dessas noites, sentei-me sozinha na varanda e liguei à minha amiga Inês.
— Inês, sinto-me perdida. Se largo o trabalho, perco quem sou. Se fico em casa, talvez salve o meu casamento… mas e eu?
Ela respondeu:
— Marta, ninguém te pode dizer o que fazer. Mas lembra-te: os teus filhos precisam de uma mãe feliz, não perfeita.
Essas palavras ficaram comigo dias inteiros. Comecei a pensar: será que podia trabalhar menos horas? Será que podia pedir ao Rui para partilhar mais as tarefas? Ou será que estávamos apenas a adiar o inevitável?
Na sexta-feira à noite, preparei um jantar especial. Sentei-me à mesa com o Rui depois das crianças irem dormir.
— Rui… precisamos decidir juntos o nosso futuro. Eu não quero perder-te nem perder-me a mim própria.
Ele ficou calado muito tempo.
— Tenho medo — confessou finalmente. — Medo de te perder para o mundo lá fora… Medo de ficar sozinho nesta casa.
Aproximei-me dele e peguei-lhe na mão.
— Também tenho medo… Mas se me obrigares a escolher entre ti e quem sou… talvez acabes por perder-me mesmo assim.
Chorámos juntos nessa noite pela primeira vez em anos. Decidimos procurar ajuda: fomos falar com uma terapeuta familiar. Foi duro ouvir verdades sobre nós próprios — sobre as nossas expectativas irrealistas e os nossos medos escondidos.
Com o tempo, aprendemos a negociar: comecei a trabalhar menos horas; o Rui passou a buscar as crianças à escola duas vezes por semana; dividimos tarefas; aprendemos a falar sem gritar; aprendemos a ouvir sem julgar.
Não foi fácil nem perfeito — ainda hoje há dias em que me sinto esgotada ou em que discutimos por coisas pequenas. Mas sinto que voltei a encontrar um bocadinho de mim mesma sem perder tudo o resto.
Agora olho para trás e pergunto-me: quantas mulheres vivem esta luta em silêncio? Quantas Martas há por aí presas entre o amor pelos outros e o amor-próprio? E vocês… já sentiram este aperto no peito? Como encontraram o vosso equilíbrio?