Papel sem Saída – A História de uma Mulher Portuguesa no Cárcere Familiar
— Não, mãe, não vou levar o arroz de pato para o jantar de domingo. — A minha voz tremia, mas tentei soar firme. Do outro lado da linha, a minha mãe suspirou alto, como se eu tivesse acabado de cometer um crime.
— Filha, sabes bem que a tua sogra espera sempre que tragas alguma coisa. Não podes fazer desfeita à família do Rui. — O nome do meu marido soou como uma sentença.
Desliguei o telefone com as mãos a suar. O relógio marcava 18h12 e eu ainda nem tinha começado a preparar o jantar para o Rui e para os miúdos. O cheiro do detergente misturava-se com o do frango assado que ainda estava no forno. Senti-me pequena, esmagada entre as paredes da cozinha, entre as vozes da minha mãe e da minha sogra, entre as expectativas de todos menos as minhas.
Quando casei com o Rui, há dez anos, pensei que estava a entrar numa nova fase da vida, cheia de promessas e sonhos. Ele era carismático, trabalhador, vinha de uma família tradicional de Coimbra. Os pais dele eram respeitados na cidade, donos de uma pequena empresa de construção civil. A minha mãe sempre disse que eu tinha sorte em ter encontrado um homem assim, “de família boa”. Mas ninguém me avisou que casar com o Rui era casar com toda a família dele — e com todas as regras não escritas que vinham no pacote.
No início, tentei agradar. Fazia questão de ir aos almoços de domingo, levava sobremesas caseiras, ajudava a sogra na cozinha enquanto ela me olhava de cima a baixo, avaliando cada gesto. O Rui sorria, orgulhoso, e dizia: — Vês? A minha mulher é uma senhora.
Mas os sorrisos foram-se tornando mais raros. As exigências aumentaram. Se os miúdos estavam constipados, era porque eu não os vestia bem. Se o Rui chegava cansado do trabalho, era porque eu não sabia gerir a casa. Se a empresa da família tinha problemas, era porque eu não dava sorte. Tudo recaía sobre mim.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre um jantar em casa dos sogros — “Não podes faltar, toda a gente vai reparar” — sentei-me no chão da casa de banho e chorei em silêncio. O Rui bateu à porta:
— Estás bem? — perguntou, sem realmente querer saber.
— Estou só cansada — menti.
Ele não insistiu. Nunca insistia.
Os anos passaram e fui-me apagando devagarinho. Deixei de sair com as minhas amigas porque “não ficava bem uma mulher casada andar por aí”. Deixei de pintar as unhas porque a sogra dizia que era “coisa de quem não tem mais nada para fazer”. Deixei até de ouvir música alta em casa porque o Rui gostava de silêncio ao chegar do trabalho.
A minha filha mais velha, a Matilde, começou a perguntar porque é que eu nunca sorria nas fotografias. O meu filho mais novo, o Tomás, desenhava sempre a mãe com um avental e um ar triste. Olhei para mim ao espelho e já não me reconhecia.
Um dia, durante um almoço de família, a sogra comentou:
— A nossa Ana está cada vez mais magra. Não sei se é dos nervos ou se é porque não sabe cozinhar como deve ser.
Todos riram. Eu sorri por fora e morri por dentro.
O Rui nunca me defendeu. Limitava-se a olhar para o prato ou mudava de assunto. Quando lhe pedia apoio, respondia:
— Não ligues, são coisas de família. Não vale a pena criar confusões.
Mas eu sentia-me sozinha no meio daquela multidão de parentes e opiniões. Comecei a ter insónias. À noite, olhava para o teto e pensava: “É isto a vida que eu escolhi? Ou foi a vida que escolheram por mim?”
A minha mãe dizia sempre:
— Aguenta, filha. Todas as mulheres passam por isso. O casamento é assim mesmo.
Mas eu já não queria aguentar. Queria respirar.
Um dia, depois de deixar os miúdos na escola, sentei-me num banco do Jardim da Sereia e chorei como há muito tempo não chorava. Uma senhora idosa sentou-se ao meu lado e perguntou:
— Está tudo bem consigo?
Olhei para ela e respondi:
— Sinto-me presa numa vida que não é minha.
Ela sorriu com ternura:
— Às vezes é preciso coragem para abrir a porta da nossa própria prisão.
Essas palavras ficaram comigo durante semanas. Comecei a escrever num caderno escondido na gaveta da roupa interior. Escrevia tudo o que sentia: raiva, tristeza, medo, esperança. Era o meu segredo.
Numa noite chuvosa, depois de mais uma discussão com o Rui — ele acusou-me de ser ingrata por não valorizar tudo o que ele fazia pela família — tomei uma decisão: ia procurar ajuda.
Fui ao centro de apoio à mulher em Coimbra. Falei com uma psicóloga chamada Dona Teresa. Contei-lhe tudo: as pressões familiares, o controlo sufocante, a solidão dentro do casamento.
Ela ouviu-me sem julgar e disse:
— Ana, ninguém tem o direito de lhe roubar a voz nem os sonhos. O primeiro passo é reconhecer que merece ser feliz.
Comecei a ir às sessões todas as semanas. Aos poucos fui recuperando pedaços de mim mesma que julgava perdidos para sempre.
O Rui percebeu que algo mudara em mim. Uma noite perguntou:
— Andas diferente. O que se passa?
Olhei-o nos olhos e respondi:
— Estou cansada desta vida em que só existo para agradar aos outros.
Ele riu-se:
— Lá estás tu com essas ideias modernas…
Mas eu já não era a mesma Ana submissa de antes.
Certo domingo recusei ir ao almoço em casa dos sogros. Fiquei em casa com os miúdos e fizemos panquecas juntos. Rimos tanto que até me esqueci das mágoas por umas horas.
A sogra ligou furiosa:
— Isto é uma vergonha! O que vão pensar os vizinhos?
Desta vez respondi calmamente:
— Vão pensar que estou a cuidar da minha família à minha maneira.
O Rui ficou chateado durante dias. Mas eu sentia-me mais leve.
Aos poucos fui recuperando pequenas liberdades: voltei a sair com amigas para um café; pintei as unhas de vermelho; inscrevi-me num curso online só para mim.
A pressão familiar continuava — olhares reprovadores nos jantares, comentários venenosos ao telefone — mas já não me magoavam tanto como antes.
Hoje escrevo esta história sentada na varanda enquanto vejo os meus filhos brincar no jardim. Ainda estou casada com o Rui — separar-me parece um passo demasiado grande para já — mas já não sou prisioneira das expectativas dos outros.
Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres portuguesas vivem presas neste papel sem saída? Quantas têm medo de abrir a porta da sua própria prisão? Será que algum dia teremos coragem suficiente para sermos verdadeiramente livres?