O Dia em Que Decidi Ficar: Entre Fantasmas do Passado e a Esperança de um Recomeço
— Filha, olha que vamos ter visitas no sábado! — A voz da minha mãe ecoou pelo telefone, carregada daquela ansiedade que só ela sabia transmitir. Senti o estômago dar um nó. Era sempre assim: cada vez que havia um encontro familiar, eu voltava a ser aquela miúda insegura, a tentar adivinhar o que se escondia por trás dos sorrisos forçados e dos olhares de soslaio.
— Quem vem, mãe? — perguntei, tentando soar indiferente.
— O tio António, a prima Joana e… — fez uma pausa, como se ponderasse se devia continuar — …e o teu pai também disse que vinha.
O silêncio caiu pesado entre nós. O meu pai. Não o via há quase três anos, desde aquela discussão em que as palavras foram armas e as portas bateram como sentenças. Senti o coração acelerar. Lembrei-me do cheiro a terra molhada da casa dos meus avós, das tardes em que me escondia no sótão para não ouvir os gritos lá em baixo.
— Filha? Estás aí? — A voz da minha mãe soou distante.
— Estou, mãe. Eu vou. — Disse sem pensar, surpreendendo-me a mim própria. Pela primeira vez, não inventei uma desculpa para faltar.
Passei os dias seguintes num turbilhão de emoções. No trabalho, mal conseguia concentrar-me. Os colegas notaram o meu ar ausente. A Andreia, que partilhava comigo o escritório na Câmara Municipal de Viseu, perguntou-me:
— Está tudo bem contigo? Pareces tão longe…
Sorri-lhe, mas não consegui esconder a verdade:
— Vou voltar à aldeia este fim de semana. A família vai juntar-se… e o meu pai vai estar lá.
Ela pousou a mão no meu braço:
— Vais conseguir. Às vezes é preciso enfrentar os fantasmas para podermos seguir em frente.
Na sexta-feira à noite, fiz a mala devagarinho. Cada peça de roupa parecia pesar toneladas. Levei o livro que a minha avó me dera antes de morrer — “Os Maias”, de Eça de Queirós — como se fosse um talismã contra as dores antigas.
Cheguei à aldeia já era noite. As luzes amarelas dos candeeiros desenhavam sombras longas na rua principal. A casa da minha mãe estava igual: paredes brancas manchadas pelo tempo, janelas de madeira azul celeste, cheiro a lenha queimada no ar.
A minha mãe abriu a porta com um sorriso nervoso:
— Filha! Estás tão magra… Anda cá.
Abraçou-me com força. Senti-lhe as mãos trémulas nas minhas costas.
— Vai correr tudo bem — sussurrei-lhe ao ouvido, sem saber se falava para ela ou para mim.
Na manhã seguinte acordei cedo com o som das galinhas no quintal e o cheiro do café acabado de fazer. A minha mãe já estava na cozinha, de avental posto, a preparar o arroz de pato.
— Precisas de ajuda? — perguntei.
Ela olhou-me surpreendida:
— Se quiseres cortar os legumes… — disse, hesitante.
Ficámos as duas em silêncio durante uns minutos, só o som da faca a bater na tábua e o rádio antigo a tocar fado baixinho.
— Sabes… — começou ela — …o teu pai perguntou por ti ontem ao telefone.
Parei de cortar cenouras.
— E o que disseste?
Ela suspirou:
— Disse-lhe que estavas bem. Que tinhas crescido muito desde a última vez que se viram.
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Cresci porque tive de crescer sozinha, pensei. Mas não disse nada.
Ao meio-dia começaram a chegar os convidados. O tio António entrou primeiro, com o seu chapéu velho e um sorriso aberto:
— Olha a menina da cidade! Já não te via há anos!
A prima Joana veio logo atrás, com os dois filhos pequenos a correrem pela casa como furacões. O ambiente ficou mais leve por uns instantes.
Depois ouvi o portão a ranger. O meu pai entrou devagarinho, como quem teme ser expulso do próprio lar. Trazia uma garrafa de vinho numa mão e um ramo de flores silvestres na outra.
— Olá, filha — disse ele, sem me olhar nos olhos.
Senti um nó na garganta. Quis dizer tanta coisa — perguntar-lhe porque é que foi embora sem olhar para trás, porque é que nunca me ligou nos meus aniversários, porque é que deixou a mãe sozinha com todas as contas e as noites mal dormidas. Mas só consegui murmurar:
— Olá, pai.
O almoço foi uma dança de palavras cuidadosas e silêncios desconfortáveis. O tio António tentava animar a conversa:
— Lembram-se daquele verão em que fomos todos ao Douro? A tua mãe quase caiu ao rio!
Todos riram menos eu e o meu pai. Entre nós havia um muro invisível feito de mágoas antigas.
A certa altura levantei-me para ir buscar mais pão à cozinha. O meu pai seguiu-me sem eu dar por isso.
— Filha… — começou ele, hesitante — …sei que não fui o pai que devias ter tido.
Virei-me devagarinho para ele. Vi-lhe nos olhos uma tristeza funda, quase infantil.
— Porque é que foste embora? — perguntei num sussurro.
Ele baixou a cabeça:
— Porque tinha medo. Medo de falhar contigo e com a tua mãe. Medo de não ser suficiente… E acabei por falhar mesmo assim.
As lágrimas vieram-me aos olhos sem aviso.
— Eu só queria que tivesses tentado — disse-lhe, a voz embargada.
Ele aproximou-se devagarinho e pousou a mão no meu ombro:
— Posso tentar agora?
Ficámos ali parados durante uns segundos eternos. Depois abracei-o pela primeira vez em muitos anos. Senti-lhe o cheiro familiar a tabaco e terra molhada. Não apagou as feridas todas, mas foi um começo.
Voltámos para a mesa em silêncio. A minha mãe olhou-nos com olhos húmidos mas sorridentes. O resto do almoço decorreu com mais leveza; até consegui rir das histórias do tio António e brincar com os primos pequenos no jardim depois da sobremesa.
Quando chegou a hora de ir embora, abracei cada um deles com mais força do que nunca. Antes de entrar no carro, olhei para trás e vi o meu pai acenar-me timidamente da varanda.
No caminho de regresso à cidade pensei em tudo o que tinha acontecido naquele dia: nas palavras ditas e nas que ficaram por dizer; nos silêncios pesados e nos abraços tímidos; na coragem que tive para ficar quando tudo em mim queria fugir.
Agora pergunto-me: quantas vezes deixamos que os fantasmas do passado nos impeçam de viver o presente? E será possível recomeçar mesmo quando tudo parece perdido?