Fuga de Casa: A Minha Luta por um Lugar no Mundo

— Vais mesmo sair assim, sem dizer nada? — A voz da minha sogra ecoou pelo corredor, carregada de desprezo e incredulidade. Eu já tinha a mala feita, as mãos a tremer e o coração a bater tão forte que quase me sufocava. O meu marido, o Rui, estava sentado no sofá, olhos colados ao telemóvel, como se tudo aquilo não lhe dissesse respeito.

— Não aguento mais, Dona Lurdes. Não aguento mais esta casa — respondi, a voz embargada. Senti as lágrimas a quererem saltar, mas engoli-as com a mesma força com que engoli tantas palavras ao longo dos anos.

A verdade é que nunca fui bem-vinda ali. Quando casei com o Rui, pensei que ia construir uma família, mas acabei por ser apenas uma inquilina indesejada na casa da mãe dele. Dona Lurdes fazia questão de me lembrar todos os dias que aquela era a casa dela, que eu era apenas uma forasteira. “Na minha casa faz-se como eu quero”, dizia ela sempre que eu tentava mudar alguma coisa — fosse um quadro na parede ou a marca do detergente.

O Rui? O Rui limitava-se a encolher os ombros. “Deixa lá a minha mãe, sabes como ela é”, dizia-me ele, como se eu tivesse obrigação de aceitar tudo calada. No início tentei agradar-lhe: fazia os pratos preferidos dela, limpava a casa até brilhar, sorria mesmo quando me apetecia gritar. Mas nada era suficiente. Se o arroz estava demasiado solto, era porque eu não sabia cozinhar como deve ser; se estava pegajoso, era porque não tinha jeito nenhum para dona de casa.

As discussões começaram a ser diárias. Pequenas coisas tornavam-se tempestades. Uma toalha fora do sítio, um copo mal lavado. E o Rui sempre ausente — no trabalho ou no telemóvel. Senti-me cada vez mais sozinha, como se estivesse a viver num aquário onde todos me observavam mas ninguém me ouvia.

Lembro-me de uma noite em particular. Tinha acabado de chegar do trabalho — sou assistente administrativa numa clínica em Almada — e só queria tomar um banho e jantar em paz. Mas assim que entrei na cozinha, ouvi Dona Lurdes a resmungar:

— Chegas sempre tarde! Se calhar andas por aí com outros…

— Por amor de Deus, Dona Lurdes! — explodi finalmente. — Trabalho para ajudar nesta casa!

O Rui entrou na cozinha nesse momento, olhou para mim e disse apenas:

— Não grites com a minha mãe.

Foi aí que percebi: estava sozinha naquela casa. Sozinha no casamento. Sozinha na vida.

Durante semanas pensei em sair. Mas para onde? Os meus pais morreram há anos num acidente de carro na A2. Não tenho irmãos. As poucas amigas que tinha foram-se afastando à medida que me fui apagando naquela casa. Senti-me presa numa teia de solidão e culpa.

Mas naquela noite, depois de mais uma discussão sobre o jantar — “Nem para fazer um bacalhau à Brás prestas!” — fechei-me no quarto e comecei a fazer a mala. Cada peça de roupa era uma memória: o vestido azul do nosso primeiro aniversário (que nunca voltámos a celebrar), a camisola que comprei para impressionar Dona Lurdes (que nunca usou), as calças que vesti quando fui promovida (e ninguém em casa deu por isso).

Quando saí do quarto com a mala na mão, Dona Lurdes estava à porta, braços cruzados.

— Vais fugir como uma criança mimada? — cuspiu ela.

O Rui nem levantou os olhos do telemóvel.

— Não fujas das tuas responsabilidades — disse ele, sem emoção.

Senti um nó na garganta tão apertado que mal conseguia respirar.

— A minha única responsabilidade agora sou eu própria — respondi, surpreendendo-me com a firmeza da minha voz.

Saí porta fora sem olhar para trás. O ar frio da noite bateu-me na cara como um choque de realidade. Sentei-me no banco do jardim em frente ao prédio e chorei tudo o que tinha guardado durante anos.

Passei aquela noite num hostel barato em Lisboa. O quarto cheirava a mofo e as paredes eram tão finas que ouvia o ressonar do vizinho do lado. Mas pela primeira vez em muito tempo senti-me livre. Livre e apavorada.

No dia seguinte acordei cedo e fui trabalhar como se nada tivesse acontecido. Ninguém percebeu nada — ninguém nunca percebe nada. Durante o almoço liguei à minha amiga Catarina, a única que ainda me mandava mensagens de vez em quando.

— Marta? Estás bem? — perguntou ela assim que atendeu.

Desatei a chorar outra vez.

— Saí de casa… Não aguentava mais…

A Catarina ouviu-me em silêncio e depois disse:

— Fizeste bem. Vem cá para casa uns dias, até decidires o que fazer.

Fui para casa dela nessa noite. Ela vivia num T1 minúsculo em Benfica, mas fez questão de me dar o quarto dela e dormir no sofá.

— Não tens de te sentir culpada — disse ela enquanto me fazia um chá. — Ninguém merece viver assim.

Mas eu sentia-me culpada. Culpada por abandonar o Rui (mesmo sabendo que ele nunca me defendeu), culpada por deixar Dona Lurdes sozinha (mesmo sabendo que ela nunca gostou de mim), culpada por não conseguir ser aquela mulher forte que sempre admirei nas outras.

Os dias passaram devagar. No trabalho fingia normalidade; à noite chorava baixinho para não acordar a Catarina. Comecei a procurar quartos para alugar, mas tudo era caro demais para o meu ordenado miserável. Pensei em voltar atrás tantas vezes… Mas cada vez que imaginava aquela casa, aquele silêncio pesado, aquela solidão acompanhada… sentia pânico.

Uma noite recebi uma mensagem do Rui: “Quando voltas? A minha mãe está doente por tua causa.” Fiquei horas a olhar para aquelas palavras. Senti raiva — raiva por ele nunca ter perguntado como eu estava, raiva por tudo ser sempre culpa minha.

Respondi apenas: “Preciso de tempo.”

Ele não respondeu mais.

A Catarina arranjou-me um part-time numa loja onde trabalhava ao fim-de-semana para eu conseguir juntar algum dinheiro. Comecei a sentir-me útil outra vez. Pequenas coisas começaram a dar-me esperança: um café sozinha numa esplanada sem medo de ser julgada; uma ida ao cinema; um passeio à beira-rio ao domingo.

Mas havia dias em que tudo parecia desabar outra vez. A culpa vinha como uma onda gigante: “E se nunca mais encontrar alguém? E se acabar sozinha? E se for mesmo tudo culpa minha?”

Numa dessas noites liguei à Dona Lurdes. Queria pedir desculpa — não sei bem porquê.

— Marta? Agora é que te lembras? O Rui está magoado… Eu também não estou bem…

— Sinto muito… Mas eu também não estava bem aí…

Ela ficou em silêncio durante uns segundos longos demais.

— Cada um sabe de si — disse finalmente antes de desligar.

Fiquei ali sentada no escuro do quarto da Catarina, a olhar para o teto e a pensar em tudo o que perdi e tudo o que ainda podia ganhar.

Hoje vivo num quarto alugado em Campo de Ourique. Não é grande coisa, mas é meu — pelo menos enquanto pagar a renda. Ainda falo com a Catarina todos os dias; com o Rui só trocámos mais duas mensagens desde então. Não sei se algum dia vou conseguir perdoar-me completamente ou se algum dia vou deixar de sentir este vazio misturado com alívio.

Às vezes pergunto-me: será possível reconstruir-nos depois de perdermos tudo? Como é que se aprende a viver só connosco próprios depois de tantos anos a viver para os outros?

E vocês? Já sentiram este medo de recomeçar? O que fariam no meu lugar?