Devo entregar a casa ao meu irmão? Uma história de família que partiu o meu coração
— Mariana, precisamos conversar. — A voz da minha mãe, do outro lado da linha, tremia como se cada palavra pesasse toneladas.
Sentei-me no sofá, o coração acelerado. Sabia que algo estava errado. — O que foi, mãe? — perguntei, tentando controlar o medo que já se instalava no peito.
— É sobre o teu irmão, o Ricardo… Ele está a passar por um momento difícil. Perdeu o emprego, a Andreia deixou-o e… — A minha mãe fez uma pausa longa, como se procurasse coragem para continuar. — Ele precisa de um lugar para ficar. Pensei que talvez pudesses… ceder-lhe o apartamento.
O silêncio caiu pesado entre nós. Senti o sangue fugir-me do rosto. O apartamento era o meu refúgio, o único bem que consegui conquistar depois de anos a trabalhar em dois empregos, a abdicar de férias, de fins de semana, de noites de sono. Era ali que me sentia segura, finalmente dona do meu próprio destino.
— Mãe… estás a pedir-me para sair da minha própria casa? — A minha voz saiu mais baixa do que queria, quase um sussurro.
— Não é para sempre, filha. Só até ele se recompor. És a irmã mais velha, sempre foste tão forte…
Lembrei-me de todas as vezes em que ouvi essa frase: “És a irmã mais velha, tens de dar o exemplo.” Quando o Ricardo partiu a janela da vizinha com uma bola, fui eu quem levou a culpa. Quando ele reprovou no 12º ano, fui eu quem ficou noites a fio a ajudá-lo a estudar. Sempre fui eu a sacrificar-me.
— E eu? Quem é que cuida de mim? — perguntei, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
A minha mãe suspirou. — Mariana, por favor… Ele está mesmo mal. Não tem ninguém. Eu e o teu pai não temos espaço cá em casa e sabes como ele é orgulhoso demais para pedir ajuda.
Desliguei o telefone sem dar resposta. Passei a noite em claro, a olhar para o teto do quarto que decorei com tanto carinho. Cada móvel tinha uma história: a mesa da sala comprada em segunda mão no OLX, as cortinas amarelas que costurei com a avó Rosa antes dela partir. Era tudo meu. Pela primeira vez na vida, tinha algo só meu.
No dia seguinte, o Ricardo apareceu à porta sem avisar. Trazia uma mala pequena e os olhos vermelhos.
— Preciso mesmo disto, mana… — disse ele, sem conseguir encarar-me.
Senti raiva e pena ao mesmo tempo. Raiva por sempre ser eu a ceder; pena porque ele era meu irmão e estava claramente perdido.
— Não é justo — murmurei. — Porque é que nunca te pedem para seres forte? Porque é que sou sempre eu?
Ele encolheu os ombros. — Não sei… Desculpa.
Deixei-o entrar. Durante semanas vivemos como estranhos sob o mesmo teto. Ele passava os dias fechado no quarto, eu evitava chegar cedo do trabalho para não ter de enfrentar o silêncio pesado da casa.
Os meus amigos começaram a notar que algo não estava bem.
— Mariana, não podes continuar assim — disse-me a Joana numa noite em que saímos para beber um copo de vinho no bairro Alto. — Tens de pensar em ti também.
Mas como podia? A culpa corroía-me por dentro. Se o expulsasse, estaria a condená-lo? Ou estaria finalmente a cuidar de mim?
Uma noite ouvi-o chorar baixinho no quarto. Sentei-me à porta e ouvi-o desabafar ao telefone com um amigo:
— A Mariana não merece isto… Mas não tenho para onde ir… Sinto-me um falhado.
No dia seguinte, tentei falar com ele.
— Ricardo, precisamos de conversar. Não posso continuar assim. Preciso do meu espaço, preciso de viver também.
Ele olhou-me com olhos cansados. — Eu sei… Vou tentar arranjar alguma coisa.
Mas os dias passaram e nada mudava. A minha mãe ligava todos os dias, perguntava se estava tudo bem, mas nunca perguntava por mim — só por ele.
Um sábado à tarde, durante um almoço de família na casa dos meus pais em Almada, explodi:
— Porque é que ninguém percebe que eu também tenho limites? Que também preciso de ajuda?
O meu pai olhou-me surpreso. — Mariana, és tão independente… Achámos que aguentavas.
— Aguento porque não tenho escolha! — gritei, as lágrimas finalmente caindo sem controlo. — Mas estou cansada! Só queria que alguém pensasse em mim por uma vez!
O silêncio foi absoluto. A minha mãe chorou baixinho; o Ricardo saiu da sala sem dizer nada.
Naquela noite decidi: ia recuperar a minha vida. Procurei quartos para ele arrendar, falei com amigos dele, mexi todos os contactos possíveis até encontrar uma solução temporária num T0 partilhado em Lisboa.
Quando lhe contei, ele ficou calado durante muito tempo.
— Obrigado… Desculpa ter-te posto nesta posição — disse finalmente.
Abracei-o e chorei tudo o que tinha guardado durante meses.
Hoje vivo sozinha outra vez no meu pequeno apartamento amarelo. O Ricardo está a tentar recomeçar e fala comigo todas as semanas. A relação com os meus pais ainda está tensa; sinto que nunca vão perceber completamente o quanto me magoaram com aquele pedido.
Às vezes olho para as paredes e penso: será egoísmo querer ser feliz? Até onde devemos ir por aqueles que amamos? E vocês… já sentiram este peso nas vossas famílias?