Cinco anos depois do divórcio, a minha sogra ainda não me aceita

— Não percebes, Sofia? A Leonor sempre foi a mulher certa para o Miguel. Tu… tu apareceste do nada. — A voz da Dona Teresa ecoava pela cozinha, misturada com o cheiro do café acabado de fazer. Eu estava ali, com as mãos trémulas em cima da mesa, a tentar não deixar cair a chávena.

Olhei para ela, para aqueles olhos frios que nunca me tinham olhado com ternura. Cinco anos. Cinco anos desde que entrei nesta casa pela primeira vez, com o coração apertado e a esperança de ser recebida como alguém que podia trazer felicidade ao filho dela. Mas para a Dona Teresa, eu era só uma intrusa.

O Miguel estava no trabalho. O Tomás, o nosso filho de três anos, brincava na sala com os carrinhos. E eu ali, sozinha com aquela mulher que nunca me chamou pelo nome sem um tom de desdém.

— Dona Teresa, eu não vim substituir ninguém. O Miguel e a Leonor já não eram felizes. — Tentei manter a voz firme, mas senti-a vacilar.

Ela riu-se, um riso seco, quase cruel.

— Não eram felizes? E tu sabes lá o que é ser feliz? Achas que é fácil criar uma criança sem a mãe verdadeira? A Leonor era família. Tu… tu és só uma passagem.

As palavras dela magoavam mais do que qualquer bofetada. Lembrei-me da primeira vez que conheci o Miguel: ele estava destruído, acabado de sair de um casamento onde já não havia amor, só rotina e silêncios. Fomos amigos antes de sermos amantes. Ele contou-me tudo: como a Leonor se tinha afastado, como já não se reconheciam um no outro. Mas para a Dona Teresa, nada disso importava.

A minha vida tornou-se uma sucessão de pequenas batalhas. No Natal, ela fazia questão de convidar a Leonor para a ceia. “Pelo bem do neto”, dizia. Eu sentava-me à mesa, sentia-me invisível enquanto todos falavam das memórias antigas, das férias em Vila Nova de Milfontes, das festas de aniversário do Miguel em criança. Eu era sempre a última a ser servida, a última a ser ouvida.

O Miguel tentava proteger-me, mas também ele era prisioneiro da culpa. Uma noite, depois de mais uma discussão com a mãe dele, encostou-se à ombreira da porta do nosso quarto e disse:

— Sofia, eu sei que isto é difícil para ti. Mas ela nunca vai mudar. Não sei o que fazer.

Eu abracei-o, mas sentia-me sozinha mesmo nos braços dele.

A Leonor era presença constante. Vinha buscar o filho todos os fins-de-semana. Às vezes ficava para almoçar. A Dona Teresa fazia questão de lhe preparar o prato preferido: bacalhau à Brás. Eu sentava-me ao lado do Miguel e via-os rir dos tempos antigos. Sentia-me uma sombra.

Uma tarde, ouvi a Dona Teresa ao telefone:

— Se calhar ainda há esperança… O Miguel nunca deixou de gostar da Leonor. Esta Sofia é só uma fase má.

Chorei no quarto até não ter mais lágrimas.

O Tomás começou a perceber as tensões. Um dia perguntou-me:

— Mãe, porque é que a avó gosta mais da outra senhora?

O meu coração partiu-se em mil pedaços.

Tentei falar com o Miguel sobre mudarmos de cidade, começarmos de novo longe daquela sombra do passado. Ele hesitou:

— E se isso magoar o Tomás? E se for pior para ele?

Senti raiva e culpa ao mesmo tempo. Era sempre eu quem tinha de ceder.

Um domingo à tarde, depois de mais um almoço tenso em casa da Dona Teresa, decidi confrontá-la.

— Dona Teresa, eu amo o seu filho e amo o Tomás como se fosse meu filho também. Não quero tirar ninguém da vida dele. Mas não posso continuar a viver assim.

Ela olhou-me com desprezo:

— Então vai-te embora. Ninguém te pediu para ficares.

Saí dali com as pernas a tremer. O Miguel veio atrás de mim para o carro.

— O que aconteceu?

— Ou ela ou eu — disse-lhe, pela primeira vez sem medo da resposta.

Ele ficou em silêncio durante muito tempo. Depois disse:

— Preciso pensar.

Durante dias quase não falámos. O Tomás sentiu tudo: ficou mais calado, começou a fazer birras na escola.

Uma noite ouvi-o chorar no quarto dele. Fui lá e sentei-me na cama ao lado dele.

— Mãe… tu vais embora?

Abracei-o com força.

— Nunca te vou deixar, Tomás. Nunca.

No dia seguinte, o Miguel chegou a casa mais cedo. Sentou-se comigo na sala e disse:

— Falei com a minha mãe. Disse-lhe que tu és a minha família agora. Que se ela não aceitar isso, vamos afastar-nos por uns tempos.

Senti um alívio misturado com medo do futuro.

A Dona Teresa deixou de nos visitar durante semanas. O silêncio era estranho, mas também reconfortante. O Tomás parecia mais feliz; até começou a desenhar-nos juntos: eu, ele e o Miguel — sem sombras atrás.

Mas nada é simples numa família portuguesa onde as raízes são profundas e as mágoas antigas nunca morrem completamente.

No aniversário do Tomás, a Dona Teresa apareceu à porta com um bolo enorme nas mãos e lágrimas nos olhos.

— Posso entrar?

Olhei para o Miguel; ele assentiu devagar.

Ela ajoelhou-se à frente do neto e abraçou-o com força.

Depois olhou para mim e murmurou:

— Não sei se algum dia vou conseguir esquecer o passado… mas talvez consiga aprender a viver com ele.

Naquele momento percebi que as famílias são feitas de dores e perdões lentos — e que talvez nunca seja aceite totalmente, mas posso ser amada à minha maneira.

Às vezes pergunto-me: quantas mulheres vivem presas ao passado das famílias dos outros? Quantas conseguem encontrar o seu lugar sem se perderem pelo caminho?