A Nova Neta Desfez a Nossa Família – Será Que Ainda Há Volta a Dar?
— Avó, porque é que me perguntas isso? — O Tomás olhou para mim com aqueles olhos grandes e sinceros, mas havia ali uma sombra de dúvida que nunca tinha visto antes. O meu coração apertou-se. Eu só queria saber se ele tinha recebido o dinheiro para os livros da escola, aquele que pedi ao Miguel para lhe entregar. Mas a resposta do meu neto foi como um murro no estômago.
— A mãe disse que não devo falar sobre dinheiro com ninguém. — Ele baixou os olhos, envergonhado, como se tivesse feito algo errado.
Senti o sangue gelar-me nas veias. Desde que o Miguel casou com a Sofia, tudo mudou. No início, tentei dar-lhe espaço, respeitar a nova dinâmica. A Sofia era educada, mas fria. Nunca me tratou mal, mas também nunca me deixou aproximar. O Miguel, sempre tão próximo de mim, começou a afastar-se. Primeiro eram só menos telefonemas, depois visitas cada vez mais curtas e apressadas.
Lembro-me do dia em que o Miguel me apresentou a Sofia. Estávamos todos sentados à mesa da sala de jantar, aquela mesa antiga que já era da minha mãe. A Sofia sorriu, mas os olhos dela não sorriam. O Miguel parecia nervoso, como se estivesse à espera de um julgamento. Eu tentei ser calorosa, perguntei-lhe sobre a família dela em Braga, sobre o trabalho no hospital. Ela respondeu tudo certo, mas sem nunca se abrir realmente.
Com o tempo, comecei a notar pequenas coisas. O Tomás já não vinha passar fins de semana comigo como antes. Quando vinha, trazia sempre um presente novo — um brinquedo caro ou roupa de marca — e falava muito sobre as coisas que faziam com a mãe e o pai. Eu sentia-me cada vez mais uma visita na vida deles.
O pior foi quando o Miguel começou a evitar falar comigo sobre assuntos importantes. Uma vez perguntei-lhe se precisavam de ajuda para pagar as atividades do Tomás — ele sempre gostou de futebol e música — e ele respondeu-me secamente:
— Mãe, nós tratamos disso. Não te preocupes.
Mas eu preocupava-me. Sempre fui mãe galinha, talvez até demais. Depois da morte do meu marido, o Miguel ficou ainda mais próximo de mim. Fomos companheiros de dor e de superação. Por isso me custa tanto vê-lo agora tão distante.
Naquele dia em que perguntei ao Tomás pelo dinheiro dos livros e ele me respondeu daquela maneira, senti que algo se partiu dentro de mim. Fui para casa e chorei sozinha na cozinha. Olhei para as fotografias antigas na parede — o Miguel em pequeno, o Tomás bebé ao colo dele — e perguntei-me onde é que tinha falhado.
No domingo seguinte, decidi convidar o Miguel para almoçar cá em casa, só ele. Queria falar-lhe abertamente, sem rodeios.
— Miguel, precisamos de conversar — disse-lhe assim que entrou.
Ele olhou-me desconfiado.
— O que se passa?
— Sinto que estou a perder-te. Sinto que a Sofia não gosta de mim e que tu estás a afastar-te por causa disso.
O Miguel suspirou fundo e passou as mãos pelo cabelo.
— Mãe, não é isso…
— Então explica-me! Porque é que já não vens cá? Porque é que o Tomás parece ter medo de falar comigo?
Ele ficou calado durante uns segundos eternos.
— A Sofia acha que tu te metes demasiado na nossa vida — disse finalmente, num tom baixo.
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim.
— Eu só quero ajudar! Sempre quis o melhor para vocês!
— Eu sei… Mas às vezes sentimo-nos sufocados. A Sofia sente-se julgada por ti.
Fiquei sem palavras. Eu? Julgar alguém? Sempre tentei ser compreensiva! Mas será que sem querer passei essa imagem?
O almoço foi tenso. O Miguel mal tocou na comida. Quando saiu, deu-me um beijo apressado na testa e disse:
— Dá-nos tempo, mãe.
Fiquei sozinha na sala, com o cheiro do assado ainda no ar e um vazio enorme no peito.
Nas semanas seguintes tentei afastar-me um pouco. Não liguei tanto, não insisti em visitas. Mas isso só fez com que me sentisse ainda mais isolada. As amigas diziam-me para ter paciência, que os filhos crescem e fazem a sua vida. Mas eu não conseguia aceitar aquela distância como natural.
Um dia encontrei a Sofia no supermercado. Ela estava com o Tomás e nem tentou esconder o incómodo ao ver-me.
— Olá, Sofia! Olá, Tomás! — tentei sorrir.
O Tomás correu para mim e abraçou-me com força.
— Avó!
A Sofia ficou tensa.
— Tomás, anda cá — chamou-o num tom seco.
Olhei-a nos olhos e arrisquei:
— Sofia, podemos conversar?
Ela hesitou mas acabou por acenar com a cabeça. Fomos até à cafetaria do supermercado enquanto o Tomás ficou a ver desenhos animados no telemóvel.
— Sofia… Eu sei que as coisas não têm sido fáceis entre nós. Mas eu amo o meu filho e o meu neto mais do que tudo nesta vida. Não quero ser um problema para vocês.
Ela olhou para mim durante uns segundos longos demais.
— Dona Teresa… Eu cresci numa família complicada. Sempre tive medo de sogras controladoras… E às vezes sinto que está sempre a avaliar tudo o que faço.
Fiquei surpreendida pela honestidade dela.
— Talvez eu tenha sido demasiado presente… Mas só porque tive medo de perder o Miguel depois da morte do pai dele. Ele foi tudo para mim durante muito tempo.
A Sofia respirou fundo.
— Eu entendo… Mas preciso do Miguel ao meu lado agora. E preciso sentir que temos espaço para sermos uma família à nossa maneira.
Saí dali com um nó na garganta. Percebi que talvez estivesse mesmo a sufocá-los sem querer. Mas também senti uma tristeza profunda por saber que nunca faria parte daquela nova família como tinha sonhado.
Os meses passaram devagar. O Natal aproximava-se e eu não sabia se devia convidá-los ou esperar que viessem por iniciativa própria. Acabei por enviar uma mensagem simples:
“Gostava muito de vos ter cá no Natal. Se quiserem vir…”
No dia 24 à noite tocaram à campainha. Era o Miguel com o Tomás e… a Sofia! Trouxeram um bolo-rei e um sorriso tímido.
O jantar foi estranho ao início, mas aos poucos fomos relaxando. O Tomás contou piadas da escola, o Miguel ajudou-me na cozinha e até a Sofia partilhou histórias do hospital.
No fim da noite, quando todos já tinham ido embora e fiquei sozinha na sala iluminada pelas luzes da árvore de Natal, pensei em tudo o que tinha acontecido naquele ano.
Será que alguma vez voltaremos a ser uma família unida? Ou será este o preço inevitável do crescimento dos filhos?
Às vezes pergunto-me: quantas mães e avós passam pelo mesmo? Será possível encontrar um equilíbrio entre amar demasiado e dar espaço suficiente? Gostava tanto de ouvir as vossas histórias…