Promessa à Luz das Velas: Sacrifício de Mãe ou Traição?
— Mãe, não podes fazer-me isto! — gritou Inês, os olhos cheios de lágrimas, a voz a tremer entre a raiva e a incredulidade.
Senti o peito apertar-se, como se cada palavra dela fosse uma pedra lançada contra mim. O salão estava vazio, apenas nós duas, mas as paredes pareciam ecoar o desespero da minha filha. O vestido de noiva pendurado na porta era um lembrete cruel do que estava em risco.
“Se soubesses, filha… Se soubesses o que me custa”, pensei, mas as palavras não saíam. Em vez disso, limitei-me a olhar para as minhas mãos, tão gastas de anos de trabalho no café da vila, mãos que agora tremiam de culpa.
— Inês, eu… — tentei começar, mas ela virou-me as costas, os ombros tensos.
— Disseste-me que era o meu dia! Disseste que ias tratar de tudo! — A voz dela subiu de tom. — E agora dizes que não há dinheiro para nada? Nem para o fotógrafo, nem para o bolo… Nem sequer para o salão?
O silêncio caiu pesado entre nós. Lá fora, ouvia-se o som distante de um carro a passar na estrada nacional. O cheiro a café frio pairava no ar. Lembrei-me do meu marido, António, sentado na sala de espera do hospital há apenas duas semanas, pálido como um fantasma. O médico tinha sido claro: ou fazíamos a operação imediatamente ou arriscávamos perdê-lo.
Mas como explicar isto à Inês? Como dizer-lhe que o dinheiro das poupanças — aquele envelope azul escondido no fundo da gaveta — tinha ido para salvar o pai dela?
— Inês… O teu pai… — comecei, mas ela interrompeu-me.
— O pai está melhor! Já saiu do hospital! — gritou. — E eu? E o meu casamento? Não contas comigo para nada?
A raiva dela era como uma faca. Senti-me pequena, esmagada pela culpa e pela impotência. Recordei todos os anos em que trabalhei horas extra para lhe dar tudo: os livros da escola, as sapatilhas caras que ela queria quando era adolescente, as viagens de finalistas. Sempre prometi que o casamento dela seria diferente do meu — não numa sala de juntas da câmara municipal com dois vizinhos como testemunhas, mas com flores, música e todos os amigos.
Mas a vida tem uma maneira cruel de nos obrigar a escolher.
— Eu só queria que fosses feliz — murmurei, quase sem voz.
Ela olhou para mim, os olhos vermelhos.
— E achas que estou feliz agora?
As palavras dela ficaram a pairar no ar. Senti uma lágrima escorrer-me pela face. Tentei aproximar-me dela, mas ela recuou.
— Não percebes… Eu já disse ao Miguel que ia ser tudo perfeito! A família dele já está a olhar de lado porque somos “pobres”! Agora vão mesmo achar que somos uns falhados!
O nome do Miguel trouxe-me à memória as conversas tensas com os pais dele. Gente de Lisboa, habituada a festas grandes e aparências. Lembrei-me da mãe dele a perguntar quantos convidados íamos ter e se já tínhamos contratado um catering “decente”. Senti vergonha por não poder corresponder às expectativas deles.
— Inês, eu tentei… — sussurrei.
Ela abanou a cabeça.
— Não tentaste o suficiente.
Saiu do salão sem olhar para trás. Fiquei ali sozinha, rodeada por cadeiras vazias e sonhos desfeitos.
Naquela noite, não consegui dormir. O António estava no quarto ao lado, ainda fraco da operação. Olhei para ele e senti um misto de alívio e culpa. Salvei-lhe a vida — mas perdi a confiança da minha filha?
No dia seguinte, fui trabalhar como sempre. O café estava cheio de gente: senhoras idosas a jogar às cartas, jovens a rir-se alto ao balcão. Todos sabiam do casamento da Inês; todos esperavam uma festa à altura. Senti os olhares curiosos quando entrei.
A D. Rosa aproximou-se:
— Então, Mariana? Já está tudo pronto para o grande dia?
Sorri sem vontade.
— Vai ser mais simples do que pensávamos…
Ela pousou a mão no meu braço.
— O importante é estarem juntos. O resto são só detalhes.
Queria acreditar nela. Mas sabia que para a Inês não era assim tão simples.
Ao fim da tarde, recebi uma mensagem do Miguel: “Podemos falar?”
Encontrei-o junto ao rio, onde costumava ir pescar com o António. Estava nervoso, as mãos nos bolsos.
— D. Mariana… A Inês está muito em baixo. Disse-me que não vai haver festa nenhuma…
Assenti em silêncio.
— Eu sei que isto é difícil — continuou ele — mas ela sente-se humilhada. Os meus pais também estão a pressionar muito…
Senti vontade de gritar com ele: “E tu? O que fizeste para ajudar?” Mas calei-me. Ele era só um rapaz assustado perante expectativas impossíveis.
— Miguel… Eu fiz o melhor que pude. O dinheiro foi para salvar o António. Não havia outra escolha…
Ele olhou para mim com compreensão.
— Eu percebo… Mas será que não podemos fazer algo pequeno? Só com os mais próximos?
A ideia pareceu-me sensata. Talvez fosse possível salvar alguma coisa do sonho da Inês.
Voltei para casa determinada a falar com ela. Encontrei-a sentada na cama, rodeada por revistas de casamentos rasgadas e papéis espalhados pelo chão.
— Inês… Podemos falar?
Ela não respondeu. Sentei-me ao lado dela e peguei-lhe na mão.
— Sei que estás magoada comigo. Sei que te desiludi…
Ela virou-se finalmente para mim, os olhos cansados de tanto chorar.
— Porque é que nunca temos sorte? Porque é que tudo corre mal à nossa família?
A pergunta dela ficou presa no ar. Quis dizer-lhe que sorte é termos-nos uns aos outros; quis dizer-lhe que há pessoas que nem sequer têm família para celebrar nada… Mas sabia que ela precisava de tempo para aceitar.
— O Miguel sugeriu fazermos algo pequeno… Só com quem realmente importa. Não é o casamento dos teus sonhos — admiti — mas é feito com amor.
Ela ficou em silêncio durante muito tempo. Finalmente, suspirou:
— Não sei se consigo perdoar-te já… Mas não quero perder-te também.
Abraçámo-nos ali mesmo, entre lágrimas e promessas sussurradas ao ouvido.
O casamento aconteceu duas semanas depois, no jardim das traseiras da nossa casa. Não houve salão luxuoso nem fotógrafo profissional; as fotos foram tiradas pelo primo João com o telemóvel antigo dele. A D. Rosa fez o bolo e as vizinhas trouxeram flores do campo.
No final do dia, enquanto via a Inês dançar com o António — ele ainda coxeando um pouco mas sorridente como há muito não via — senti uma paz estranha misturada com tristeza.
Talvez nunca me perdoe totalmente por ter destruído o sonho dela. Talvez um dia perceba o quanto me custou escolher entre ela e o pai dela.
Agora pergunto-me: será que alguma vez podemos ser perdoados pelos sacrifícios que fazemos por amor? Ou será que certas feridas nunca saram completamente?