O Rachado Silêncio da Madrugada: Entre Mentiras e Esperança

— Chegaste tarde outra vez, Miguel. — A minha voz saiu mais baixa do que queria, quase um sussurro, mas carregada de tudo o que não disse durante semanas. Ele nem olhou para mim. Atirou a gravata para cima da cómoda, os sapatos ficaram pelo corredor, e desapareceu na casa de banho como se a água pudesse lavar não só o suor do dia, mas também as mentiras que trazia coladas à pele.

Ouvi o chuveiro abrir-se no máximo, a água a bater forte no azulejo. O vapor começou a sair por baixo da porta. Sentei-me na beira da cama, as mãos frias a tremerem no colo. O relógio digital piscava 2:13. O silêncio da casa era tão denso que quase me sufocava.

Olhei para a cadeira onde ele largara o casaco. Não queria, mas fui até lá. O cheiro dele ainda estava impregnado no tecido — perfume caro misturado com algo estranho, talvez um aroma doce que não era meu. Mexi nos bolsos, sem saber bem o que procurava. E então encontrei: um recibo amarrotado, com o nome de um restaurante caro no Chiado. Jantar para dois. Vinho do Douro. Sobremesa partilhada.

O chão fugiu-me dos pés. Senti-me ridícula, ali parada no escuro, a tentar decifrar uma caligrafia impressa numa folha de papel térmico. Lembrei-me de quando éramos nós a jantar fora, a rir das pequenas coisas, antes de tudo se tornar rotina e silêncio.

Miguel saiu do banho sem me ver, enrolado na toalha, olhos vermelhos — não sei se do cansaço ou do vapor. Passou por mim como se eu fosse invisível.

— Não vais dizer nada? — perguntei, a voz embargada.

Ele hesitou um segundo, depois continuou para o quarto.

— Estou cansado, Marta. Amanhã falamos.

Amanhã. Sempre amanhã. Como se o amanhã fosse um lugar seguro onde os problemas se dissolvem sozinhos.

Deitei-me sem conseguir fechar os olhos. Ouvia-lhe a respiração pesada ao meu lado, tão perto e tão longe. Lembrei-me do início: das noites em que ficávamos acordados até tarde a falar dos nossos sonhos, dos passeios à beira-rio, das promessas sussurradas ao ouvido. Quando foi que deixámos de ser nós?

No dia seguinte, acordei antes dele. Preparei café, pus pão na torradeira — gestos automáticos de quem tenta manter uma normalidade impossível. Quando ele entrou na cozinha, sentei-me à mesa com o recibo à frente.

— Queres explicar isto? — perguntei, sem rodeios.

Miguel olhou para o papel como se fosse uma bomba prestes a explodir.

— Não é o que parece.

Ri-me, amarga.

— Então explica-me tu o que é. Porque eu já não sei nada nesta casa.

Ele passou as mãos pelo cabelo, nervoso.

— Foi só um jantar de trabalho. A Andreia do departamento financeiro veio de Braga e quis discutir uns contratos… — A voz dele tremia ligeiramente.

— Às duas da manhã? Com vinho e sobremesa partilhada? — interrompi-o.

O silêncio caiu entre nós como uma sentença. Ele não respondeu. Levantou-se e saiu de casa sem dizer mais nada.

Fiquei ali sentada horas, o café arrefecendo na chávena. Liguei à minha irmã, Inês.

— Marta, tu tens de te pôr em primeiro lugar — disse ela. — O Miguel já não é o mesmo há meses. Não podes continuar assim.

Mas como é que se larga uma vida inteira? Como é que se explica aos filhos que o pai pode já não voltar para casa? O Tomás tinha 10 anos e ainda acreditava que os pais eram invencíveis; a Leonor só queria colo e histórias antes de dormir.

Durante dias, Miguel evitou-me. Chegava tarde, saía cedo. Os miúdos começaram a perguntar por ele; inventei desculpas atrás de desculpas até já não saber distinguir verdade de mentira.

Uma noite, depois de adormecer as crianças, sentei-me no sofá com uma manta e um copo de vinho barato. Liguei a televisão só para ouvir vozes humanas na sala vazia. De repente ouvi a porta abrir-se devagar.

— Marta… — A voz dele soou cansada, quase derrotada.

Olhei para ele sem falar.

— Eu… — hesitou — …eu não sei como chegámos aqui. Juro que nunca quis magoar-te.

As lágrimas vieram sem aviso.

— Então porque é que o fizeste? Porque é que me deixaste sozinha nesta casa todos estes meses?

Ele sentou-se ao meu lado, mas parecia tão distante como sempre.

— Senti-me perdido. O trabalho… as cobranças… Senti que já não era suficiente para ti nem para ninguém.

— E achaste que outra mulher ia resolver isso? — perguntei, amarga.

Ele baixou os olhos.

— Não foi isso… Eu nem sei bem o que aconteceu. Só queria fugir por umas horas à pressão de tudo isto.

Ficámos em silêncio muito tempo. Depois levantei-me devagar.

— Preciso de pensar, Miguel. Preciso de saber quem sou sem ti.

Nessa noite dormi no quarto da Leonor, abraçada ao cheiro doce do cabelo dela. Senti-me mãe antes de tudo o resto — antes de ser mulher traída ou esposa abandonada.

Os dias seguintes foram um nevoeiro denso: trabalho no escritório da Baixa, reuniões apressadas, colegas curiosos com olhares de pena disfarçada. Em casa, os miúdos sentiam a tensão no ar; começaram a discutir por tudo e por nada.

Uma tarde, ao buscar o Tomás à escola primária do bairro Alto, ele perguntou:

— Mãe, tu e o pai vão separar-se?

O coração apertou-se-me no peito.

— Não sei, querido… Mas aconteça o que acontecer, nós vamos estar sempre aqui para ti e para a Leonor.

Ele abraçou-me com força e senti as lágrimas quentes caírem-lhe no ombro da minha blusa.

Na semana seguinte decidi sair de casa por uns dias. Fui para casa da Inês em Almada; ela recebeu-me com chá quente e silêncio compreensivo. À noite falávamos até tarde sobre tudo: sobre os nossos pais já falecidos, sobre amores antigos e sonhos adiados pela vida adulta.

— Lembras-te quando querias ser bailarina? — perguntou ela uma noite.

Sorri pela primeira vez em semanas.

— Lembro… E tu querias ser astronauta!

Rimos juntas como há muito não fazíamos. Senti uma centelha de esperança acender-se dentro de mim: talvez ainda houvesse vida depois do Miguel; talvez ainda pudesse ser feliz sozinha ou com alguém capaz de me amar sem reservas nem mentiras.

Miguel ligou-me todos os dias; às vezes chorava ao telefone, outras vezes só pedia desculpa em silêncio. Disse-lhe que precisava de tempo — tempo para mim e para os miúdos.

Voltei a Lisboa duas semanas depois. A casa parecia diferente: mais fria mas também mais minha. Os miúdos correram para mim; Miguel ficou parado à porta do quarto deles, olhos vermelhos e mãos nos bolsos como um adolescente apanhado em falta.

Sentámo-nos à mesa da cozinha — aquela mesma mesa onde tantas vezes rimos juntos — e falámos durante horas: sobre mágoas antigas nunca ditas, sobre sonhos adiados pela rotina dos dias iguais, sobre perdão e limites.

No fim percebi que talvez nunca voltássemos a ser como antes; mas também percebi que eu era mais forte do que pensava. Decidimos dar-nos espaço: ele ficou uns tempos em casa da mãe dele em Setúbal; eu fiquei com os miúdos em Lisboa.

Comecei a fazer pequenas coisas só para mim: aulas de dança ao sábado de manhã no bairro da Graça; tardes no jardim com as crianças; jantares com amigas antigas recuperadas do esquecimento dos anos casados.

Miguel tentou reconquistar-me: flores deixadas à porta, mensagens longas cheias de promessas novas. Mas desta vez fui eu quem escolheu esperar — esperar por mim própria antes de decidir se ainda havia um “nós” possível ou se era tempo de recomeçar sozinha.

Hoje escrevo esta história sentada à janela do nosso apartamento antigo na Avenida Almirante Reis; vejo Lisboa lá fora cheia de luzes e possibilidades. Os miúdos dormem tranquilos nos seus quartos; Miguel liga todas as noites para lhes dar as boas-noites pelo telefone.

Ainda não sei qual será o nosso futuro — juntos ou separados — mas sei que sobrevivi ao pior dos silêncios: aquele que cresce entre duas pessoas que já não sabem falar verdade uma com a outra.

Pergunto-me: quantas mulheres vivem presas neste mesmo silêncio? Quantas têm coragem para recomeçar? E vocês… já tiveram de escolher entre perdoar ou seguir em frente?