Tio António, Devias Estar ao Lado da Tua Sobrinha – Uma História Que Mudou a Minha Vida
— Tio António, podes falar agora? — A voz da Mariana tremia do outro lado da linha, e eu, sentado à mesa da cozinha, olhei para o relógio. Eram quase onze da noite. A minha mulher, Teresa, já ressonava no quarto, e eu tinha acabado de apagar o cigarro na chávena de café frio.
— Mariana, está tudo bem? — perguntei, tentando esconder o cansaço na voz. Já estava habituado aos telefonemas dela, quase sempre a pedir boleia para a faculdade ou uns trocos para o almoço. Mas naquela noite, havia algo diferente. O silêncio dela era pesado, como se cada palavra custasse a sair.
— Preciso de falar contigo… mas não é sobre dinheiro. — A pausa foi longa. — É sobre a mãe.
O meu coração apertou-se. A minha irmã, Ana, sempre foi o pilar da família desde que o nosso pai morreu. Mas nos últimos meses, andava estranha: calada, ausente, a olhar para o vazio durante os jantares de domingo. Eu fingia não ver, como se ignorar fosse resolver alguma coisa.
— O que se passa com a tua mãe? — perguntei, já com medo da resposta.
— Ela… Ela está diferente. Não fala comigo, não come direito. Hoje encontrei-a a chorar no quarto. Disse que não aguentava mais. — A voz da Mariana falhou.
Levantei-me de repente, a cadeira arrastando-se pelo chão de azulejo. O eco do choro da minha irmã atravessou-me como uma faca. Senti-me culpado por não ter reparado antes.
— Mariana, amanhã vou aí. Não te preocupes. — Tentei soar firme, mas por dentro sentia-me um miúdo perdido.
Desliguei o telefone e fiquei ali parado, no escuro da cozinha, a ouvir o tique-taque do relógio e o som distante dos carros na rua. Lembrei-me dos tempos em que eu e a Ana éramos inseparáveis: as brincadeiras no quintal dos avós em Viseu, as tardes de verão a roubar figos do vizinho. Como é que deixámos que a vida nos afastasse tanto?
Na manhã seguinte, mal dormido e com o coração apertado, fui até à casa da Ana. O prédio era antigo, as paredes cheiravam a humidade e os degraus rangiam sob os meus pés. Mariana abriu-me a porta com os olhos inchados de tanto chorar.
— Está no quarto — sussurrou.
Entrei devagarinho. A Ana estava sentada na cama, de costas para mim, a olhar pela janela para o céu cinzento de Lisboa. O cabelo desgrenhado caía-lhe pelos ombros magros.
— Ana… — chamei baixinho.
Ela virou-se devagar e sorriu sem alegria.
— António… Vieste.
Sentei-me ao lado dela e peguei-lhe na mão. Estava fria como pedra.
— O que se passa contigo? — perguntei, tentando não soar acusador.
Ela olhou para mim com olhos vermelhos.
— Sinto-me sozinha, António. Desde que o João foi embora… — A voz dela tremeu ao pronunciar o nome do ex-marido. — Sinto que falhei como mãe, como mulher… até como irmã.
O silêncio caiu entre nós como um manto pesado. Lembrei-me das discussões dela com o João antes do divórcio: gritos abafados pelas paredes finas do prédio, portas a baterem no meio da noite. Eu nunca me meti — “assuntos de casal”, dizia sempre a Teresa — mas agora percebia que devia ter estado mais presente.
— Não falhaste nada — disse-lhe, apertando-lhe a mão com força. — Todos temos momentos maus. Mas tens a mim. Tens a Mariana.
Ela chorou baixinho no meu ombro durante minutos que pareceram horas. Mariana apareceu à porta do quarto e ficou ali parada, sem saber se devia entrar ou sair.
— Mãe… — murmurou ela finalmente.
Ana olhou para a filha e abriu os braços. As duas abraçaram-se num choro silencioso que me fez sentir pequeno e impotente.
Nos dias seguintes, tentei estar mais presente: levava sopa quente à Ana, ajudava a Mariana com os trabalhos da faculdade e até comecei a ir buscar pão fresco todas as manhãs só para ter uma desculpa para aparecer lá em casa.
Mas nem tudo era fácil. Teresa começou a resmungar lá em casa:
— António, passas mais tempo com a tua irmã do que comigo! E se calhar devias pensar mais nos teus filhos do que na Ana!
Os meus filhos, Pedro e Sofia, também não gostaram da mudança:
— O pai agora só fala da tia Ana! — ouvi a Sofia dizer à mãe numa noite em que pensavam que eu não estava a ouvir.
Senti-me dividido entre duas famílias: a minha e a da minha irmã. Comecei a chegar tarde a casa, evitava conversas difíceis e refugiei-me no trabalho para não pensar demasiado.
Uma noite, depois de um jantar tenso em casa da Ana (em que Mariana quase não falou e Ana mal tocou na comida), decidi confrontar todos:
— Isto não pode continuar assim! Estamos todos juntos nesta família ou não estamos?
Mariana olhou para mim com lágrimas nos olhos:
— Tio… tenho medo de perder a mãe. Tenho medo de te perder também.
Ana baixou os olhos:
— Não quero ser um peso para ninguém…
Levantei-me e bati com o punho na mesa:
— Ninguém aqui é peso! Somos família! E família ajuda-se!
O silêncio caiu pesado outra vez, mas desta vez senti que algo tinha mudado. Pela primeira vez em meses, vi um brilho nos olhos da Ana — uma centelha de esperança.
Os meses passaram devagarinho. Ana começou a ir à terapia (depois de muita insistência minha), Mariana voltou a sorrir e até Teresa acabou por aceitar que eu passasse mais tempo com elas. Os meus filhos começaram a visitar mais vezes a tia e até ajudaram a pintar as paredes do apartamento num fim-de-semana de primavera.
Mas nem tudo voltou ao normal. Havia feridas profundas: mágoas antigas entre mim e Ana por coisas nunca ditas; ressentimentos de Teresa por sentir-se posta de lado; inseguranças da Mariana por medo de ser abandonada como o pai fez.
Uma tarde de domingo, enquanto bebíamos café na varanda da Ana, ela olhou para mim e disse:
— Obrigada por não desistires de mim.
Sorri-lhe e senti uma lágrima escorrer-me pela face.
Agora percebo que estar presente não é só aparecer quando tudo está bem — é ficar quando tudo desaba. Pergunto-me quantas vezes ignoramos os sinais de quem amamos porque temos medo do incómodo ou porque achamos que “vai passar” sozinho.
E vocês? Já sentiram que podiam ter feito mais por alguém? Será que ainda vamos a tempo de mudar alguma coisa?