“Tens um mês para sair da minha casa!” – O dia em que tudo mudou

“Tens um mês para sair da minha casa!”

As palavras da Dona Amélia ecoaram pela sala, misturando-se com o som da chuva a bater nas janelas do apartamento antigo em Arroios. O cheiro do café acabado de fazer já não me confortava. Senti o coração apertar, as mãos suadas. Olhei para o Rui, à espera de uma reação, mas ele mantinha-se calado, os olhos fixos no chão, como se quisesse desaparecer.

“Amélia, por favor…”, tentei argumentar, mas ela interrompeu-me com um gesto seco.

“Já chega, Sofia. Não aguento mais esta situação. Vocês prometeram que era só por uns meses e já cá estão há quase um ano. Preciso do meu espaço.”

O Rui continuava mudo. Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim. Como podia ele não me defender? Como podia ficar tão alheio quando a mãe nos expulsava assim?

“Rui, diz alguma coisa!”, sussurrei, quase implorando.

Ele levantou os olhos, mas só murmurou: “A minha mãe tem razão… Não podemos ficar aqui para sempre.”

Foi como se me tivessem dado uma bofetada. A minha cabeça girava com perguntas sem resposta. Como é que chegámos aqui? Tínhamos vindo para Lisboa há dois anos, cheios de sonhos. O Rui tinha perdido o emprego em Coimbra e eu deixara o meu trabalho numa loja para o acompanhar. Pensámos que Lisboa seria o recomeço. Mas a cidade era dura, os empregos escassos e os preços dos quartos impossíveis.

A casa da Dona Amélia foi o nosso porto de abrigo – ou assim pensei. No início, ela parecia feliz por nos ter ali. Fazia-nos sopa ao jantar, contava histórias do bairro e até me ensinou a fazer arroz doce como ela fazia para o Rui em pequeno. Mas com o tempo, tudo mudou. Pequenas discussões sobre a loiça por lavar, sobre o barulho da televisão à noite, sobre as minhas tentativas de arranjar trabalho – tudo se transformava em motivo de tensão.

Naquela noite, depois do ultimato, fechei-me no quarto e chorei baixinho para não acordar o Rui. Senti-me humilhada. Lembrei-me da minha mãe em Viseu, sempre a dizer: “Cuidado com as sogras, filha. Casa-te com o homem, mas nunca te esqueças que a mãe dele vem no pacote.”

No dia seguinte, tentei falar com o Rui antes de ele sair para mais uma entrevista.

“Rui, não podemos continuar assim. Precisamos de encontrar uma solução juntos.”

Ele suspirou, cansado.

“Eu sei, Sofia… Mas não é fácil. Já viste quanto custa um quarto? E eu ainda nem consegui trabalho…”

“E eu? Achas que não procuro? Já enviei dezenas de currículos! Até para limpezas! Mas ninguém responde…”

O Rui olhou-me com pena – ou seria desdém? – e saiu sem dizer mais nada.

Os dias seguintes foram um tormento. A Dona Amélia evitava-me na cozinha. Quando nos cruzávamos no corredor, limitava-se a acenar com a cabeça e a fechar-se no quarto dela. O Rui passava cada vez menos tempo em casa. Eu sentia-me invisível.

Uma tarde, enquanto lavava a loiça, ouvi-a ao telefone na sala:

“Sim, Teresa… Eles ainda cá estão. Não sei o que fazer… O Rui nunca foi bom a tomar decisões… E ela? Está sempre deprimida… Não ajuda nada.”

Senti uma raiva quente subir-me à cara. Era assim que ela falava de mim? Como se eu fosse um peso morto?

Nessa noite, confrontei o Rui.

“A tua mãe acha que eu sou um estorvo! Ouviste o que ela disse?”

Ele encolheu os ombros.

“Ela está cansada, Sofia… E eu também.”

“Então é isso? Vamos desistir?”

O Rui não respondeu. Virou-se para o lado na cama e fingiu dormir.

Os dias passaram devagar. Comecei a sair de casa só para não ter de enfrentar aquele ambiente pesado. Ia até ao Jardim do Torel e sentava-me num banco a ver as pessoas passar. Sentia-me sozinha numa cidade cheia de gente.

Uma tarde, enquanto chorava baixinho no jardim, uma senhora idosa sentou-se ao meu lado.

“Está tudo bem, menina?”

Assenti com a cabeça, mas ela percebeu que não.

“Às vezes precisamos de chorar para limpar a alma”, disse ela com um sorriso triste.

Conversámos durante horas. Chamei-lhe Dona Lurdes. Contei-lhe tudo – sobre o ultimato da sogra, sobre o Rui, sobre os meus medos.

“Não deixes que te apaguem”, disse ela antes de se despedir. “Mesmo quando tudo parece perdido, há sempre uma luz.”

Voltei para casa com uma força nova. Decidi procurar trabalho fora da minha área – qualquer coisa servia. No dia seguinte fui bater à porta de um café perto do Martim Moniz.

“Precisa de alguém para ajudar?”, perguntei ao senhor António, o dono.

Ele olhou-me de cima a baixo e sorriu.

“Preciso sim… Mas é trabalho duro.”

“Não faz mal. Eu aguento.”

Comecei no dia seguinte. As mãos ficaram gretadas da água quente e do detergente, mas sentia-me útil pela primeira vez em meses.

Quando contei ao Rui que tinha arranjado trabalho, ele pareceu surpreendido.

“Boa… Assim talvez consigamos juntar algum dinheiro para alugar um quarto.”

Mas percebi que ele estava distante. Passava horas fora de casa e evitava falar comigo sobre o futuro.

Uma noite chegou tarde e cheirava a álcool.

“Onde estiveste?”, perguntei.

“Com uns amigos… Preciso de espairecer”, respondeu seco.

Comecei a desconfiar que havia mais qualquer coisa. Uma noite segui-o discretamente depois do trabalho e vi-o entrar num bar com uma rapariga loira que nunca tinha visto antes. Fiquei parada na rua, sem saber se chorava ou gritava.

No dia seguinte confrontei-o.

“O que se passa entre ti e aquela rapariga?”

Ele ficou pálido.

“Não é nada… Só uma amiga do curso.”

Mas vi nos olhos dele que era mentira.

A Dona Amélia percebeu logo que algo estava errado. Uma noite entrou no nosso quarto sem bater à porta.

“O que se passa convosco? Andam os dois com cara de enterro há semanas!”

Olhei para ela e desatei a chorar.

“Não aguento mais… Sinto-me sozinha nesta casa!”

Ela sentou-se ao meu lado na cama e pela primeira vez vi compaixão nos olhos dela.

“Sofia… Eu também já passei por muito nesta vida. Sei que não sou fácil… Mas esta casa é pequena demais para tanta mágoa.”

Nesse momento percebi que não era só eu que sofria ali – todos estávamos presos num ciclo de frustração e expectativas desfeitas.

No último dia do prazo dado pela Dona Amélia, fiz as malas em silêncio. O Rui disse que ia ficar uns dias em casa de um amigo até arranjar quarto. Eu fui dormir para casa da Dona Lurdes – ela tinha-me oferecido um sofá na sala dela.

Naquela noite olhei para Lisboa pela janela e senti medo do futuro – mas também uma estranha liberdade.

Será que precisava mesmo do Rui para ser feliz? Ou estaria finalmente na altura de descobrir quem sou eu sem ele?

E vocês? Já sentiram que tinham de perder tudo para finalmente se encontrarem?